*Por Sérgio Fernando Torres de Freitas e Gelson Luiz de Albuquerque
Desde 2008, o plano de saúde dos servidores é gerido pela UFSC. Antes, essa função era realizada pelos sindicatos de trabalhadores: Apufsc e Sintufsc. De lá para cá o mesmo mudou e muito! Começamos com um plano solidário com valor único para todas as faixas etárias, o que veio de herança do movimento sindical, permanecendo até 2019, quando nenhuma operadora aceitou seguir com essa modelagem. E veio o “modelito ANS”, Agência Nacional de Saúde Suplementar, operado por faixas etárias e, n’alguns pelo modelo de faixas salariais e etárias, no caso dos planos de autogestão (Geap, Assefaz e tantos outros). Até quatro anos atrás, o contrato era acompanhado de forma rigorosa, com discussões conjuntas com o movimento sindical.
Sempre tivemos sinistralidade positiva, a não ser em agosto de 2021 (In: https://noticias.ufsc.br/2021/08/mensalidade-do-plano-de-saude-da-ufsc-tera-reducao-de-95/), quando tivemos uma redução da mensalidade de 9,5%. Àquela época, ocorria o acompanhamento das entidades sindicais e um trabalho meticuloso dos servidores vinculados ao setor do Departamento de Atenção à Saúde.
No tocante à Apufsc, sabemos de sua preocupação e a cobrança diuturna para que o referido Plano Suplementar de Saúde, viesse a contemplar uma rede de serviços qualificada com valores que pudessem ser arcados por seus usuários, porém, a práxis que se tinha anteriormente, foi sendo deteriorada pela concentração das decisões circunscrever-se apenas ao Gabinete do Reitor.
Nos últimos quatro anos, o contrato de atenção à saúde suplementar dos servidores da UFSC com a Unimed sofreu reajustes anuais, sempre acompanhados da mesma justificativa: “a sinistralidade está elevada” e, com isso reajustes muito acima dos indicadores inflacionários, o que vem corroendo o poder de compra dos servidores.
Agora, a administração central divulga um novo contrato emergencial, com dispensa de licitação, com pouca transparência e sem participação dos que mantém o referido plano ativo: os docentes e técnico-administrativos.
A UFSC publicou os novos valores do plano, mantendo as modalidades existentes, diferenciadas por abrangência, faixa etária e cobertura, incorporando agora um plano “mais barato”, o regional. Embora isso facilite a comparação, os reajustes revelam distorções significativas, algumas delas difíceis de justificar.
Os novos valores e os percentuais de aumento
A seguir, reproduzimos a tabela apresentada pela UFSC para o plano Tipo I, acrescida dos percentuais de aumento praticados de 2022 a 2025 (abrangência nacional, apartamento, sem odontológico):

Os reajustes mais altos, propostos nesse contrato emergencial, concentram-se justamente nas faixas entre 24 e 38 anos, com aumentos entre 17% e 20%, exatamente o grupo que menos utiliza procedimentos de alto custo e cuja sinistralidade costuma ser menor. Essa inversão da lógica atuarial não é trivial e exigiria, no mínimo, justificativas técnicas que não foram apresentadas. Essas faixas etárias têm, a rigor, menor incidência de doenças crônicas, realizam volumes menores de procedimentos de algo custo e, em geral, são os responsáveis pela sustentação financeira dos planos, justamente por usarem menos que os mais velhos. Portanto, não é esperado que essas faixas recebam aumentos maiores que as faixas de 54+ e 59+.
Esse comportamento contraria a lógica atuarial padrão e levanta suspeitas sobre:
a) Rebalanceamento artificial dos preços por aumentos elevados em faixas jovens podem indicar tentativas de:
a.1) Diluir o valor médio de reajuste em faixas de menor custo para mascarar percentuais reais mais elevados.
a.2) Desestimular a permanência de agregados, historicamente considerados mais onerosos no contrato.
a.3) Compensar custos de outras faixas sem explicitação técnica, equalizando artificialmente receitas do plano.
b) Estratégia para reduzir a adesão de dependentes jovens ou desestimular a permanência de agregados.
b.1) Os dependentes acima de 24 anos (filhos, netos, agregados) costumam ser caros para o plano por exigirem cobertura independente, pouco rentáveis e/ ou mantidos por obrigação contratual anterior.
b.21) Aumentos pesados nessas faixas podem funcionar como pressão indireta para reduzir esse grupo.
Tais hipóteses são aportadas no presente documento, por falta absoluta de transparência da gestão no trato de recursos próprios dos servidores investidos no plano suplementar de saúde, o que convenhamos, não é adequada.
Seguindo o raciocínio hipotético, pelas razões aportadas, identificamos na faixa etária entre 44 e 58 anos que tiveram reajustes surpreendentemente baixos, especialmente considerando que é justamente nesse período da vida que surgem mais procedimentos de maior custo; cresce o uso de exames especializados; e, aumentam os tratamentos continuados.
Esses percentuais são incompatíveis com a sinistralidade típica dessa faixa, reforçando que tecnicamente não deve ter sido a sinistralidade que guiou o reajuste, mas alguma engenharia interna de valores não divulgada.
