Ensino Remoto Emergencial na UFSC: entenda como está o debate na universidade

No momento, centros de ensino estão levantando informações com estudantes e docentes; comitê recém-criado deve estabelecer cronograma de atividades

A Universidade Federal de Santa Catarina completa, nesta semana, dois meses de suspensão das aulas presenciais por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus. A UFSC está entre as 63 universidades do País que não adotaram o ensino remoto emergencial para retomada das atividades. Segundo dados do MEC, apenas seis instituições federais recorreram a essa modalidade de ensino até o momento. Na UFSC, o clima entre professores e estudantes é de preocupação e insegurança, uma vez que não há perspectiva para o fim da crise sanitária, nem uma orientação clara por parte da reitoria de como devem ser conduzidas as atividades na instituição.  

No momento, segundo o pró-reitor de Graduação Alexandre Marino, os centros de ensino estão fazendo, de forma autônoma, um levantamento de informações que leva em conta a situação dos estudantes e as especificidades de cada curso e das disciplinas ofertadas. “Esse levantamento será fundamental para que possamos tomar qualquer decisão que seja apreciada pelos órgãos de colegiado da nossa instituição. Nós precisamos ter bem claro, dos departamentos de ensino, quais são as disciplinas que podem utilizar outros recursos que não sejam os presenciais”, acrescenta.   Não há um prazo definido para que os centros enviem as informações. 

No dia 11 de maio, a UFSC anunciou a criação do Comitê de Combate à Covid-19. Segundo Marino, é a partir desse grupo, composto por diferentes profissionais, representantes do poder público e representantes de classe, que será organizado um cronograma com datas mais detalhadas. A Apufsc-Sindical também foi convidada a  colaborar com o debate. “Nossa primeira preocupação é, obviamente, a pandemia que está em curso. Os números indicam que a curva de contaminação e mortes está longe de diminuir”, disse o presidente do sindicato, Bebeto Marques, “É importante que a gente avalie os cenários e, diante deles, considere as condições necessárias – sanitárias e de infraestrutura – para que se condicione tempos e modos de retorno às atividades”. “Como uma entidade representativa dos docentes da UFSC, temos muito a contribuir com isso tudo”, garante Bebeto. O convite à Apufsc foi formalizado ontem, depois que o sindicato enviou ofício à reitoria reivindicando a participação. 

Nesta quarta-feira (14), o reitor Ubaldo Balthazar respondeu a um pedido do Ministério Público Federal (MPF) feito no dia 6 de maio para que a universidade informasse que medidas estão sendo adotadas como alternativa à paralisação das atividades. 

Em ofício ao MPF, a UFSC informou que, na semana passada, deu início a um processo de avaliação, planejamento e discussão, para levantar as condições de acesso e adaptabilidade tecnológica, e se há como ofertar ensino remoto, garantindo o acesso pleno e universal e a devida preservação da qualidade dos conteúdos. “Até que essas condições estejam atendidas, não há nenhuma disposição, como medida geral, de substituir aulas presenciais por ensino remoto na UFSC”, escreveu o reitor. 

Até o momento, o Departamento de Administração Escolar (DAE) adaptou o calendário acadêmico para o caso das atividades acadêmicas ficarem suspensas por 30, 60 ou 90 dias.  Para que fosse viável concluir os dois semestres letivos de 2020 ainda neste ano, as aulas teriam de ser retomadas até 17 de junho. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) lançou um abaixo-assinado contra a implementação do ensino remoto neste primeiro semestre letivo de 2020. 

Levantamento de dados

Cada centro de ensino está se mobilizando à sua maneira para tratar do assunto e encontrar alternativas. No Centro de Ciências Físicas e Matemáticas (CFM), professores criaram uma comissão para pensar estratégias que permitam atividades a distância.  No departamento de Jornalismo (CCE),  a própria secretaria enviou um formulário para todos os estudantes matriculados, a fim de entender quais são as condições em que eles se encontram, em que cidade estão, se têm acesso à computador e internet, se fazem parte do grupo de risco ou vivem com alguém que faça, entre outros. 

