*Por Fábio Lopes
De acordo com o calendário oficial, a campanha para a reitoria só começa em cerca de dez dias. Mas quem liga para isso? Já há um bom tempo, as redes sociais do reitor operam freneticamente cabalando votos.
O grau de engajamento das postagens é suspeitíssimo. Tudo leva a crer que a compra de impulsionamento – prática expressamente proibida pela legislação eleitoral – esteja por trás da súbita popularidade do Prof. Irineu. Isso sem falar no uso descarado da equipe de jornalismo da universidade na promoção do candidato. Ninguém nem ao menos finge fazer comunicação institucional.
Caberia à COMELEUFSC coibir essa violação flagrante das regras do pleito. Mas não é de bom alvitre esperar alguma coisa de entidades que desde o início trocaram suas funções estatutárias pela alegre participação no acordo que elegeu e sustenta a atual reitoria.
Eu não queria estar na pele dessas pessoas. Deus me livre de ter que vender gato por lebre. Deus me livre de ter que trair dessa maneira a verdade e a decência. Deus me livre de me dedicar à tarefa indigna de justificar o injustificável, transformando a mais pura incompetência em expressão de sucesso.
É como eu tenho dito: os atuais administradores da UFSC deveriam estar usando cilícios nas coxas em sinal de contrição pelos pecados cometidos nos últimos quatro anos. Em vez disso, reivindicam mais um mandato, a fim de completar a obra de destruição em curso.
Quem circula pelo campus vê as marcas da decadência por toda parte, a começar pelos prédios em ruínas, o cheiro de mofo nas salas, os aparelhos de ar condicionado quebrados, a falta de papel higiênico nos banheiros, o mato tomando conta do que um dia foi grama aparada.
Existem idiotas para tudo neste mundo, inclusive para cair na conversa do reitor de que esse estado de coisas se deve à falta de recursos federais. O buraco evidentemente é mais embaixo. A gestão de péssima qualidade é a verdadeira razão de estarmos descendo a ladeira em alta velocidade.
Coloquemos uma coisa direitinho na cabeça antes que seja tarde demais: a UFSC é uma instituição em decadência. Ela não está apenas piorando. Está ficando para trás em relação a outras universidades, e isso porque, ao contrário do que sucede a instituições como o IFSC, a UFSM ou a UFMG, a nossa não se dedica a se modernizar, a se atualizar, a se adaptar aos novos modelos de administração do ensino superior.
A prova incontestável das causas internas de nosso desastre está na pós-graduação, que é, por suposto, o coração das universidades dignas desse nome. Na avaliação da Capes recentemente concluída, um número estupendo de programas da UFSC viram suas notas caírem. A coisa chegou a tal ponto que hoje a maior parte de nossas pós têm nota 4, ao passo que na avaliação anterior era a nota 5 que predominava. Não nos enganemos: esse tombo está longe de ter se registrado em outras universidades. Muitas delas se mantiveram estáveis. Não faltaram tampouco as que melhoraram consideravelmente o seu desempenho.
Mas o mais grave no quesito pós-graduação foi termos ficado de fora do Capes Global, que substitui o Print. Em outros tempos, isso seria impensável. Ocorre justamente que muito do que antes estava fora de questão agora está se naturalizando. Nada menos do que vinte projetos – alguns apresentados por um pool de universidades ou institutos federais – foram contemplados. Isso significa perder terreno para todas essas instituições. Enquanto estas se internacionalizam, ficamos na porta estacionando os carros, como na canção de Cazuza. Voltar a subir a montanha em tais condições vai ficando cada vez mais difícil.
Precisamos ter clareza de que estamos adentrando terreno perigoso. Somos o proverbial sapo que vai se acostumando à paulatina elevação da temperatura da água, até o momento em que acaba cozido (a propósito, essa história de que os batráquios se ajustam à própria fervura é lenda urbana, de modo que até eles se revelam menos passivos do que nós). Estamos nos habituando às baixas expectativas, às desculpas esfarrapadas, às ilegalidades cometidas na nossa cara, à vida modesta e medíocre, a cada um por si.
Até direitos elementares como o que nos garantia um plano de saúde razoável estão sendo sacrificados no altar da inépcia de nossos gestores. Assistimos calados às barbeiragens de uma reitoria simplesmente incapaz de, ao longo de quatro anos, organizar uma reles licitação para a contratação de um novo plano. Ato contínuo, vemo-nos vítimas do improviso, que, em seu último ato, deixou-nos à mercê de aumentos extorsivos na coparticipação em exames e consultas.
Em que pese a propaganda oficial querer convencer-nos de que a culpa é da empresa prestadora de serviço e do capitalismo, o fato é que a Unimed limitou-se a aceitar o termo de referência preparado pela UFSC. Em outras palavras, não é que a Unimed endureceu o jogo na negociação. Simplesmente não houve negociação. A própria universidade fixou antecipadamente os valores que teremos que doravante pagar. Vão ser desleixados e irresponsáveis assim com os próprios filhos, não com os meus…
Eles erram grotescamente, você paga a conta. Eles ganham gordas CDs, você vive de salários, rezando para que a inflação não corroa ainda mais seu poder de compra. Você faz projetos que implicam recolhimentos para a universidade, eles decidem como gastar esse dinheiro e nem se dão ao trabalho de dizer onde.
Contudo, de acordo com a imprensa paga pelo contribuinte para contar lorotas a favor do reitor, tudo vai bem. Os robôs contratados para bombar as postagens aplaudem. Resta saber se nós, homens e mulheres de carne e osso, vamos aplaudir também.
P.S.: Soubemos ontem que a vice-reitora renunciou. Preferi não ler sua carta que justifica o ato. Em meio a tanta barbaridade, permito-me ao menos poupar-me de má literatura.
De resto, quem se importa com a demissão de alguém que levou quase quatro anos para perceber o óbvio?
O reitor é que não. Faz uns bons meses que ele já arranjou um substituto para ela. Entronizou um candidato a vice que não faz muito tempo usava em comunicações privadas palavras impublicáveis para descrever o Prof. Irineu. Desconfio de que esse new found love durará tanto quanto o amor daquela personagem machadiana por Brás Cubas: “quinze meses e onze contos de réis”.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 11h38 do dia 19 de fevereiro de 2026 e publicado às 12h05 do mesmo dia
