Pior ministro, Weintraub pode levar Educação ao colapso

Por Chico Alves

Colunista do UOL , Divulgação

Em uma equipe ministerial que tem Damares Alves, Ernesto Araújo e Ricardo Salles não é difícil achar alguma coisa para criticar. O lamentável Abraham Weintraub, porém, está em outro patamar, como diria o jogador do Flamengo.

Com o show de erros do Enem e do Sisu e a escolha do reitor criacionista da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, para dirigir a Capes, uma das principais entidades de fomento à ciência, ele dá toques trágicos ao que era visto como série de trapalhadas de um sujeito egocêntrico.

Junto com todas as outras barbeiragens praticadas nos últimos meses, essas últimas caneladas da gestão de Weintraub colocam em perigo vários níveis de operação de um dos ministérios mais importantes para qualquer país, que durante várias gestões vinha mantendo a máquina funcionando. Graças ao ministro do guarda-chuva, agora a engrenagem pode enguiçar.

A relação de absurdos é grande, por isso aí vão apenas alguns dos principais:

1 – Benedito Guimaraes Aguiar Neto para presidente da Capes – Uma das principais entidades de financiamento para aperfeiçoamento universitário foi entregue nas mãos do reitor evangélico da Mackenzie. Não bastasse o disparate de abrir mão de tantos talentos da Educação pública para chamar alguém do ensino universitário privado, Weintraub escolheu ainda por cima um criacionista. Benedito criou na Mackenzie um núcleo de pesquisas sobre design inteligente (outro nome para criacionismo). Ou seja: na presidência de uma das principais entidades de fomento à ciência, temos agora alguém que investe em um conceito internacionalmente refutado pelos cientistas.

2 – As trapalhadas no Enem e no Sisu – Aquele que Weintraub prometeu ser o melhor exame de todos os tempos foi, na verdade, o pior. Por desencontro entre o gabarito e o resultado, pelo menos 6 mil candidatos tiveram suas notas revistas. Mas outros estudantes reclamam de falhas.

Para piorar, também o sistema de inscrição do Sisu deu chabu. A indefinição aumentou depois que a Justiça Federal determinou que a divulgação dos resultados seja suspensa assim que as inscrições forem encerradas e mandou que o governo comprove que o erro na correção das provas do Enem foi totalmente solucionado.

A incompetência de Weintraub coloca assim em jogo a credibilidade de um sistema que funciona bem há muitos anos. E os candidatos, que investiram tempo e esperança no exame de 2019, ficam em compasso de espera.

3 – Livros didáticos na mira – Depois da descoberta da existência, em um galpão em São Paulo, de quase 3 milhões de livros didáticos sem uso, Weintraub cogitou destruí-los. Agora diz que vai submetê-los a uma triagem. Antes, já tinha criticado as publicações escolares, por terem como suposto objetivo a “doutrinação” ideológica.

O presidente Bolsonaro, por sua vez, anunciou que a partir de 2021, todos os livros escolares serão feitos pelo governo. “Os pais vão vibrar. Vai estar lá a bandeira do Brasil na capa. Vai ter lá o hino nacional”, disse ele, no mesmo momento em que reclamou que os livros hoje em dia são “um montão de amontoado de muita coisa escrita”.

Para isso, teriam que atropelar o Programa Nacional do Livro Didático, que tem uma comissão de especialistas que existe há 35 anos para dar pareceres técnicos sobre as publicações, que depois serão escolhidas com autonomia pelos professores de cada escola. Se posta em prática, a ideia de Bolsonaro representaria a idelogização completa, sob pretexto de lutar contra a doutrinação ideológica.

4 – Atraso na aprovação do Fundeb – Depois de quase três anos trabalhando em uma proposta para o fundo que complementa o financiamento da educação básica no país, o Congresso foi surpreendido pelo anúncio de Weintraub de que quer enviar uma nova sugestão, através de emenda constitucional.

Este será o último ano de vigência e, se não houver aprovação a tempo, os recursos do Fundeb podem se perder. Para a presidente do Todos pela Educação, Priscila Cruz, a insistência do.ministro em desconsiderar o trabalho feito até aqui para criar um texto de última hora coloca em risco a existência do fundo.

Para se ter uma ideia da grandeza de valores que Weintraub está colocando em risco, a estimativa do Fundeb para 2020 é superior a R$ 170 bilhões.

Essas quatro catástrofes administrativas, somadas às loucuras do início de sua gestão, como acusar três das melhores universidades de país de “balbúrdia”, a criação do malfadado Future-se (que usa pressupostos do mercado financeiro para aplicar a instituições públicas) e a constante desqualificação da pesquisa científica realizada pelas universidades federais, fez da atual gestão do MEC algo perigoso.

É certo que a qualidade da educação brasileira está abaixo do esperado. Muitos índices comprovam isso. Mas não houve até agora qualquer gesto de Weintraub para reverter esse quadro. Pelo contrário. Parece que O único objetivo do ministro performático é justamente estragar o que está funcionando.

De todos os dissabores recentes, ver a Educação em colapso é talvez o pior. Com seus óculos escuros e seus erros de Português, até aqui Weintraub está conseguindo fazer a vaca ir para o brejo, como parece ser o seu objetivo.

Texto publicado no site UOL em 26 de janeiro

Chico Alves é jornalista e colunista do UOL

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