Já o Departamento de Engenharia de Alimentos (CTC) definiu que cada professor será responsável por entrar em contato com seus alunos, por disciplina, uma vez que a coordenação relatou a dificuldade de conseguir acessar os quase mil estudantes do curso. Os dados serão, então, encaminhados para a diretoria de centro. 

Para o pró-reitor de Assuntos Estudantis Pedro Luiz Manique Barreto, o momento agora é o de conhecer a fundo as condições atuais da comunidade acadêmica.“Temos que fazer um raio-x de como a pandemia está provocando consequências na vida dessas pessoas: desde saúde mental, questões econômicas, perdas de familiares, questões de moradia, de sobrevivência, de necessidades básicas. É uma equação com muitas variáveis, mas antes precisamos conhecê-las, para depois traçar um planejamento. É óbvio que esperamos que um dia essa pandemia acabe e que possamos retornar. Se será para o velho normal ou para um novo normal, só o tempo nos dirá”. 

No início de maio, um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) permitiu a reorganização do Calendário Escolar e a realização de atividades não presenciais para fins de cumprimento da carga horária mínima anual, em razão da pandemia de Covid-19. Nesta semana, o diretor-executivo da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) “destacou que cada instituição tem autonomia para planejar seu retorno e a aplicabilidade de recursos de ensino remoto”. “A Andifes recomenda firmemente que a universidade não desconsidere a desigualdade de acesso dos estudantes. Ao mesmo tempo lembra que o acesso a tecnologias digitais exige a manutenção de uma competência, e há projetos pedagógicos especificamente voltados para ações remotas”, disse João Carlos Salles Pires da Silva.

Por que a UFSC ainda não implementou o ERE? 

Na resposta enviada ao MPF nesta quarta-feira (13), o reitor enumerou alguns fatores para justificar a decisão da UFSC de não adotar, até o momento, a modalidade de ensino não presencial: 

a) a incorporação de EAD ou outra modalidade de ensino remoto pressupõe a modificação dos planos de ensino e sua aprovação em todas as instâncias;

b) torna-se necessário verificar se a infraestrutura tecnológica da UFSC tem condições de atender a demanda intensiva exigida pelo uso de tal modalidade;

c) há que se considerar o tempo necessário para conversão dos conteúdos preparados para serem ministrados presencialmente para a modalidade a distância, o que exige capacitação para o uso de ferramentas pedagógicas e tecnológicas;

d) é preciso verificar as condições dos estudantes para o uso de tecnologias de EAD ou outra modalidade de ensino remoto, pois é sabido que nem todos têm acesso a dispositivos eletrônicos ou possuem acesso à internet (muitos alunos dependem exclusivamente da infraestrutura física da UFSC para acesso a tecnologias da informação);

e) é necessário capacitar os docentes e os próprios estudantes para o uso de tais modalidades;

f) é imperativo, também, estudar a situação dos alunos com necessidades especiais e daqueles que, por restrições de acesso, não podem acompanhar o EAD ou outra modalidade de ensino remoto.

A professora Marialice de Moraes foi uma dos docentes que auxiliou na introdução do modelo EaD nas Relações Internacionais da UFSC. Ela ressalta que viabilizar atividades de ensino remoto, mesmo em uma situação emergencial, exigem muito planejamento.  Entre os principais pontos críticos, a professora destaca: acesso a computador e internet por parte de alunos e professores; estrutura tecnológica da universidade preparada para um grande volume de dados; capacitação de professores e, sobretudo, planejamento adequado às circunstâncias atuais. 

O levantamento sobre acesso à tecnologia por alunos e professores ainda está em andamento na UFSC.

Quanto à infraestrutura tecnológica, o Moodle é o Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem institucional. Por e-mail, o secretário de Educação a Distância da UFSC, Luciano Patrício Souza de Castro, disse à Apufsc que não há informações sobre a capacidade total do sistema, “já que estamos lidando com uma situação única”. Segundo ele, estão sendo realizados levantamentos com a Superintendência de Governança Eletrônica e Tecnologia da Informação e Comunicação (SeTIC) da universidade.

