*Por Áureo Moraes
Em sua breve história de 65 anos – conduzida por 13 reitores e uma reitora – a UFSC registra algumas histórias curiosas e outras dignas de reconhecimento. Uma destas, anedótica, conta que em uma determinada gestão, a relação entre reitor e vice era tão inamistosa que o segundo, tendo que assumir, mandou trocar as fechaduras do Gabinete para que, em seu retorno, o titular vivesse tal constrangimento.
De outra parte – esta mais valorosa – tivemos na Reitoria nomes que extrapolaram as funções na administração universitária e ocuparam papéis de alta relevância em diferentes esferas. No MEC, no MCT, em cargos em nível estadual e municipal. Em todas estas circunstâncias, mais do que suas virtudes pessoais, o que os levou a tais tarefas foi o fato de que haviam ocupado o cargo de reitores da UFSC. O que, convenhamos, não é pouco. Mas é para poucos.
Trago estas primeiras reflexões para registrar minha indignação com a nota publicada no final da tarde desta quarta-feira, 18, mencionando, laconicamente, que “a vice-reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professora Joana Célia dos Passos, apresentou renúncia ao cargo”.
E por qual razão me indigno? Há mais de uma…
Não é novidade que as relações entre reitor e vice estavam desgastadas. O rompimento político, levado a cabo em 17 de outubro de 2025, pôs fim à composição que os elegeu, em 2022. Ainda que tenha havido as dispensas dos cargos de seis integrantes do primeiro escalão, a vice-reitora ficou, uma vez que ocupava o cargo por ter sido eleita.
Logo, sua permanência tinha prazo de validade. Mas deveria estar cobrando um alto preço. Isolada, desprestigiada e, vê-se agora, desrespeitada.
Não presenciei, por óbvio, o momento da entrega do pedido de dispensa da vice-reitora. Imagino-o tenso, pesado, restrito a poucas pessoas. Em sua carta, dirigida aos membros do CUn e à comunidade, ela menciona, entre outros aspectos, “a postura passiva da reitoria frente à crise orçamentária e a falta de articulação política junto ao Ministério da Educação (MEC) e ao Congresso Nacional para a busca de recursos e emendas parlamentares.”
Imediatamente após a notificação da renúncia o que faz o reitor? Publica o comunicado que citei acima…
A quem interessa expor a vice-reitora, que àquela altura contava, desconfio, com alguma discrição diante da evidente repercussão que o fato ganharia? A escolha do reitor, pelo contrário, foi de expô-la, antecipar a “notícia” de forma tão açodada. Inclusive acionando espaços de mídia externos à UFSC. Tratou, desde logo, de “trocar as fechaduras”.
O que a professora Joana vai fazer doravante não nos foi dado conhecer. Mas imaginem se, deixando o cargo, a ela fosse dirigido convite para ocupar alguma função de relevância em outro espaço público, a exemplo daqueles dirigentes da UFSC que, deixando os mandatos, levaram consigo suas próprias trajetórias e a representação institucional de nossa universidade.
Encerro apenas destacando que, às vésperas de uma eleição na UFSC, não interpretem estas mal traçadas linhas como pré-campanha em favor (ou desfavor) de “A”, “B” ou “C”. Digo apenas que a mim interessa ter como reitor(a) alguém que abra portas para além da UFSC, que promova articulações com o MEC e parlamentares, em defesa da Instituição. Não que viva apenas de “trocar as fechaduras”!
*Áureo Moraes é professor do Departamento de Jornalismo do CCE/UFSC
Artigo recebido às 9h46 do dia 19 de fevereiro de 2026 e publicado às 10h47 do dia 19 de fevereiro de 2026
