Professores debatem racismo na UFSC

Participantes da Live promovida pela Apufsc levantaram propostas para uma universidade sem racismo

“Você é racista?”. Foi com essa pergunta que a vice-presidente do sindicato, professora Patrícia Della Méa Plentz, convidou todos e todas para assistirem à live semanal da Apufsc. Sempre com temas factuais e de interesse público, desta vez, a discussão se propôs a debater o racismo estrutural e como ele opera dentro das instituições. “O racismo não está somente nas relações cotidianas. Ele está abrigado nas instituições, especialmente as privadas. Ele foi naturalizado nas relações políticas, econômicas e sociais. Negar e silenciar é confirmar o racismo”, afirmou Patrícia abrindo o debate. 

O debate virtual mediado pela vice-presidente da Apufsc durou quase duas horas e contou com a participação do secretário de igualdade racial do SINTE e presidente do Conselho Estadual das Populações Afrodescendentes (CEPA/SC), Márcio de Souza, o professor aposentado do Departamento de Ciências Contábeis da UFSC e ex-diretor da Apufsc, Flávio da Cruz, e a professora do Departamento de Psicologia da UFSC e pesquisadora sobre psicologia e relações étnico-raciais, Lia Vainer Schucman, todos egressos da UFSC. Usando esse gancho, questões como o baixo índice de professores negros dentro da instituição e o sistema de cotas renderam importantes reflexões. 

Confira os principais trechos da live desta semana:

Profª Patrícia Della Méa Plentz: Eu queria começar essa conversa pedindo para que vocês nos contassem se já vivenciaram ou presenciaram alguma situação racista, seja no papel de vítima ou de testemunha. 

Prof. Flávio da Cruz: Vou citar quatro casos típicos, vivenciados por mim mesmo. No primeiro deles, eu me refiro à minha entrada na universidade. Foi em 1971, e na época a gente tinha trote. No Tecnológico [CTC], estava sendo terminada a construção do prédio e tinha muita tinta por lá. Quando a gente saiu no trote que, na época, ia até a Catedral Metropolitana, a gente foi pintado com sobras de lata de tinta (…). Como eu usava black power e tinha muito cabelo naquela época, acabou ficando meu cabelo grudento. Raspei a cabeça e, claro, em todos meus documentos subsequentes ao vestibular, saí com meu cabelo raspado. Quis o destino que eu fizesse um concurso para o Tribunal de Contas do Estado. Ali, uma vez aprovado – eram 20 vagas, eu fui o 19º – eu tive a surpresa de ficar esperando a nomeação, esperando, esperando e ela não vinha. Finalmente, dentro da sala de aula, eu consegui saber o motivo.

Tinha alguém que namorava a filha do presidente da entidade, uma entidade que eu quero muito bem, o Tribunal de Contas do Estado, e me disse que de vez em quando o futuro sogro reclamava da falta de funcionário, e duvidou que eu tivesse passado no concurso. Ato contínuo, provei a ele através do Diário Oficial a minha aprovação, e fui nomeado. Aí vocês percebam o impacto da discriminação. Eu não percebia. A pessoa que discriminou não percebia.  (…)

Profª Lia Vainer Schucman:  Eu acredito que testemunho racismo na UFSC  todos os dias. Se a gente entender que o meu departamento tem 51 professores e somos 50 professores brancos. Se eu perguntar: isso é racismo? É, é racismo institucional. O que é o racismo institucional? É a incapacidade de uma instituição de promover igualdade racial. Se a gente tá numa entidade que é da Federação, 54% da população é negra, e a gente não tem essas pessoas ocupando cargos de professores e de poder, isso significa que eu testemunho todos os dias o racismo institucional que a UFSC tem. A UFSC, que é um lugar onde o poder de decisão econômica está nas mãos de brancos. Racismo estrutural e racismo institucional é: poder econômico, poder de decisão política e poder de produção de subjetividade. A gente tem ali, na universidade, o poder econômico na mão dos brancos. Decisão política na mão dos brancos. E a produção de subjetividade, que tem muito a ver com conteúdo das disciplinas que cada um ministra, que também é branco, eurocentrado. Então assim, todos os dias eu testemunho racismo institucional na UFSC. (…) Se estrutura e é estruturante, quando tudo acontece em sua normalidade, o resultado é racismo. (…) Se a gente abrir um concurso e tiver 300 candidatos e não tiver ação afirmativa, a possibilidade de preencher um departamento com 52 professores, todos brancos, é quase de 100%. É isso que quer dizer o racismo estrutural, não é exceção. 

Profª Patrícia Della Méa Plentz: Todos nós aqui somos egressos da universidade pública. Eu, Lia e Flávio, professores da UFSC. Marcio de Souza, ex-aluno da universidade. Gostaria de falar um pouco sobre racismo nesse ambiente. Mais da metade da população brasileira é negra. Estamos em 2020, e entre os 2,7 mil professores da UFSC, esse porcentual é de 5%.  O que explica essa diferença e, na avaliação de vocês, como podemos mudá-la?

