Por que apoiamos o Prof. Irineu Manoel de Souza

*Por Fabricio de Souza Neves

Temos refletido, há mais de um ano, sobre como as divisões internas enfraquecem nossa instituição. E como poderia ser melhor ter uma universidade mais coesa frente aos desafios que se apresentam na realidade da gestão e da vida universitária contemporânea.

Não estamos propondo que todos tenham o mesmo modo de pensar e de agir. Temos diferenças diversas, felizmente. E é bom mantê-las existindo! Que chato seria um mundo em que todos fossem iguais, e como podem se tornar terríveis os governantes que desejam fazer um mundo assim! Estamos falando em conviver e colaborar, justamente porque somos diferentes, com diferentes trajetórias de vida, saberes, talentos e vocações. 

Sim, é normal que as pessoas se dividam em grupos, por afetos e afinidades. Entretanto, pensamos que não deveria ser o padrão que as diferenças se transformem em ataques a ponto de um querer anular o outro. No mundo em que fomos colocados, há lugar para todos. Ainda mais perante a envergadura da UFSC, referência de excelência em todos os campos do conhecimento e nos três pilares que fundamentam a universidade pública brasileira.

Há quatro anos, desde a última eleição para a reitoria, estivemos trabalhando em diálogos entre nós e com as diversas perspectivas da universidade. Acompanhamos várias reuniões, discussões e interações de todos os grupos políticos que hoje se apresentam. Com exceção da proposta representada pelo Prof. Irineu, não encontramos projetos calcados na experiência necessária frente à realidade concreta da gestão universitária e, ao mesmo tempo, que consigam dar respostas aos desafios que a UFSC enfrenta. O momento atual demanda mudanças com vistas ao futuro, porém sem anular ou fazer tábula rasa das importantes conquistas para a comunidade universitária.

Nós não o apoiaríamos, certamente, se ele tivesse feito um mau uso do poder em seu período como reitor. Obter vantagens indevidas para si ou seu grupo mais próximo, perseguir ou sabotar o progresso do trabalho de adversários, por exemplo, seriam motivos suficientes para querermos expulsar alguém do poder da reitoria. Do Prof. Irineu não vimos partir atitudes como estas (embora não tenhamos participado internamente da gestão central, acompanhamos diuturnamente seus trabalhos nos últimos quatro anos, estando na Direção do CCS).

Passado o primeiro critério, seguimos ao administrativo.

Consultamos diversos colegas de nosso grupo político mais próximo e também de outros grupos. Em resposta ao “por que não?” muitas vezes ouvimos “porque a gestão está ruim”… “faltam manutenção, contratos, compras”… De fato, a UFSC não está suficiente nestes aspectos. Mas nós temos uma visão de pelo menos dez anos na administração de um grande centro de ensino, enquanto a maioria dos colegas tem uma experiência mais recente ou parcial. É preciso reconhecer que, na gestão sob o comando do Prof. Irineu, há um grande esforço na direção correta, com bons resultados frente a desafios que parecem ser os mesmos das gestões anteriores.

Processos de compras e contratações na administração pública são altamente regulados por ordenamentos (alguns internos, realmente com possíveis melhoras pela UFSC – mas a maioria externos e superiores, os quais temos de cumprir). E esses processos, principalmente os mais longos e complexos, são muito trabalhosos e facilmente suscetíveis a falhas. É comum vermos notícias de que a prefeitura de algum município está sem o contrato do serviço X ou Y… porque falhou ou atrasou alguma licitação. Não seria diferente na UFSC. 

Não cremos que possa haver melhora grande e súbita nesse aspecto. O entrosamento cada vez maior entre as equipes da administração central e dos centros, adquirindo progressivamente experiência com esses processos, parece-me o único caminho de aumento de eficiência. E é o que temos visto nos últimos anos. 

