Por quem os sinos dobram?

*Por Ubirajara F. Moreno

A Universidade costuma apresentar-se à sociedade como um espaço de realização de sonhos. Vendemos para os jovens — e para suas famílias — a imagem de que entrar na universidade é o primeiro passo para uma nova vida. Uma vida de esperança, de ampliação de capacidades, de novas possibilidades para si e para o entorno familiar e social. As políticas de inclusão reforçam esse imaginário: pretendem oferecer um resgate social, um futuro esperançoso, especialmente para aqueles que chegam após superar adversidades econômicas, sociais ou familiares. As famílias e os jovens acreditam nisso. Eles confiam a vida e a sua formação à Universidade. Alegram-se quando passam no vestibular porque supõem que a instituição cuidará deles, que aqui estarão protegidos, serão orientados e respeitados.

No entanto, muitos desses jovens encontram professores que, embora poucos, têm um impacto profundamente negativo em suas vidas. São nomes conhecidos nos corredores e salas de café da universidade. Sabemos quem são. A maior parte dos docentes não compactua com essas práticas, mas, por omissão, acaba participando da engrenagem que permite que esses abusos existam. Não agimos. Não tomamos as medidas cabíveis. Nos acomodamos. Deixamos que situações graves se prolonguem, como se fossem se resolver por conta própria.

É importante distinguir rigor acadêmico e exigência de violência e humilhação. Nossa relação com os alunos é assimétrica, regida por uma hierarquia institucional. Mas isso não nos torna superiores — nos torna responsáveis. Cada gesto, cada palavra, cada ação impacta. Exercer esse poder para humilhar ou quebrar a autoestima de um aluno é violar nosso pacto com a Universidade. É engendrar um Mal que se propaga.

Atualmente, muitos argumentam que as gerações mais novas têm menor capacidade de lidar com críticas ou que seriam menos resilientes diante da dureza do mundo. Mas, neste contexto, esse argumento é uma falácia. A humilhação, o abuso e o assédio não devem ter lugar no mundo — e muito menos na Universidade, seja ela do passado ou do futuro. O respeito mútuo independe das características geracionais e, até mesmo por conta das fragilidades que as novas gerações possam ter, nosso cuidado deve ser ainda maior. Isso exige consciência e, sobretudo, um compromisso ético de não repetir práticas abusivas do passado, pois nelas não há nenhuma virtude — apenas destruição.

Esse mecanismo se sustenta da mesma forma que regimes opressores: pela combinação entre quem abusa e quem silencia. Os sistemas autoritários não existem apenas pela ação violenta de poucos, mas pelo silêncio e pela tolerância de muitos. Da mesma forma, na Universidade, esses abusos ocorrem porque há quem os cometa e porque nós, coletivamente, deixamos de agir — por medo, por covardia, por receio de consequências, ou por um pacto corporativo que protege quem não deveria ser protegido. As vítimas não são apenas estudantes; também são servidores técnico-administrativos e docentes que ocupam posições hierárquicas frágeis diante dos abusadores.

Recentemente, nesta última semana, vivemos um caso trágico no CTC com um estudante que sofria assédio moral por parte de um professor. Semanas atrás, o Conselho Universitário aprovou a resolução sobre combate ao assédio moral na UFSC. Apesar de a comunidade ter festejado essa resolução, parece que o espírito que a orienta ainda não cala fundo entre parte dos professores. Essa dura perda ensombrece essa conquista normativa e nos coloca diante de uma pergunta essencial: essa resolução terá impacto real na vida universitária ou permanecerá apenas no plano formal?

Esta é uma oportunidade — dolorosa, mas incontornável — de demonstrar se a instituição está disposta a transformar sua cultura ou não. Esse episódio impacta profundamente a comunidade, especialmente os alunos. É essencial que nós, docentes, ofereçamos uma resposta à altura — que esses jovens se sintam amparados, que as famílias possam confiar que seus filhos estão sendo bem tratados. Precisamos agir com responsabilidade. Precisamos tomar atitudes decisivas quando esses casos acontecem. Não podemos nos esconder.

Como pode uma Universidade que já sofreu a tragédia devastadora de perder um Reitor, vítima de um abuso de autoridade, permitir que abusos ocorram em seu próprio meio?

E por quem os sinos dobram?

Eles dobram pelas vítimas dos abusos que nós toleramos.
Eles dobram pelos alunos, servidores e colegas; pelos que carregam dores invisíveis; pelos que encontram, dentro da Universidade, aquilo que aqui nunca deveria existir.

Os sinos dobram por eles, e dobram também como um grito para que não permitamos que isso continue.

*Ubirajara F. Moreno é professor do Departamento de Engenharia de Automação e Sistemas da UFSC

Artigo recebido às 23h35 do dia 11 de dezembro de 2025 e publicado às 9h27 do dia 12 de dezembro de 2025