Pesquisas da UFSC embasam reconhecimento da pesca com botos e dos engenhos de farinha como patrimônio cultural

Projetos foram desenvolvidos no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e estão em consulta pública

Dois projetos de saberes tradicionais de Santa Catarina e do Sul do Brasil estão em fase de consulta pública para reconhecimento como patrimônios culturais imateriais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Os processos contaram com a participação direta da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que foi a instituição executora da instrução técnica dos registros.

Os projetos são “Saberes e Práticas Tradicionais Associados à Pesca com Auxílio de Botos em Laguna (SC)” e “Saberes e Práticas Tradicionais Associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca em Santa Catarina”. Ambos foram desenvolvidos por grupos de pesquisa vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFSC) e ao INCT Brasil Plural, em parceria com o Iphan.

O órgão já disponibilizou um material com informações detalhadas sobre o processo e os canais de contato: Participe do processo de registro da Pesca com botos no sul do Brasil e Consulta pública: saberes associados aos Engenhos de Farinha de Mandioca.

A UFSC foi selecionada pelo Iphan para desenvolver a pesquisa e a documentação necessárias ao reconhecimento desses bens culturais imateriais devido à trajetória e à experiência dos grupos: Coletivo de Estudos em Ambientes, Percepções e Práticas (Canoa) e Dinâmicas Urbanas e Patrimônio Cultural (Naui).

Os grupos atuam há anos junto às comunidades detentoras desses saberes tradicionais, com destaque para a produção de documentários etnográficos e para processos de registro e salvaguarda do patrimônio imaterial no Sul do Brasil.

As pesquisas tiveram início em 2023 e foram executadas por meio de Termos de Execução Descentralizada (TEDs) firmados com o Iphan, com apoio administrativo da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu) e das Pró-Reitorias de Pesquisa e de Extensão da UFSC.

Para cada bem cultural, foram produzidos dossiês interpretativos, documentários em curta e longa-metragem, acervos fotográficos, além de atividades devolutivas junto às comunidades envolvidas. Toda a documentação foi analisada e aprovada pelo Iphan. 

Reconhecimento social

Com isso, os dois processos entraram oficialmente em fase de consulta pública, etapa em que a sociedade pode se manifestar sobre o reconhecimento dos bens antes da decisão final do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância máxima do Iphan. A sessão do Conselho está prevista para ocorrer entre os dias 10 e 12 de março, explica Caetano Sordi, pesquisador responsável pelo projeto dos botos.

A consulta pública sobre a Pesca com Botos permanece aberta até 27 de fevereiro, enquanto a consulta referente aos Engenhos de Farinha segue até 1º de março.

Cooperação entre botos e pescadores

O projeto sobre a pesca com auxílio de botos é conduzido pelo Canoa sob coordenação do pesquisador da UFSC Caetano Sordi e investiga uma prática de cooperação entre pescadores artesanais e golfinhos, especialmente em Laguna (SC), mas também presente em outras regiões do Sul do Brasil. É uma forma de colaboração bastante singular entre pescadores artesanais de tarrafa e golfinhos do gênero Tursiops, que ocorre há mais de um século. Embora seja praticada ao longo de todo o ano, é mais frequente durante os meses de outono e inverno, quando ocorre a migração anual das tainhas em direção ao norte para se reproduzirem.

Nesse período, enquanto os cardumes entram ou saem dos canais estuarinos, os botos os localizam sob a superfície da água, os encurralam e os empurram em direção aos pescadores, que se encontram posicionados de pé nas margens dos canais ou em pequenas embarcações. Em seguida, executam movimentos típicos da comunidade de botos de cada estuário que indicam aos pescadores o momento propício para que as redes sejam lançadas. 

Assim que as redes são lançadas, uma parte é capturada e outra parte do cardume fica desorientada, facilitando sua captura pelos próprios botos. Por este motivo, a prática é caracterizada, ecologicamente, como uma relação de mutualismo, ou seja, em que as duas partes se beneficiam. Os pescadores reconhecem os botos cooperativos (“botos bons”) por nomes próprios e os identificam por seus traços de personalidade, comportamentos e biografias compartilhadas.

Trata-se, portanto, de uma arte de pesca complexa e com poucos exemplos similares ao redor do mundo, com grande importância para a identidade, a cultura, o turismo e a economia das cidades onde ocorre. O perfil dos pescadores que cooperam com os botos é variável, mas muitos deles dependem exclusivamente da pesca como atividade de subsistência. O auxílio dos botos faz bastante diferença para a localização dos cardumes nas águas turvas dos estuários. 

Produção tradicional de farinha de mandioca

Já o projeto sobre os engenhos de farinha é conduzido pelo Naui, com coordenação da professora dos programas de pós-graduação em Antropologia Social e em Arquitetura e Urbanismo da UFSC Alicia Norma Gonzalez de Castells e do professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo  João Paulo Schwerz. Esse projeto documenta os saberes, técnicas e modos de vida associados à produção tradicional da farinha de mandioca em Santa Catarina.

Segundo o professor João, as práticas persistem espalhadas por todo território, com testemunhos visíveis e marcantes tanto na paisagem quanto nas relações sociais em todo o estado, responsáveis por uma parte identitária essencial dos catarinenses. A importância da pesquisa, assim, perpassa em muito a comunidade diretamente envolvida com a fabricação de farinha de mandioca. 

A pesquisa registra que a fabricação da farinha envolve uma rede de relações sociais e ambientais muito ampla, responsável pela criação e difusão de grande parte do rico folclore do Estado. Da mesma forma, a pesquisa também tem a virtude de dar visibilidade histórica para a indispensável contribuição indígena e africana relacionada aos saberes e práticas “farinheiras” em Santa Catarina. A pesquisa é importante para a construção da identidade de Santa Catarina, a relevância destes saberes para a adequada apreensão do percurso histórico de ocupação do país. 

A pesquisa realizada no contexto da UFSC tem a responsabilidade de embasar o Registro dos saberes e práticas associadas aos engenhos de farinha de mandioca como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, que tem a previsão de ser deliberado na próxima reunião do Conselho Consultivo do Iphan, a ser realizada em Brasília no mês de março.

O professor Caetano destaca que a participação da sociedade é fundamental nesta etapa. Interessados podem acessar os materiais e enviar contribuições durante o período de consulta pública.  

Fonte: Notícias da UFSC