Joana Célia dos Passos renuncia ao cargo de vice-reitora da UFSC

“A prática administrativa atual distanciou-se irremediavelmente do projeto coletivo que defendemos nas urnas”, disse Joana; reitor atribui a saída a outras questões

A professora Joana Célia dos Passos apresentou nesta quarta-feira, dia 18, uma carta de renúncia ao cargo de vice-reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). No documento, endereçado ao Conselho Universitário e à comunidade acadêmica, ela lista os motivos da decisão. De acordo com Joana, sua nomeação, em 2022, “não foi suficiente para assegurar o cumprimento do projeto eleito como Universidade Presente”. Em outubro, um grupo de dirigentes da UFSC já havia rompido com a gestão e deixado os cargos.

“Hoje, apresento minha renúncia ao cargo. Esta é uma decisão tomada com o peso da responsabilidade perante os votos que nos conduziram a esta gestão e em face do compromisso ético que assumi com cada pessoa, estudante e servidora técnica e docente”, escreveu Joana.

Entre os motivos para a renúncia, ela afirma que “a aliança política que construímos em 2022 e que deu o desenho inicial da atual gestão foi se fragilizando com o tempo”. Esse modelo, segundo ela, previa uma gestão participativa e democrática, o que não ocorreu. “A prática administrativa atual distanciou-se irremediavelmente do projeto coletivo que defendemos nas urnas. Fomos eleitos(as) sob a promessa de uma gestão democrática, mas o que se seguiu foi a sistemática centralização das decisões, levando à exclusão da vice-reitora”, diz a carta.

Violência política de gênero e situação orçamentária

Joana ainda afirma que houve violência política de gênero durante o exercício do cargo, e que o reitor Irineu Manoel de Souza teria se silenciado sobre o assunto. Na carta, ela afirma que isso “é reflexo de uma cultura institucional que restringe sistematicamente o espaço de mulheres na liderança”.

Outro ponto citado por Joana na carta é a preocupação com “a postura passiva da Reitoria frente à crise orçamentária”.

::: Leia a carta na íntegra

Manifestação do reitor

A Administração Central da UFSC se manifestou inicialmente na quarta-feira sobre o assunto por meio de um breve comunicado publicado no site, em que “registra o reconhecimento pelo período em que esteve à frente da vice-Reitoria e informa que os encaminhamentos administrativos decorrentes da decisão serão realizados nos termos da legislação vigente”.

Atendendo à solicitação da Apufsc-Sindical, o Gabinete do reitor Irineu Manoel de Souza enviou uma nota no fim da manhã desta quinta-feira, dia 19. Leia na íntegra:

Esclareço que não concordo com nenhuma das alegações apresentadas pela vice-reitora Joana Célia dos Passos em sua carta, por não refletirem o conjunto de ações, princípios e resultados do trabalho desenvolvido pela nossa gestão.

Entendo que a motivação para a saída da professora Joana Célia do cargo de vice-reitora decorre do recebimento do Ofício SEI nº 982/2026/MULHERES, datado de 13 de fevereiro de 2026, que solicita autorização de cessão da mesma para assumir o cargo de secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados, no Ministério das Mulheres.

Quando do recebimento do pedido de renúncia, informei que respeitava a sua decisão, e que seriam feitos os encaminhamentos institucionais necessários à dispensa do referido cargo.

Quanto aos próximos passos, caberá ao Conselho Universitário a aprovação de um(a) docente para completar o mandato na Vice-Reitoria. Nos termos da legislação vigente, no prazo de até 60 dias deverá ser escolhido(a) o(a) novo(a) titular para a Vice-Reitoria.

Reitero o compromisso desta gestão com a legalidade, a transparência institucional e a continuidade das atividades acadêmicas, administrativas e de extensão, em benefício da comunidade universitária e da sociedade.

Joana nega que convite do Ministério das Mulheres seja a motivação

Procurada pela Imprensa da Apufsc-Sindical, Joana Célia dos Passos explicou que vem recebendo convites há meses, mas garantiu que essa não é a motivação para renunciar à Vice-Reitoria. “O que acontece é que nós fizemos uma plenária com mais de 70 pessoas e deliberamos por uma chapa de oposição ao reitor. Isso ocorreu há 15 dias. Então não havia nenhuma possibilidade de eu continuar na Reitoria”, explicou.

Segundo ela, a carta publicada nesta quarta-feira apresenta aspectos gerais relacionados à sua saída, “mas a decisão tem tudo a ver com a consolidação de uma pré-candidatura de oposição ao professor Irineu”. Joana disse ainda que o convite do Ministério das Mulheres neste momento foi uma coincidência, e que a decisão de apresentar a renúncia nesta semana já estava tomada.

Stefani Ceolla
Imprensa Apufsc