“No médio prazo, pacote econômico vai dar errado”

Em entrevista à Apufsc, jornalista José Paulo Kupfer, um dos articulistas mais respeitados do País, analisa pacote de Guedes e diz que medidas acentuam desigualdade

Aos 71 anos, o jornalista José Paulo Kupfer é um dos articulistas de economia mais respeitados do País. Em 52 anos de carreira, atou como repórter, exerceu cargos de chefia nas principais redações brasileiras, idealizou o Caderno de Economia do Estadão e foi colunista da Gazeta Mercantil, do Estadão e do O Globo. Neste ano, estreou uma coluna no UOL em que busca fazer um contraponto à cobertura de economia dos maiores veículos de comunicação, que se restringem a ouvir as mesmas fontes e publicar as mesmas visões sobre o que acontece na economia.

Kupfer falou com a imprensa da Apufsc sobre o pacote econômico anunciado pelo ministro Paulo Guedes na semana passada e fez críticas às propostas do governo. Embora defenda a necessidade de reformas, o jornalista, graduado em Economia pela USP, afirma que o pacote de Guedes vai acentuar as desigualdades no País.

O senhor afirmou na sua coluna no Uol que o pacote anunciado pelo governo consolida desigualdades e traz riscos para a economia? Por quê? 

A ideia que está por trás das propostas de emenda da constituição, essas que foram já enviadas para o Congresso e umas outras que foram anunciadas e discutidas recentemente, formam um conjunto cujo objetivo declarado é o de reduzir gastos públicos no sentido de promover o equilíbrio das contas públicas e o ajuste fiscal. O problema mais profundo nessas propostas tem a ver com o ideário do Paulo Guedes. A ideia dele é de um programa no sentido de reduzir o tamanho do Estado, isso significa reduzir as responsabilidades do Estado perante ao país e perante a sociedade. E isso tem problemas, especialmente em países que têm problemas com desigualdade, renda e oportunidades, que é o caso do Brasil. A transferência das responsabilidades do Estado para o setor privado é uma coisa complicada. 

O pacote prevê, por exemplo, a soma dos pisos para saúde e educação. O senhor vê algum problema nessa proposta? 

Isso é uma coisa que não está muito clara, parece que a ideia é permitir que estados e municípios tenham uma maior liberdade de gestão, podendo administrar os percentuais para um e para outro, de acordo com as necessidades e interesses dos seus cidadãos ali no seu lugar. Não é uma ideia fora de sentido, é democrática, interessante, o que faz com que os parlamentares, os representantes do povo decidam sobre isso. O problema é que alguns itens, como a saúde e a educação, precisam ter um piso a ser cumprido. Pode ser que a pressão para a saúde seja tão mais forte que resulte em uma redução dos gastos destinados à educação. Eu acho que no fim das contas o que o governo quer, o que o Paulo Guedes quer, é uma Constituinte. Tem aí uma proposta de Constituinte  a conta gotas por meio de PEC. Isso pra mim está errado. Alterar a substância da constituição, o espírito dela, requer uma constituinte, convocada para isso, não é por um simples processo legislativo. 

Quem são os protagonistas dessa reforma e como eles estão atuando? 

O Paulo Guedes durante anos manteve no Jornal O Globo, na versão impressa, uma coluna semanal em que ele escrevia sobre todas essas ideias extremas, ultra liberais, que ele está querendo fazer valer no governo agora. E isso está por trás das propostas que ele faz e da maneira que ele quer conduzir. Nesse processo envolve o legislativo, o executivo, o presidente Bolsonaro e a sua tropa mais próxima, filhos, políticos e os apoiadores do governo e fora dele. O Bolsonaro vai complicar essa negociação, vai criar confrontos no Congresso. Ele já não tem base e ainda briga com o próprio partido, isso é um complicador para essa tramitação. Eu acho que vai ser uma coisa parecida com a previdência, porém, como é muito maior, mais detalhes e pegadinhas, multiplica as dificuldades. Para mim, vai ser surpresa se andar bem e rápido, vai paralisar um pouco país. 

