Nota da Diretoria: O retorno às aulas e o uso do tempo

O maior erro que podemos cometer é parar com medo de errar, o tempo é algo que não volta atrás…Desperdiçá-lo parado é errar duas vezes (Inoema Jahnke, poeta).

Será apenas em 31 de agosto que acontecerá o retorno das atividades de ensino na UFSC, ou seja, cinco meses e meio depois de serem suspensas que as aulas reiniciarão, agora na forma não-presencial.

Mas, há pouco para se festejar. A pandemia não foi contida, seguimos com vidas sendo ceifadas e contaminações não evitadas. Triste por si só, tal situação implica também que o retorno às atividades presencias não será possível nos próximos meses, acumulando-se assim os problemas de gestão especialmente do ensino nos cinco campi.

Há pouco para se festejar porque, mesmo sendo nossa universidade bem-conceituada na ciência, um centro do saber e de produção de inúmeras e variadas soluções, a tecnologia para conectividade foi tratada por muitos como ferramenta inaplicável aos processos educativos. O ensino remoto, como uma resposta de excepcionalidade para uma situação de anormalidade (a pandemia), foi tomado como um mal em si, capaz inclusive de destruir o caráter público da universidade pública.

Há pouco para se festejar porque usamos mal um tempo que era precioso e esse não pode mais ser reposto. E o usamos muito mais para a política – uma política marcada por debates com desvios demagógicos, disputas de poder, de controle da instituição e acentuadamente impregnado de visões corporativas. Muito se falou dos outros, mas tampamos os ouvidos para os reclames vindos de fora.

Há pouco para se festejar quando a gestão do tempo, materializada no calendário físico, foi malconduzida por quem tinha essa responsabilidade. Em campo acadêmico, o processo foi mais glorificado do que o conteúdo e os próprios resultados. Agora, poderá faltar tempo, e talvez força institucional, para as já conhecidas providências que garantam a inclusão daqueles que mais aspiram solução: os alunos e suas famílias.

Se algo temos a enaltecer, de modo especial, são as contribuições da área das ciências da vida que, por meio dos professores-pesquisadores epidemiologistas e infectologistas, dos profissionais médicos, enfermeiros, nutricionistas e tantos outros, estão na linha de frente nos hospitais enfrentando a pandemia e seus efeitos. A instituição nessa área deu retorno imediato e eficiente, interna e externamente.

Mas, em nosso sistema de ensino, que envolve as ciências pedagógicas, temos que avançar muito. O anacronismo universitário transpareceu e deixou claro nas discussões que as inovações didáticas se confrontam com os pilares e o modus operandi de um confortável método tradicional de ensino enraizado nas universidades. Seremos agora, pela força das circunstâncias, obrigados a superar habilidades obsoletas e a aprender-praticando novas formas de ensino. Uma oportunidade que exigirá apoio e coordenação de pró-reitorias menos burocráticas.

Com a Resolução do CUn, de retorno às atividades de ensino não presenciais, a solução aprovada resolve os problemas apenas de uma parte dos alunos, a outra dependerá de ações rápidas e eficazes de quem administra a instituição. O tempo e a disponibilidade de recursos financeiros e tecnológicos (sempre escassos) são fatores decisivos para que a solução ora construída não se torne um problema ainda maior. Para todos os alunos de graduação já se subtraiu seis meses para a conclusão do curso. Se nada for feito, a outra parte, ora desassistida tecnologicamente, pode perder mais seis ou doze meses até que as condições sanitárias permitam o retorno ao ensino semi- ou totalmente presencial.

Em nossa participação nos Comitês e Subcomitês, por meio de documento, alertamos para esse problema do tempo, sobre a necessidade de medidas urgentes e de soluções administrativas e pedagógicas alternativas. Em pouco fomos ouvidos, mesmo assim isso não impediu e nem impedirá que a categoria mantenha seus compromissos com o melhor para a instituição, em particular para com nossos alunos.

Infelizmente, um comportamento político padrão tomou conta das ações de alguns agentes políticos da instituição. Em muitas oportunidades predominou a indiferença às visões diferentes (um ouvir sem escutar), situações de vazio de liderança e certo comodismo do poder e a ideia de que o mais importante era a participação para, em última instância, dividir o ônus. Uma linha de conduta que também minimizou o diálogo com a sociedade, fazendo com que importantes reclamações ou mesmo críticas fossem, de modo geral, negligenciadas. O que acabou contribuindo em muito para fazer derreter parte do patrimônio simbólico da UFSC, acumulado nesses 60 anos de sua existência. Um respeito que a consagrou como instituição de ensino, produtora e difusora de conhecimento, aspectos esses pouco mencionados no parecer e na resolução final. Agora, é arregaçar as mangas e trabalhar, muito, deixando para festejar depois.

Diretoria da Apufsc-Sindical

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