A Universidade e seus desafios

Tempos atrás, um caro colega professor escreveu que coexistem várias universidades dentro da mesma universidade, a saber: a do MEC, a da Capes, a do CNPq e a das Fundações.[1] Tinha razão, mas talvez vão além dessas, pois essas e outras “ilhas” são expressões dos vários modelos que estruturam e dinamizam as universidades. Em outra oportunidade, já escrevi sobre esse tema (Apufsc, 03/04/2014), que agora reutilizo para comentar sobre o que denomino de modelo brasileiro, UFSC incluída. O período sucessório que se aproxima exige um debate para além de aspirações eleitorais, discutindo-se uma ideia de universidade para nossos tempos.

A universidade brasileira é nova quando comparada às europeias, às latino-americanas e, até mesmo, às americanas. Talvez por isso carecemos de identidade própria, pois além de nova, é copia de modelos conhecidos. Parece haver entre nós os que preferem um modelo de universidade Estado, como o francês, que é fundado na ideia de garantir sua estabilidade política (Estado idealizado), por isso é mais uniforme, com hierarquização da estrutura administrativa e uma educação padronizada. Seus defensores talvez tenham dificuldades em conviver com o modelo tipo americano mais atual, em que o saber é um instrumento para a ação, a serviço do desenvolvimento da nação, com um ensino e pesquisa que estimula a criatividade e a inovação, ainda que mais ligado ao mercado. Nele estão contidos alguns princípios que permitem o acesso custeado e indireto para todos (elite e massas). Tal modelo, é bom lembrar, tem origem anglo-saxônica, mas dele se distanciou. Esse Último é um modelo que se assenta na ideia da Universidade do Espírito, feita para educar mentes e para um saber universal, sem fins práticos É mais voltado para formar uma elite, possuindo uma forte formação moral, intelectual e não vocacional. Por fim, há ainda outro modelo que, parcial ou totalmente, se aproxima desses dois últimos modelos É a ideia de Universidade (só) da Pesquisa, vista como uma comunidade de pesquisadores, com a missão de ensinar e fazer ciência, erguida para conduzir um projeto nacional, baseada na colaboração. Nele, a autonomia interna e externa estruturam seu sistema organizacional e pedagógico. Mas tal modelo não deve ser confundido com a ideia de universidade onde a pesquisa seja o fundamento tanto para a produção de conhecimento quanto para a formação profissional, dimensão essa baseada no incentivo à curiosidade, autonomia e criatividade do aluno.

No caso específico do Brasil, além de recente e marcado pela falta de autonomia perante o governo, nosso modelo de universidade é duplamente colonial: do país-colônia que fomos e da inspiração que o organizou, isto é, da cópia mal feita do modelo norte-americano, materializada através do acordo MEC-USAID. Operamos um sistema dual: de pesquisa e de formação/profissionalização, marcadamente conflituoso e gigantesco. A pesquisa foi trazida para dentro das universidades, refletindo a histórica falta de investimentos de nosso sistema industrial privado em pesquisa e inovação, “encontrando” assim em nosso competente espaço acadêmico – financiado pelo poder público – o suporte de que necessita. Ancorado a ele, desenvolveu-se um sistema vigoroso e de alto nível formado pela pós-graduação (PG). No outro eixo desse duplo sistema universitário – à moda brasileira – está a graduação, titubeante em qualidade, convive anacronicamente com a pujança do sistema PG-PQ, sem se modernizar diante do maior e mais veloz acesso à informação, por meio digital. Para piorar, não altera a forte dependência pedagógica do aluno em relação ao professor, empobrecendo sua formação autônoma e criativa. Elementos que indicam que precisamos urgentemente de um reforma acadêmica, de natureza pedagógica, alimentada por um permanente sistema de avaliação discente e de formação de nossos professores. Mas esses dois eixos da reforma implicariam também repensar e modernizar os currículos em base a princípios de excelência, centrado no domínio dos fundamentos básicos e na capacitação analítica dos conteÚdos do campo do conhecimento que lhe dá identidade profissional, além de dinamizar os conteÚdos e práticas formativas apoiando a mobilidade estudantil para estudos em redes cooperativas. A formação precisa ainda ter o contexto como fonte e objeto de estudo, em uma visão interdisciplinar, cujo eixo dinamizador e de fomento seja a pesquisa. Esse é o modelo moderno de universidade que me identifico e defendo.

