Shame on us

*Por Fábio Lopes

Em seus 65 anos de história, contam-se nos dedos as ocasiões em que a UFSC foi dirigida por quadros à altura do que a instituição exige. A lista de ineptos, ignorantes e/ou carreiristas é longa. Em matéria de capacidade destrutiva, nenhum deles, no entanto, chega aos calcanhares da dupla hoje à frente da universidade. 

Os limites individuais dos atuais reitor e vice-reitora já seriam suficientes para, separadamente, produzir estragos consideráveis. Juntos, eles têm o condão de multiplicar suas piores qualidades e de conjurar forças deletérias que, de outro modo, permaneceriam dormentes. O resultado é uma combinação escabrosa de corporativismo, preguiça, desorganização da institucionalidade, descompromisso, vitimismo, relativismo, demagogia e aniquilação de valores cruciais como mérito, produtividade e excelência. 

Corta o coração constatar que tudo isso aconteça em meio a uma crise universitária de proporções bíblicas, quer dizer, em um tempo em que, mais do que nunca, precisamos justamente de sensatez e consistência intelectual e política.

Em condições normais de temperatura e pressão, lideranças tão inapropriadas para os cargos que ocupam deveriam ter ao menos a modéstia de encerrar o mandato pedindo o boné e indo para casa cumprir os devidos atos de contrição. Caso se demonstrassem incapazes até mesmo desse gesto derradeiro de grandeza, que fossem entregues ao merecido ostracismo pela força do voto de seus pares.

 Mas o que se vê é o contrário disso. Com aquela arrogância tão própria de quem não nasceu com o dom da autocrítica, reitor e vice movimentam-se freneticamente nos bastidores a fim de viabilizar mais quatro anos no poder. Pior: fazem isso lutando um contra o outro e acusando-se reciprocamente pelo desastre que só a ação concertada dos dois teria sido capaz de engendrar. Mais grave ainda: se é verdade que a chapa organizada pela vice-reitora tem tudo para obter um número irrelevante de votos, é verdade também que a candidatura do reitor é franca favorita na disputa.

Esse último dado merece explicação. Não é trivial compreender como uma figura tão prejudicial à universidade pode ao mesmo tempo ser tão viável eleitoralmente.

Creio que uma das razões para essa surpreendente popularidade do atual reitor tenha a ver com o ambiente político brasileiro. Refiro-me particularmente ao estado corrente do debate público nacional: de um lado, está um bando de parvos rematados; de outro, vocifera uma gente que finge acreditar ou (o que é pior) acredita efetivamente que esses parvos representem uma ameaça fascista. Ora, é impossível que um cenário tão notadamente marcado pela alienação e a negação de aspectos elementares da realidade deixe de repercutir em nível local. Quando a idiotice domina a vida política do país, é quase inevitável que domine também a vida política na província, tornando possível, por exemplo, que um exuberante fracasso seja aqui confundido com sucesso.

Mas o principal motivo para que o reitor esteja tão bem na foto está mesmo ao rés do chão, nas características atuais da nossa instituição. Em especial, é para a estupenda crise por que a UFSC passa que devemos dirigir o olhar. 

Em momentos tão dramaticamente conturbados como os que estamos vivendo cá nos campi, é natural que as pessoas busquem em primeiro lugar preservar o próprio escalpo.

Minhas aulas deixam a desejar? Que ao menos eu possa continuar a dá-las desse jeito, sem que eu seja avaliado em minha capacidade didática.

O curso em que leciono atrai cada vez menos alunos? Que ao menos eu não precise fazer nada para mudar isso.

Meu salário é ruim? Que ao menos me deixem trabalhar no conforto da minha casa, longe do olhar de quem possa me vigiar e cobrar.

Minha vida é miserável? Que eu ao menos possa fazer um pós-doc sofrível no exterior (de preferência em Portugal, de modo que nem uma língua estrangeira eu precise aprender).

Não me dedico suficientemente aos estudos? Que ao menos eu possa dizer que isso decorre do fato de que faço parte de minorias submetidas à exploração e à discriminação.  

Minha produção não é satisfatória? Que ao menos eu possa me convencer de que isso é fruto da falta de condições de trabalho.

Estou preso desde a pandemia a uma fobia social que não tenho disposição para tratar? Que ao menos eu possa argumentar que não frequento a universidade para não me deprimir com a degradação física dos prédios.

E assim sucessivamente.

Como se vê, quase todo mundo tem um bom motivo para não querer ser provocado a participar de um esforço de transformação da universidade. Quase todo mundo tem um bom motivo para deixar tudo na mesma, sob a suposição de que qualquer mudança possa significar que as coisas fiquem ainda piores para si. E é justamente aí que entram o reitor e sua vice. O primeiro, com suas proverbias falta de liderança e permissividade, é o fiador da ideia de que tudo ficará exatamente do jeito que está, ou seja, que a maneira com que as pessoas lidam com seus sofrimentos conhecidos continuará sendo perfeitamente possível e autorizada. Já a segunda promove e oferece um discurso vitimista plástico o suficiente para que qualquer um possa nele se encaixar; um discurso que franqueia a cada camarada sociologizar seus próprios limites, esvaziando-os completamente da ideia de responsabilidade individual.

Há que se mencionar, por fim, que a pobreza política da UFSC contaminou drasticamente a chamada oposição. Nos quatro anos em que padecemos sob a atual gestão, não fomos capazes de produzir uma única liderança digna desse nome, um único quadro apto a inspirar as pessoas e a prometer a elas algo diferente desse clima de vale-tudo e salve-se quem puder em que estamos metidos.  Vem por aí, provavelmente, mais quatro anos de decadência, ausência de projeto e covardia. Shame on us.

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 13h11 do dia 20 de janeiro de 2026 e publicado às 8h05 do dia 21 de janeiro de 2026.