Sobre a capacitação de professores, Castro afirma que já existem alguns cursos ofertados pelo Programa de Formação Continuada (ProFor) e pela Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas (Prodegesp) pertinentes à área de educação a distância. Outros cursos estão sendo criados por laboratórios da UFSC, segundo o secretário. 

Para a Pró-reitoria de Graduação (Prograd), a oferta de atividades remotas, caso ocorra, estará vinculada a três requisitos: se a disciplina pode, ou não, ser ofertada de forma presencial; à capacitação docente, que depende de conhecer a realidade do professor e saber se ele tem acesso ao ambiente virtual de aprendizagem e a ferramentas de videoconferência; e se o estudante deseja essa atividade, bem como se ele tem tecnologia e acesso à internet.

A pedagogia no Ensino Remoto

Como garantir um ensino de qualidade mediado pelas tecnologias? Pesquisadora em educação e cultura digital, a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC, Andrea Brandão Lapa, ressalta que o ensino remoto não é uma simples transferência de conteúdos e conhecimentos. 

Defensora da integração entre educação e tecnologia, a professora critica a visão de que a virtualização do ensino se trata de um repositório de conteúdos, com vídeos e textos em uma plataforma. “A educação não é assim. Você não constrói conhecimento tendo acesso a informação. Isso não é suficiente. O que mais o professor faz em sala de aula? Aquilo precisa estar presente também na virtualização”, afirma a educadora.

A pesquisadora explica que são vários os níveis de dificuldades. O acesso a equipamento e a internet banda larga por todos os envolvidos é apenas o primeiro deles por ser condição primordial para que a aula aconteça no ambiente virtual. A partir disso, deve-se estudar: o docente tem um computador que permita edição de vídeos? O aluno tem internet para acessar conteúdos que consomem grande quantidade de dados? Como fazer com que o estudante não seja apenas consumidor de conteúdos, mas também produtor?

Com acesso e infraestrutura garantidos, o próximo desafio é formar os professores em práticas pedagógicas que até então não eram requisitadas em um curso presencial. “É necessário um apoio pedagógico para o professor ser inovador naquilo que ele realiza dentro da mediação da tecnologia, para ele não recair no uso comum de só disponibilizar conteúdo, de fazer uma educação inferior — na qual ele mesmo não acredita — pra ‘tampar o buraco’.”

De acordo com a professora Andrea Lapa, pela experiência do Laboratório de Novas Tecnologias (Lantec) da universidade, a dificuldade do professor não recai tanto sobre o conteúdo e recursos tecnológicos. A principal preocupação por parte dos docentes é em como usar esses meios para promover uma sequência didática a distância, sem que a prática esteja centralizada no professor. “A maior inovação não está na tecnologia que a gente tem, mas na inovação pedagógica.”  

Educação a Distância (EaD) versus Ensino Remoto Emergencial

Em meio a debates sobre educação mediada por tecnologia, é importante diferenciar a Educação a Distância (EaD) de um  Ensino Remoto Emergencial. A UFSC integra a Associação Universidade em Rede (UniRede), que reúne instituições de ensino público que atuam em EaD. Em março, a UniRede publicou o manifesto “Educação a distância em tempos de Coronavírus”, no qual ressalta que EaD é uma modalidade de ensino específica com legislação, princípios e projeto pedagógico distintos. 

A EaD vem sendo pesquisada e praticada há muitos anos no Brasil. Diferentemente de uma situação emergencial na qual as aulas são adaptadas do modelo presencial para o ambiente virtual, em um curso nos moldes EaD, estudantes e professores já têm infraestrutura adequada e estão preparados para um projeto pedagógico que exige mais autonomia por parte do aluno. 

A UFSC é uma das universidade pioneiras na implementação do modelo EaD. Com mais de 30 anos de experiência na área, a universidade conta com especialistas na área de tecnologia e educação e conhecimento proveniente do sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) — programa gerenciado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e aderido pela UFSC.

Ilana Cardial e Karina Ferreira

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