Seguindo nosso raciocínio, na faixa de 59+ teve um aumento moderado, menor do que 19–23 e muito menor que 24–38. Assim, podemos afirmar que não houve critério atuarial padrão, pois não há coerência entre custo real e aumento aplicado, a tabela reflete uma decisão administrativa e comercial, não técnica.
Primeira camada de opacidade: onde estão as planilhas de custos?
A sinistralidade, argumento central para qualquer reajuste, não foi divulgada e nem auditada, pelo visto. Não há planilhas de uso, comparativos, projeções, justificativas técnicas ou qualquer documento que permita avaliar a legitimidade dos percentuais aplicados. Em especial, porque nós Servidores Docentes e Servidores Técnico-Administrativos é que pagamos essa conta. Por que nos foi relegado o acesso a esses detalhes? Aliás, porque o processo seguiu sigiloso, sem sequer estar disponível, eletronicamente, como exigência a qualquer processo licitatório no setor público?
Vale lembrar que, de 2022 até a novembro de 2025, os percentuais de ajuste chegaram à cifra de 71,35% em todas as faixas etárias. Porém, se aplicarmos os ajustes feitos no contrato emergencial, inclusive a redução de percentuais de duas faixas etárias, os percentuais variam entre 60,40% e 106%. Fica tácito que desconhecemos as bases que levaram aos reajustes. Essa constatação fica evidente no período em apreciação, pois em debate promovido pela Apufsc, em 16/12/2024, a gestão sequer sabia informar em quem era o gestor daquele contrato o que pode explicar, em parte, o que aportamos até o presente. (In: https://www.youtube.com/watch?v=6tRai13MkfQ; ver minutos: a) 48:09 -57:07; b) 1:20:39-1:23:02; c) 1:25:12-1:26:56; d) 1:27:22-1:36:00; e) 1:41:57-1:43:00; f) 2:00:32-2:01:00).
A gestão universitária exige dos servidores rigor, eficiência e prestação de contas. Por que não adotam o mesmo, quando o assunto é um contrato que movimenta milhões de reais e afeta diretamente o orçamento familiar de milhares de usuários? Para se ter uma ideia do impacto do que tem ocorrido, nos últimos anos, em relação aos valores dispendidos por servidores docentes e técnico-administrativos, em 2019 o valor envolvido no contrato era 75.000.000,00 (setenta e cinco milhões de reais). Em 2024, esse valor já estava em 161.000.000,00 (cento e sessenta e um milhões de reais), um incremento de 114,66%. Estarrecedor! Sabemos que não é prudente comparar, mas é necessário ter presente que o índice inflacionário no mesmo período restou acumulado em 39,21%. Essa diferença impõe, por óbvio, um poder de compra menor muito menor aos servidores, razão pela qual o cuidado na negociação e transparência deveria ser priorizado.
Segunda camada de opacidade: a coparticipação salta de 20% para 50%
A mudança mais drástica, e mais grave, é o aumento da coparticipação de 20% para 50%, o máximo permitido pela ANS. Sem estudos, sem consulta, sem justificativa, apenas comunicado. A coparticipação é regressiva. Atinge mais fortemente quem ganha menos, pois o valor é o mesmo para todos. Uma consulta médica de R$ 104,40 gera R$ 52,20 de coparticipação tanto para alguém que ganha R$ 7 mil quanto para quem ganha R$ 21 mil mensais. Na prática, docentes e técnico-administrativos em início de carreira e os servidores de nível médio sofrerão o maior impacto.
Além disso, na prática, a coparticipação esconde parte do aumento real da mensalidade. No caso de um dos autores, ao projetar em 2026 os mesmos procedimentos realizados em 2025, haveria um acréscimo de R$ 4.611,52 ao ano, cerca de R$ 384,90 mensais. O reajuste real da mensalidade, que parecia de 8,2%, sobe então para 30,85%. Ou seja, o aumento é disfarçado, mas profundamente sentido no bolso do servidor. O poder de compra já reduzido é corroído a cada nova negociação!
A justificativa de que há muitos procedimentos de alto custo na sinistralidade do plano UFSC só serve para reforçar a ideia de que há um aumento disfarçado: um procedimento que custe a Unimed cerca de R$ 10.000,00 passa a receber mais R$ 50,00 de coparticipação; esse custo só pode ser reabsorvido com aumento real de mensalidade, em caso de aumento de sinistralidade. Mas esse aumento pode ser diluído nos vários procedimentos de menor custo necessários para o tratamento da doença.
Comparativo com plano individual: sinal de negociação ineficiente
Uma simulação de plano individual equivalente na própria Unimed aponta valor aproximado de R$ 2.700,00 mensais, mantida a coparticipação de 20%. A maior diferença é que o plano tem cobertura apenas regional, única forma oferecida atualmente; no entanto, para consultas e procedimentos de urgência e emergência, a cobertura é nacional. Entretanto, os reajustes desses planos são regulados pela ANS e vêm sendo consistentemente menores que os aplicados pela UFSC nos últimos anos.