Boa parte da economia que o governo pretende fazer com esse pacote vai ser usado para gerir a dívida pública e pagamento de juros. O que isso significa? 

Temos um problema, uma dívida pública bastante alta comparada com a de outros países parecidos com o nosso. Ela está próxima ao equivalente a 80% do PIB (Produto Interno Bruto) e isso significa um estrangulamento para financiar as ações do governo, inclusive os gastos que são necessários, porque o governo também impulsiona a economia e exerce essa função de preservar pelo menos os direitos sociais. Então você tem gastos públicos e quando você tem dívida isso fica comprometido porque você tem que pagar juros.

O senhor então defende a necessidade de reformas. Quais e de que forma? 

A principal reforma, quando você pensa na necessidade de fazer uma país crescer com a ampliação de bem estar, seria a reforma tributária. O que eu, como jornalista de economia faço o tempo todo em relação à crítica das políticas e das medidas que são anunciadas é o seguinte: o que isso contribui para o crescimento da economia e para o bem estar das pessoas? Essa é a minha pergunta sempre. E nesse sentido, respondendo a essa minha pergunta, seria preferível no momento estar discutindo uma reforma tributária, porque o nosso sistema tributário é péssimo! Ele desestimula a produção, o crescimento e a inovação, o Brasil é um país muito pouco inovador. O sistema impede, ele é burocrático, perde muito tempo para pagar imposto, ele cobra errado, e é um sistema baseado no imposto sobre o consumo, que pesa proporcionalmente mais sobre os pobres. No Brasil, pobre paga mais imposto que rico. Precisaria de uma conscientização, isso leva tempo, evidente, de mudança dos padrões de consumo e de crescimento das economias. Os pobres continuarão pobres e os ricos continuarão ricos, não vai haver mobilidade nisso aí. A questão é: não cresce mais, mas distribui mais. Vai trazer bem estar para um maior número de pessoas e você vai ter um consumo e uma produção mais forte utilizando os recursos de uma maneira mais eficiente. 

Paulo Guedes defende uma reforma profunda no funcionalismo público. Mas no pacote anunciado na semana passada já deixou de fora militares e carreiras do judiciário.

O discurso é o de combate aos privilégios que, de fato eles existem e precisam ser combatidos, pois tem custos que podem ser reduzidos. Mas não faz sentido isso aí [de poupar determinadas carreiras], é só para atender uma base de apoiadores, especialmente do presidente, o que tira a credibilidade do discurso oficial. Tem que fazer sim, grandes reformas, tem que reformar o Estado brasileiro sim, mas com as peças sociais. É preciso tomar cuidado porque temos um país com grandes distorções, com uma pobreza imensa e essa pobreza e essa desigualdade são entraves ao crescimento e ao desenvolvimento. Enquanto isso continuar assim nesse nível alarmante qualquer tentativa de pacote econômico para botar o país no crescimento vai dar errado no médio prazo. 

Além de economista o senhor é jornalista. Como o senhor avalia a perseguição que o governo tem feito contra a imprensa brasileira? 

Aí é o presidente, que tem um viés autoritário. O presidente autoritário não quer críticas só quer elogio. A gente sabia que ia ser isso. Você tem um presidente que é conhecido há 30 anos, então não é um desconhecido. Ele era parlamentar, sem ação efetiva no Congresso, ele era um defensor da nossa ditadura e, pior, é defensor de tortura e tem como herói um torturador. A imprensa é apenas mais um pedaço dessa visão autoritária do presidente. E assim tenta estrangular a imprensa, inclusive do ponto de vista econômico, instigando a anunciantes e empresas a não anunciar, querendo cortar publicação oficial, tirando verbas públicas, pior, sendo seletivo nesta distribuição, ou seja, comprando apoio.

Diana Koch

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