Contra reunião “ilegítima” de Conselho, professores da UFC discutem possibilidade de greve

Minuta da proposta emergencial para retomada do ensino foi aprovada sem representação estudantil; desde agosto passado, a UFC é dirigida por reitor interventor

Em Assembleia Geral realizada pela ADUFC (Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará) na última sexta, 3, professores da Universidade Federal do Ceará (UFC) aprovaram discutir a possibilidade de entrar em greve. A ação viria como resposta às ações antidemocráticas por parte da reitoria que, desde agosto passado, conta com um reitor interventor, Cândido Albuquerque. A última reunião do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) da UFC aconteceu sem representação estudantil e aprovou minuta da Proposta Pedagógica Emergencial (PPE) para retomada das atividades de ensino. Nova assembleia deve acontecer ainda nesta semana para debater a possível greve. 

O CEPE conta com representação da reitoria, das unidades acadêmicas (que representam também os professores) e dos discentes. Na reunião de quinta-feira, 2, no entanto, a categoria dos estudantes não foi convocada e foi impedida pela reitoria de participar da reunião. A Faculdade de Educação (FACED) deixou a videoconferência, enquanto o Instituto de Cultura e Arte (ICA) foi contrário à minuta e houve várias abstenções. O processo de aprovação da PPE, que prevê a retomada do semestre letivo no próximo dia 20, foi conturbado. 

Falta de representação

O presidente da Adufc, Bruno Rocha, afirma que o reitor tem esvaziado os conselhos superiores e, assim, teve facilidade em aprovar seus textos. “O Consuni [Conselho Universitário] está esvaziado em 30%. Estudantes e servidores técnicos tiveram mandatos expirados durante a pandemia”, diz Rocha. “O reitor se negou a atender a solicitação do sindicato dos técnicos e prorrogar o mandato [da última gestão] enquanto a pandemia perdurar. E se nega também a dar posse aos novos representantes do DCE, eleitos em assembleia e já indicados [pelo Diretório]”.

Em maio, o reitor interventor Cândido Albuquerque expôs dados privados de um aluno em rede social. A publicação foi feita questionando a legitimidade do estudante, eleito pelo DCE, de assumir a função de representante discente no Consuni. O histórico escolar dos estudantes são privados e só podem ser acessados pelas coordenações de curso e instâncias superiores na universidade. 

No CEPE, conselho no qual foi debatida a Proposta Pedagógica Emergencial, os discentes também não estão representados. Foram dois estudantes escolhidos pela Reitoria – e não eleitos pelo DCE – que integraram o Grupo de Trabalho responsável pela construção da PPE, diz Rocha à Apufsc. “Essa foi uma tentativa da reitoria de trazer legitimidade ao processo.”

Os impactos de um interventor

“Eu estou na UFC como professor há dez anos e, como estudante, há mais cinco. Eu nunca vivenciei isso na universidade. Me assustei com a intervenção”, diz o presidente da ADUFC. De acordo com Bruno Rocha, eventos haviam sido cancelados na universidade – antes mesmo da pandemia – por serem considerados “ideológicos”, por contar com conteúdos ligados a socialismo ou marxismo, por exemplo. 

Em agosto do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro nomeou o atual reitor da Universidade Federal do Ceará, Cândido Albuquerque, que foi o candidato menos votado. Terceiro colocado da lista tríplice, ele havia recebido 610 votos na consulta pública, enquanto o primeiro colocado teve 7.772 votos. A intervenção provocou reações com o mote “Fora Interventor” por parte da ADUFC e da comunidade universitária.

‘É assustador o que tem acontecido na universidade”, diz Rocha, “Isso mostra como a gente ter uma estrutura democrática é importante para impedir que um gestor possa desestruturar tanto uma universidade como o Cândido Albuquerque tem desestruturado a UFC. Ele tem tornado toda decisão um campo difícil de debate”.

Assembleias online

Por conta da pandemia e do distanciamento social necessário, a ADUFC adotou o modelo de assembleias virtuais. A decisão foi tomada após um parecer técnico que apontou a viabilidade jurídica para o modelo remoto. Diversas salas virtuais são abertas e professores podem se inscrever para fazer suas falas, assim como no modo presencial.

Imprensa Apufsc

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