Alguém que migrou para plano individual em 2023 provavelmente pagará menos em 2027 do que quem permaneceu no plano corporativo da universidade. Isso revela um fato incômodo: a UFSC negocia mal, ou negocia sem dados, sem preparo ou sem estratégia.
As hipóteses e a falta de transparência
As ilações e hipóteses ganham corpo quando não se tem a devida transparência e, os valores aportados nas planilhas por faixa etária e o valor escorchante de 50% de coparticipação, nos traz clareza solar de que:
- O aumento concentrado em faixas jovens e produtivas, justamente, àquelas que
menos oneram o plano. Isso é atípico e carece totalmente de explicação. - Os reajustes mais baixos em faixas que tendem a gerar maior sinistralidade, o oposto do comportamento esperado.
- A ausência de qualquer padrão atuarial conhecido e, ausência de planilhas que fundamentem os aumentos.
- É possível “maquiagem” no reajuste médio, deslocando aumentos para onde eles chamam menos atenção política.
- Existem indícios de subavaliação deliberada de grupos de maior custo, possivelmente para tornar a proposta “menos indigesta” durante a negociação ou divulgação. Apesar do absurdo de percentual de coparticipação.
Isso posto, podemos afirmar, com o que dispomos, que a distribuição dos percentuais, nesse contrato emergencial não é técnico, não é coerente com sinistralidade, não é explicada pela UFSC, não é transparente, e indica riscos de gestão inadequada, negociação fraca ou até erro estratégico grave.
As faixas mais penalizadas são justamente aquelas que garantem equilíbrio financeiro ao plano — o que coloca em risco, no médio prazo: a sustentabilidade, a atratividade e, a confiança dos servidores no contrato. A tabela divulgada pela UFSC, por si só, já demonstra que o processo carece de explicações técnicas formais e de auditoria independente.
Transparência e debate público
A UFSC enquanto gestora desse contrato, por força do ofício só participou de debates e discussões públicas proposta pela Apufsc. Doutro lado, um silêncio estranho. Foi impressionante a falta de condições de participação e transparência. Isso nos obrigou a revisitar o passado e, perceber a diferença de tratamento com questão tão séria e relevante para o conjunto dos servidores docentes e servidores técnico-administrativos.
A UFSC não paga absolutamente nada em relação à saúde suplementar. Nada! Entretanto, se aufere ao direito de não ouvir e debater com quem paga e mantém o referido plano, os servidores ativos e inativos. Age assim, autoritariamente.
Bastaria tomar como exemplo a audiência pública, realizada em 16/08/2019, quando a Unimed se recusou a manter o valor único para todas as faixas etárias e que mantinha o plano equilibrado e com muita justiça, até então (ver: https://www.youtube.com/watch?v=nln8iwfBzPs&t=2347s). Saímos naquela ocasião de um plano solidário para um plano que repetia o “modelito ANS” (como assim exigiam as operadoras) e, agora inauguramos, seguramente a maior coparticipação praticada por aquela empresa e só não é maior, pois chegou no teto autorizado pela legislação pertinente.
Dois anos seguidos de contrato [sic] emergencial: sintoma de incapacidade administrativa
Este é o segundo contrato emergencial consecutivo. Administrações anteriores conseguiram firmar contratos de cinco anos, planejados, discutidos e estáveis. Agora, somos empurrados para negociações de última hora, com margem reduzida e pouco poder de barganha. A comunidade universitária tem o direito de perguntar:
Por que não conseguimos firmar um contrato definitivo, por cinco anos, ao longo de dois anos de vai e vem, com episódios de procrastinação?
Que estudos de custo e uso embasaram esse acordo?
Por que aceitar coparticipação no limite legal, sem explicações?
A Apufsc sugeriu, há tempos, o plano de autogestão da Assefaz como alternativa às demais opções ofertadas aos servidores. Não foi implementada por quê?
Qual a “complexidade” de que o reitor assine apenas uma “única” folha de papel para que o convênio se estabeleça em absoluto benefício dos servidores?
Que análises de utilização justificam a escolha de abrangência nacional, estadual ou regional, para que se possa escolher a modalidade mais adequada para cada um?
Nenhuma dessas indagações foram respondidas.
Uma conclusão certeira: servidores pagam o preço da opacidade e da má gestão
O resultado, como verificamos, é um contrato caro, emergencial, sem justificativas técnicas claras e com impacto profundo no orçamento dos servidores. Enquanto a administração central não atuar com seriedade, planejamento e transparência, continuaremos assistindo à escalada dos custos e ao enfraquecimento da confiança institucional. Os servidores da UFSC merecem mais do que reajustes impostos e explicações ausentes: merecem gestão responsável, transparente e competente.
*Sérgio Fernando Torres de Freitas é professor titular aposentado do Departamento de Saúde Pública (SPB/UFSC); Gelson Luiz de Albuquerque é professor titular aposentado do Departamento de Enfermagem (NFR/UFSC)
Artigo recebido às 10h54 do dia 12 de dezembro de 2025 e publicado às 12h07 do mesmo dia.
