A insegurança faz mais vítimas na UFSC

*Por Daniel Vasconcelos

Na noite desta última quarta-feira, dia 08/10, duas estudantes de Economia foram assaltadas a mão armada no estacionamento da UFSC próximo ao CSE. Fomos informados inclusive que uma delas ficou machucada. Nossa solidariedade às vítimas. É lamentável algo assim ocorrendo. O evento, todavia, não é isolado: vem na esteira da permanente sensação de insegurança que grassa no campus de Florianópolis. E assim, a cada vez que eventos dessa natureza ocorrem, vem à tona, outra vez mais, o debate a respeito da segurança nos campi da universidade e no seu entorno.

Todos nós reconhecemos a competência e dedicação de nossos colegas da Secretaria de Segurança Institucional (SSI) da UFSC nas suas atividades de segurança na universidade. Há que se reconhecer, todavia, que a Secretaria opera com recursos tremendamente limitados, no momento. Em complemento a isso, a segurança terceirizada, além de ter sido diminuída em tempos recentes, se volta à proteção patrimonial, não exatamente de pessoas. A segurança de pessoas, e são muitas, dezenas de milhares de pessoas – afinal, a comunidade universitária é uma cidade dentro da cidade – é um dos pontos frágeis da universidade, e não convém atribuí-la à SSI ou à segurança/vigilância patrimonial, cujas missões e capacidades de ação são limitadas e tem outro foco institucional.

O campus convive com uma aura permanente de escuridão há anos. À iluminação precária ou mesmo ausente juntam-se espaços arborizados com precária iluminação e limpeza, pontos onde não há calçamento adequado (como nas marginais do estacionamento do centro do campus, ou em acessos aos prédios do CFM) e prédios com obras inacabadas que são um convite a oportunismos ilegais. A todas essas carências, já sabemos a resposta da Administração Central da universidade: a ladainha cantada há tempos é que não há dinheiro. E o efeito disso tudo é um convite à insegurança.

Meu objetivo aqui não é um ataque à Administração Central. De fato, os cortes orçamentários impuseram uma realidade duríssima às IFES pelo país afora, há que se reconhecer isso. Todavia, também não convém utilizar sempre e continuadamente a cantilena da restrição orçamentária para não se fazer nada. É dominante a sensação de que a gestão central da universidade gasta mais energia administrativa com coisas secundárias do que com aquilo que afeta mais diretamente o dia a dia e a convivência da comunidade acadêmica dentro das instalações onde estudam ou trabalham. A insegurança das pessoas que vivenciam o dia a dia do campus é uma dessas coisas que causam profunda sensação de abandono. Vamos esperar que algum desses delitos acabe, em algum momento, em violência ainda mais grave? Em alguma fatalidade?

Há um ponto que é preciso ter coragem para mencionar. Segurança pública não é missão institucional da universidade, de sua SSI, ou da vigilância patrimonial terceirizada. Segurança pública é função do poder público, e, para isso, goste-se ou não, existem polícias. Além do cuidado mais que imperioso com a iluminação pública nos campi, a limpeza de áreas mapeadas como mais suscetíveis/prováveis ao cometimento de assaltos e roubos, o campus e seu entorno poderiam se beneficiar sendo também objeto de rondas sistemáticas de agentes da segurança pública. Isso mesmo que você leu: eu quis dizer policiais (mas na universidade é preciso usar essa palavra com cuidado porque muitos a consideram anátema; não, não é).

É verdade que o país guarda tristes e dolorosas memórias da relação conturbada entre forças policiais e estudantes e professores em tempos da ditadura militar, bem como em outros momentos da nossa história recente. É igualmente verdade que ações policiais no campus são sempre vistas com receio. Sim, admitimos tudo isso. Mas é igualmente verdade que a segurança pública está além das capacidades da universidade. Ainda assim, alguma coisa precisa ser feita. Até onde se sabe – me corrijam, por favor, se estiver errado – não haverá contratação de novos servidores para recompor quadros da SSI, por decisões no âmbito federal. Reforços na segurança privada/terceirizada também são solução precária para o problema, pois não focam no problema de segurança pública. Assim, é preciso ter coragem de olhar fora da caixinha e pelo menos admitir que é hora pensar em alternativas de segurança pública real, e não imaginária.

A própria universidade poderia liderar esse processo. Poderia institucionalmente buscar o diálogo com a Segurança Pública de Estado, e com a força policial. O papel da instituição poderia ser o de intermediar uma aproximação do trabalho da SSI, como coordenadora das ações internas aos campi, com as possibilidades de um policiamento ostensivo dentro dos mesmos e no seu entorno. Que a universidade pudesse inclusive participar da preparação e treinamento dos policiais que viessem a atuar fazendo policiamento ostensivo na universidade e em suas imediações. É um desafio? Sim. É impossível encontrar uma situação de equilíbrio e boa convivência entre essas duas instâncias que já tiveram suas rusgas no passado? Não. A única coisa impossível – ou, pelo menos, indecorosa – é querer que a segurança das pessoas permaneça fragilizada, e que estudantes, TAEs, professores, funcionários terceirizados e todos os que frequentam o campus permaneçam expostos e inseguros, sem um mínimo de proteção que busque, pelo menos, dissuadir aqueles que se aproveitam das fragilidades de segurança da universidade para atacar as pessoas que nela transitam.

Eu deveria concluir com o famoso “postei e saí correndo”, mas não, não sairei correndo. Uma universidade deve ser aberta ao debate; é para isso que estamos aqui. Ademais, uma instituição com a grandeza de uma universidade pública deve ser capaz de usar sua institucionalidade para ir além dos particularismos dos que gostam ou dos que não gostam de certas ideias (ou instituições). O papel de segurança pública não é nosso, mas é preciso provê-lo, de algum modo. E para isso podemos, sim, institucionalmente, buscar uma solução amadurecida para ofertar à comunidade universitária um ambiente mais seguro. Ou… ficarmos parados, reclamando do orçamento, e esperando o próximo evento violento acontecer.

*Daniel Vasconcelos é professor e chefe do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC

Artigo recebido às 15h13 do dia 9 de outubro de 2025 e publicado às 9h do dia 10 de outubro de 2025