E já vou colocar a segunda pergunta, para trabalharmos com ela:  O sistema de cotas nas universidades completa 20 anos. Qual a importância dele e o que deveria ser aperfeiçoado?

Prof. Márcio de Souza: (…) Há uma inversão permanente do usufruto dos benefícios e daqueles que produzem as condições reais para que esse financiamento se dê, para que essa instituição [universidade pública] prospere. Nos professores, obviamente, esse percentual de 5% vêm também em decorrência. Quem foi para a universidade, quem se transformou em professor? Quem se transformou em professor pode se transformar em professor universitário? Quem são? Obviamente não serão os negros. A universidade é apenas um detalhamento desse universo político, social, econômico em que nós estamos permanentemente inseridos.

As cotas vêm da luta social dos negros. Ela é tão social, tão ampla, que ela é uma espécie de trem que carrega os bondes. (…) As cotas são o detalhamento, um aprimoramento da nossa luta política em ampliar o nosso espectro de ocupação e de direito no ensino. E aquilo que representa estar na universidade, aquilo que decorre de frequentar uma universidade federal de santa catarina, uma escola de excelência, com todos os danos que nos tentam infligir. Tanta demolição que é contra ela praticada, mas é uma escola de excelência.

Profª Lia Vainer Schucman: (…) Esses dados estão no texto do José Jorge de Carvalho, da UnB.[Universidade Federal de Brasília]. Isso é de 2010, mas diminuiu e eu vou falar o porquê. Na Universidade de Brasília, de 1.500 professores, 15 eram negros. Na UFSCAR [Universidade Federal de São Carlos], de 570 professores, 3 negros. Na UFRGS [Federal do Rio Grande do Sul], de 2 mil professores, eram 3 negros, sendo um africano. (…)

O  fato é que nós, brancos, a gente deveria ter vergonha de aceitar isso. A gente não deveria entrar na universidade, ficar lá 30, 40 anos, silenciando isso. (…) Esse não é um problema para ser pensado depois, é um problema pra ontem, é urgente! Cada dia que nós, brancos, entra na universidade e não faz nada, a gente tá apoiando um apartheid. E isso é uma vergonha. A gente faz a universidade ficar pobre! A universidade é pobre, porque a gente tem todo mundo pensando igual, [porque] aqui só tem professor de classe média, todo mundo com a mesma visão de mundo. 

(…) Agora a gente tem alunos falando “gente, vocês estão falando de um mundo centrado em brancos de classe média!”. é Uma vergonha o empobrecimento científico [com] que a Academia fica por causa disso. Esse silenciamento nosso, branco, é muito responsável por isso. 

Eu prestei um concurso e tinha 84 candidatos. Nenhuma pessoa negra. (…) Como algo é mais urgente do que a gente ficar sentado só entre brancos?

Profª Patrícia Della Méa Plentz:  Muito tem se falado que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Afinal, o que é ser antirracista? E a internet, ela tem sido uma aliada ou uma inimiga na luta contra o racismo? 

Prof. Flávio da Cruz: (…) uma questão que eu acho fundamental é esse mito da democracia racial, da gente dizer que no Brasil não existe racismo, que todos convivem em plena paz. Que, como nós temos colegas de diferentes etnias e vivemos muito em paz, a gente está numa condição de igualmente. Muita gente acredita nisso. E aí não se expõe, nem se admite a prática do racismo. A Lia foi muito enfática e a Patrícia também ao pegar esse lado da reflexão que quem não é negro possa vir a fazer, de estar ocupando um espaço que deveria ser partilhado. Eu estou aqui isoladamente nesse ambiente, quase 54% da população é negra, e ninguém por aqui. Essa reflexão, essa ideia da exposição e da convivência ou da ausência, ajuda muito a conscientizar. (…)

Eu vejo que a internet ela acaba aproximando as pessoas que estão distantes, mas não faz a união e o compartilhamento direto no momento que as pessoas precisam. (…) 

Profª Lia Vainer Schucman: O critério [para saber] que alguém é antirracista é a prática. Não tem uma receita. Você é antirracista do lugar que você está, do tamanho que você é. Se você é o reitor, a sua possibilidade dentro da universidade de ser antirracista é muito maior do que se você é o merendeiro do RU, concorda? Depende de qual é o teu lugar. Se você é um professor que está na Pós ou na Graduação, você tem uma possibilidade. (…)

Já que a gente está falando de antirracismo e está falando na Universidade, podemos ver: qual a disciplina que você leciona? Quem são os autores que você coloca? Quem são os alunos que você escolhe para PIBIC, é sempre pelo iaa? A gente pode escolher, como professores, o critério de ser cotista, por exemplo. Esse é um critério. (…) 


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