É preciso dizer que hoje em dia temos um serviço contratado de manutenção de ar-condicionado, que começou a atuar há alguns meses (há pelo menos dez anos não tínhamos); temos manutenção elétrica e hidráulica com peças de reposição (parece o mínimo, mas tivemos anos sem torneiras e assentos sanitários para reposição no almoxarifado da prefeitura universitária, tendo cada centro que conseguir comprar seus materiais); temos manutenção básica dos telhados (ficamos anos sem esse serviço, acumulando danos que aos poucos estão sendo sanados). Sim, estamos longe de estarmos em boa situação – mas já estivemos piores em vários momentos, nos últimos dez anos, em pelo menos três diferentes gestões da reitoria. Porque não se trata de incompetência generalizada do grupo A ou B (falhas pontuais, todos temos), mas sim da necessidade de uma progressiva aquisição de habilidades administrativas e continuidade de planejamento da instituição como um todo. 

Por fim, cremos que entendemos ao longo dos últimos quatro anos dois pilares políticos caracterizam a direção da gestão do Prof. Irineu, dando o tom que a diferencia das anteriores: há um norteamento baseado em valorizar e integrar os TAEs como participantes do planejamento e da administração da universidade, e em melhorar suas condições de trabalho; e há um esforço, apesar do orçamento restrito, em aumentar o apoio à permanência dos estudantes, principalmente dos mais carentes. 

Nós concordamos com estes dois pilares. 

No exercício da autocrítica, entendemos que estes dois aspectos podem ter sido negligenciados, conscientemente ou inconscientemente, em décadas. E que a incorporação destes pilares, mais do que como política, e sim como cultura institucional, é mais do que inevitável – é justa e correta. 

Estudando o orçamento da UFSC, percebemos que a administração da reitoria conseguiu conter o déficit financeiro, reduzindo gastos. Ainda assim conseguiu aprimorar os serviços de manutenção e aumentar os aportes para a assistência estudantil. Isso nos fez concluir que, além de estar no caminho correto, conseguiu fazer uma boa gestão. 

É preciso manter a crítica e reconhecer que há muito a melhorar. Mas ao fim de nosso estudo, entendemos que a melhora parece depender de mais esforços na atual direção, e não de uma mudança de rumo. E esse foi o momento em que perguntamos se poderíamos nos juntar a esse esforço, em vez de nos colocar como uma força de divisão dentro da universidade, adversária em mais uma campanha eleitoral. 

Com alguma surpresa percebemos que seríamos bem recebidos. O que nos confirmou a impressão que formamos: Prof. Irineu não está interessado em derrotar adversários, mas em agrupar a universidade. E decidimos entrar para ajudar. 

E me dirigindo especialmente aos colegas docentes: convidamos todas e todos com quem partilhamos diálogos políticos no último quadriênio para essa união em prol da UFSC. Felizmente, não estamos sós nesse movimento. Muitos bons colegas já concordaram e estão conosco. Outros também bons colegas, ainda não – nós compreendemos. 

Há razões políticas para distanciamentos, que podemos simplificar didaticamente com os rótulos de “esquerda” e “direita”. O mundo fora da universidade é amplo e diverso, e ambos os campos de pensamento precisam estar representados dentro dela, como estudo e pesquisa. Mas do ponto de vista administrativo, que é o que tratamos nas propostas para reitoria, precisamos reconhecer um fato óbvio: a universidade federal é uma instituição estatal e funciona integralmente submetida ao orçamento público. Há menos diferenças políticas entre os grupos do que possa aparentar numa campanha eleitoral, quando falsas bandeiras são tantas vezes usadas para manipular o eleitorado. Há mais questões pessoais, de afetos, rancores e ressentimentos de disputas passadas (e até mesmo preconceitos) do que diferenças objetivas de propostas em administrar a universidade. 

Estas questões, superamos. Desejamos que ocorra uma campanha objetiva, focada em propostas para a gestão da universidade. Nossa intenção é somar esforços ao grupo que, reconhecemos, conseguiu fazer o melhor trabalho possível. Diminuir as distâncias que nos separam e unir mais à universidade, para enfrentarmos com mais força e sucesso os desafios de um mundo em conflito. Unidos em nossa diversidade. 

*Fabrício de Souza Neves é diretor do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFSC

Artigo recebido às 19h06 do dia 1 de fevereiro de 2026 e publicado às 8h41 do dia 2 de fevereiro de 2026