Além de produzir um levantamento estatístico inédito, o projeto marca uma virada epistêmica por se tratar de um estudo conduzido com, para e sobre mulheres trans e travestis
Um estudo pioneiro, de abrangência nacional, liderado por pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está mapeando as repercussões da cirurgia de redesignação sexual (CRS) em mulheres trans brasileiras. O projeto Redesignadas envolve a parceria entre o Laboratório de Pesquisas, Tecnologias e Inovação em Enfermagem Psiquiátrica, Atenção Psicossocial e Transgeneridades (MentalTrans), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e o Instituto Nacional de Mulheres Redesignadas (Inamur).
O estudo entrevistou 144 mulheres trans que passaram pelo processo de transgenitalização (conjunto de procedimentos médico-cirúrgicos que visam alinhar o corpo com a identidade de gênero da pessoa trans), com o objetivo de compreender as repercussões da cirurgia na saúde mental e física dessas mulheres. A coleta de dados foi feita por meio de questionários socioeconômicos, entrevistas individuais e grupos focais em cada região do Brasil, ao longo das diferentes etapas do estudo.
Virada epistêmica
Além de produzir um levantamento estatístico inédito acerca dessa temática, o projeto marca uma virada epistêmica por se tratar de um estudo conduzido com, para e sobre mulheres trans e travestis, o que rompe com a tradição acadêmica de tratar essa população apenas como objeto de estudo.
De acordo com a professora Helena Moraes Cortes, que atua no Departamento de Enfermagem da UFSC e coordena o estudo, essa foi uma escolha baseada numa visão de mundo, de sentido e de posicionamento político.
“Sou uma mulher trans redesignada, militante e pesquisadora, e estou coordenando esse trabalho junto com outras mulheres trans redesignadas e também com mulheres cis-aliadas, com trajetória no movimento social. A coleta de dados foi realizada por mulheres trans redesignadas numa lógica de pesquisadoras comunitárias. Isso muda tudo”, enfatiza a professora.
Helena observa que, historicamente, as mulheres trans sempre foram estudadas “a partir de olhares de fora, muitas vezes marcados por uma lógica colonial, branca e cisgênera que fala sobre e por nós, mas não com a gente. O Redesignadas rompe com isso”.
Segundo ela, a vivência das pesquisadoras contribui para a qualidade do trabalho em todas as etapas. “Quando somos nós [mulheres trans] que conduzimos a pesquisa, as perguntas nascem também das nossas próprias experiências, a escuta é mais cuidadosa e o diálogo acontece com confiança”, ressalta.
“Deixamos de ser apenas ‘objeto de pesquisa’ e passamos a ocupar o lugar de quem pensa, analisa e produz conhecimento sobre a própria realidade. Essa é a grande virada epistêmica. É uma forma de fazer ciência que desloca hierarquias, valoriza saberes construídos na vida e no território e afirma que nossas (trans) experiências são fontes legítimas e orgânicas de um conhecimento que rompe com a lógica perversa cisgênera”, acrescenta a professora Helena.
Resultados parciais
As pesquisadoras estão trabalhando nos dados coletados e devem apresentar os resultados consolidados por meio do Dossiê Redesignadas, chancelado pela UFSC e pelo Inamur, documento que deverá servir como guia para políticas públicas e práticas de enfermagem, focando no cuidado pós-operatório – área pouco explorada pela literatura médica tradicional.
Mesmo antes da conclusão da publicação, a coordenadora do estudo antecipa que, das 144 respondentes, observou-se perfil predominante composto por mulheres trans (97,2%), não intersexo (77,8%), heterossexuais (81,3%), solteiras (63,2%), autodeclaradas não-brancas – pretas, pardas, indígenas e amarelas (57,6%) e situadas na faixa etária entre 31 e 44 anos (43,4%). A idade média das participantes é de 40 anos, variando entre 22 e 76 anos de idade. A maioria das respondentes reside nas regiões Centro-Oeste (31,7%) e Sudeste (28,9%).
Os achados iniciais mostram um contraste importante: de um lado, as participantes revelaram uma alta satisfação com os resultados estéticos e funcionais da cirurgia, com repercussão positiva na qualidade de vida, na autoestima e na ampliação das interações sociais. De outro lado, ficaram evidentes as falhas do sistema de saúde.
“Os dados revelam a necessidade de maior capacitação dos profissionais para o atendimento das demandas específicas pós-cirúrgicas, além do combate urgente à transfobia nos espaços institucionais”, aponta a professora Helena Cortes. O acesso à cirurgia ainda é visto como uma conquista de longo prazo, muitas vezes ligada à estabilidade financeira ou a anos de espera nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS).
Resistência
Embora o Censo de 2022 não tenha incluído questões sobre identidade de gênero, a estimativa é de que cerca de 2% da população adulta brasileira seja de pessoas identificadas como transgêneros ou não-binárias. O dado, de 2021, foi divulgado em pesquisa realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicada na revista Nature Scientific Reports.
Para além da falta de dados oficiais consistentes sobre essa população, os achados de pesquisa do projeto Redesignadas confirmam o enfrentamento de barreiras cotidianas pelas pessoas trans, que limitam também, de forma concreta, o acesso a direitos básicos como educação e saúde.
“Essas barreiras não são abstratas, elas se materializam em trajetórias interrompidas, em portas que não se abrem e em instituições que, muitas vezes, ainda não estão preparadas para acolher corpos e existências que desafiam a norma imposta. A universidade ocupa um lugar central nesse cenário. Ao mesmo tempo em que se afirma como espaço de produção de conhecimento crítico, diversidade e compromisso social, ela também revela suas contradições. A transfobia no ambiente universitário raramente aparece apenas como agressão direta; ela se expressa, sobretudo, no não acesso de estudantes trans, na evasão forçada, na ausência de políticas de permanência e na resistência explícita ou velada às ações afirmativas, por exemplo”, analisa a professora Helena Cortes.
Um dos desafios recorrentemente enfrentados na universidade, indica Helena, é a crítica à política de cotas para esse grupo populacional – uma medida de reparação social que, segundo a professora, encontra vozes contrárias amparadas em discursos meritocráticos. “A luta das pessoas trans, inclusive dentro da Universidade, é diária. Ela exige vigilância constante, posicionamento político e compromisso institucional para que o direito à educação não seja apenas formal, mas vivido com dignidade, permanência e reconhecimento”, defende.
“Ainda assim, é importante reconhecer que os avanços são construídos a partir da luta coletiva e também neste sentido devo destacar a força de muitas pessoas cis-aliadas. A presença cada vez maior de pessoas trans e também cis-aliadas nos espaços universitários, a produção acadêmica comprometida com perspectivas críticas e despatologizantes e o fortalecimento dos movimentos sociais têm tensionado estruturas historicamente excludentes e ampliado as possibilidades de trans-formação institucional”, finaliza a pesquisadora.
Dia Nacional da Visibilidade de Pessoas Trans
A data de 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade de Pessoas Trans, remete à ocupação histórica do Congresso Nacional por lideranças trans e travestis, em 2004, acontecimento que conferiu visibilidade inédita às pautas dessa população no âmbito estatal. No mesmo ano, a campanha “Travesti e Respeito” foi lançada em 2004 pelo Ministério da Saúde em articulação com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Hoje, o debate migra para as salas de aula e laboratórios de pesquisa. Ao abrir as portas para pessoas trans e travestis como sujeitos de direitos e produtoras de saber, a UFSC não apenas corrige uma desigualdade histórica, mas enriquece o ambiente acadêmico com novas perspectivas de mundo.
Fonte: Notícias UFSC