Assim, acredito que são os diferentes modelos e as raízes de universidade, descritas no início, que por serem mal compreendidos e copiados se tornam as fontes de tensões de natureza acadêmica e política. Especialmente quando vinculadas a determinadas práticas de gestão, alimentadas por visões equivocadas, ideologizadas e presas às circunstâncias internas (interesses coorporativos). Tudo isso potencializa conflitos que a política universitária não consegue administrar. Nossa UFSC não foge à regra.

Do sonho de Darcy Ribeiro da Universidade para o desenvolvimento do Brasil à atual universidade brasileira, o que restou? As respostas poderão dar a dimensão dos desafios que temos pela frente. Se não resolvemos nem nossos próprios problemas, como poderemos nos constituir como uma importante base da consciência crítica e culta do país?

Contrariamente ao pensamento apressado e sectário, acredito que a diversidade de modelos de universidade aqui praticada pode ser visto como potencialidades. Não me refiro obviamente às práticas sociais e de poder da parte de quem a defende, mas aos conceitos de universidade que trazem e aos ideais a eles associados. Como, então, conviver com estas diferenças de ideias, traduzidas em práticas por vezes reducionistas? Como equilibrar aspirações tão diversas? O desafio está em buscar as interações e convergências que a dialética da pluralidade produzem e tratar as diferenças substâncias de modo respeitoso e nas instâncias devidas. Diferentemente do momento atual na UFSC, necessitamos valorizar e garantir as sinergias que façam fluir a universidade e não o contrário. Mais do que nunca, precisamos de uma energia que recomponha o tecido acadêmico e político, que está esgarçado quer pelo modelo de universidade que praticamos quer pelas opções políticas de gestões universitárias. Essa Última, infelizmente, presa ao olhar de retrovisor, acabou agindo com desconfiança sobre tudo o que lhe era diferente, com o passado em particular. Concentrou poder, acirrou conflitos internos e externos, fez vigorar o maniqueísmo do bem contra o mal, que só fez colher reflexos negativos, especialmente junto à sociedade, que hoje nos olha com desconfiança e distanciamento.

Esboço apenas alguns dos elementos para defender um amplo debate sobre qual modelo de Universidade o país deve ter: se dual ou diferenciado, mais pragmático ou mais intelectualizado. Enfim, se não debatermos isso, continuaremos praticando apenas a retórica da indissociabilidade entre ensino-pesquisa-extensão. Considero, portanto, que o momento exige uma visão sistêmica de universidade, envolvendo seu conceito e seu funcionamento, ajudando a superar as barreiras da disciplinaridade, da departamentalização, da mesmice acadêmico-pedagógica e da ineficiência na gestão administrativad+ ingredientes que acabam dificultando e estreitando a realização dos seus fins. Estamos inseridos contraditoriamente em um mundo desigual, mas unificado pelo mercado global e pela internetd+ vivemos um sistema que ao mesmo tempo é mais competitivo – em base ao domínio da CEampd+TI – é dominado pelos grandes oligopólios. Desconhecer isso tudo é perpetuar nosso atraso e esclerosar a universidade, deixando de contribuir para o nosso país, que vem buscando alcançar maior soberania e força no conserto das nações. Podemos e devemos dar nossa contribuição para, por exemplo, capacitar e aumentar a inclusão de práticas científicas avançadas na base produtiva nacional, além de ajudar a compreender melhor e aprimorar nossos fundamentos democráticos diante das mudanças socioculturais contemporâneas.

Por tudo isto é que a moderna universidade precisa ser ágil, eficiente e fundada na criatividade da pesquisa, alimentando-se na liberdade e mérito acadêmico. Precisa estar compromissada com um projeto de nação, atendendo às aspirações de nossa identidade histórico-cultural e voltada ao desenvolvimento soberano do país. Precisa ser ainda internacional, tanto na defesa de valores universais, dos ideais humanitários e do bem comum – como é o caso do ambiente – quanto nas trocas com o qual aprende e coopera, independente de fronteiras e eixos geopolíticos.

Infelizmente, o sistema político universitário precisa ser repensado para enfrentar tais desafios. Estou convicto de que nosso futuro não depende de um líder ou da forma de eleição para reitor. O que importa é que as melhores propostas se dirijam à formação de lideranças intelectuais em todos os campos do conhecimento, para o qual se exige um sistema organizacional eficiente e democrático, com uma boa equipe de trabalho para implementá-las, sem personalismos e corporativismos. Precisamos resolver as urgências para que os fins plenos da universidade se realizem.

*Carlos Alberto Marques (Bebeto)
Professor do Departamento de Metodologia de Ensino/CED


[1]http://oglobo.globo.com/blogs/educacao, artigo: Campus Partido.

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