*Por Irineu Manoel de Souza
A administração das universidades brasileiras, no atual contexto de austeridade fiscal, enfrenta um desafio imenso e, em sua escala, inédito. A redução drástica dos investimentos e do custeio do sistema federal de ensino superior público impõe soluções igualmente duras e escolhas difíceis. Ignorar esse cenário revela profundo desconhecimento da realidade das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES).
A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) estima que as restrições orçamentárias acumuladas desde 2014 correspondem a cerca de 50% do orçamento de custeio das IFES. Em consequência, os déficits se multiplicam em escala nacional. Diariamente, as universidades são obrigadas a decidir quais compromissos financeiros honrar e quais postergar, configurando um cenário permanente de administração sob escassez. Ao contrário do que muitas vezes se tenta fazer crer, essas escolhas são profundamente políticas, pois extrapolam o mero cálculo contábil e expressam compromissos com o papel da universidade como agente de transformação social.
Cotidianamente, as IFES enfrentam demandas emergenciais e, ao mesmo tempo, a necessidade de sustentar projetos estruturantes que só produzem resultados no médio e longo prazo. Na UFSC, os desafios não são menores: o esforço diário para manter a universidade em funcionamento, dentro dos marcos da normalidade institucional, tem sido intenso e permanente.
Apesar das adversidades, trabalhamos arduamente, dia após dia, para cumprir o programa que nos elegeu em 2022. Assumimos a universidade pós-pandemia, em um contexto de grave asfixia financeira, resultante de decisões orçamentárias tomadas pelo governo federal. Mesmo assim, amparados pela confiança da comunidade universitária, não nos afastamos de nossos compromissos. Implementamos políticas de permanência estudantil e de inclusão social. Lutamos junto ao governo federal e buscamos alternativas com outras IFES, para a criação da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (PROAFE), assegurando, em nossa gestão, políticas institucionais voltadas à pluralidade e à diversidade.
Realizamos esforços significativos para atender às demandas de expansão e funcionamento dos campi, assim como para regularizar contratos e serviços naquele momento inexistentes ou insuficientes. Apesar das limitações orçamentárias, o apoio à pesquisa e à extensão e o trabalho sistemático pela melhoria do ensino e a garantia da permanência estudantil, foram, de fato, compromissos centrais da gestão.
Nas instâncias de decisão — em especial no Conselho Universitário — mantivemos permanentemente o diálogo aberto com a comunidade. As portas da administração central estiveram e permanecem abertas, e jamais deixamos de ouvir, acolher e dialogar com estudantes, docentes, TAEs, trabalhadores terceirizados e comunidade. O caráter democrático de nossa gestão é inequívoco e amplamente reconhecido, a ponto de, não raras vezes, sermos considerados excessivamente tolerantes com protestos. O que fizemos, na prática, foi reafirmar o diálogo como fundamento de uma universidade plural, aberta e democrática, na qual a comunidade pode se manifestar, pressionar, criticar e participar ativamente da vida institucional. É essa a universidade em que acreditamos e pela qual lutamos: uma universidade que não teme a participação de sua própria comunidade.
Nesse contexto, movimentos de desagregação da comunidade universitária e da gestão acabam por servir apenas a interesses pessoais ou aos que atacam sistematicamente o ensino superior público federal. Com coragem e responsabilidade, enfrentamos problemas estruturais graves, garantimos os recursos necessários às bolsas estudantis e asseguramos o funcionamento do Restaurante Universitário, o maior equipamento de permanência estudantil da UFSC.
As políticas de inclusão e diversidade não são patrimônio de indivíduos ou grupos. São fruto de lutas históricas, debates públicos e mobilização social, consolidadas no conjunto das universidades brasileiras. Ações afirmativas, políticas de enfrentamento ao racismo, à discriminação de gênero e o respeito à diversidade sexual são hoje reconhecidas em diversas instituições de ensino. Na UFSC, essas conquistas foram efetivadas com respaldo institucional e esforço concreto de nossa gestão, em um processo de construção coletiva. Nesse contexto, é importante ressaltar que a UFSC é uma das referências nacionais nas políticas de inclusão e diversidade. Contudo, apropriar-se individualmente destas conquistas revela postura incompatível com o compromisso institucional que se espera de quem ocupa cargos de direção.
É de conhecimento público que, ao longo do mandato, projetos pessoais e ambições políticas interferiram, em diversas ocasiões, no compromisso da então vice-reitora com a gestão da UFSC. No dia 18 de fevereiro, a menos de dois meses da consulta informal à comunidade para a reitoria, recebemos a carta de renúncia da, até aquele momento, vice-reitora – fato inédito nos 65 anos de história da Universidade Federal de Santa Catarina.
Em sua carta, a ex-vice-reitora apresentou uma série de acusações públicas contra o reitor. Cabe destacar que nossa gestão foi a primeira na história da UFSC a assegurar paridade de gênero no primeiro escalão, não como gesto retórico, mas como opção política estruturante, capaz de alterar concretamente as relações de poder dentro da universidade. Rompemos com uma tradição que naturalizava a exclusão das mulheres dos espaços centrais de decisão e governança. Assim, ao contrário de uma leitura meramente formal da paridade, garantimos às mulheres não apenas presença numérica, mas autoridade real, protagonismo institucional e participação efetiva nas decisões estratégicas da Reitoria, com poder político e responsabilidade sobre os rumos da UFSC.
Ainda em sua carta de renúncia, a ex-vice-reitora acusa o reitor de não buscar alternativas para a crise orçamentária da UFSC. Caso estivesse mais presente no cotidiano institucional, teria podido constatar a atuação permanente do reitor em Brasília, na Andifes, no Congresso Nacional e no MEC. Para além das reuniões com a bancada federal, participamos da formulação das propostas para a construção de um modelo de financiamento sustentável das IFES, aprovado por lei específica, e pela extinção da lista tríplice e do modelo 70/30 nas eleições para a reitoria.
O fato é que a divulgação pública dessas acusações, em forma de factoide, mais uma vez expôs a UFSC à exploração midiática local e nacional, oferecendo munição aos que insistem em deslegitimar o ensino superior público.
Para nossa surpresa, na manhã seguinte à renúncia, no dia 19 de fevereiro de 2026, recebemos do Ministério das Mulheres uma correspondência oficial, datada de 13 de fevereiro de 2026, solicitando a cessão da então vice-reitora para ocupar cargo naquele ministério, em Brasília. A data do documento evidencia que o convite ao novo cargo antecedeu a renúncia. Os fatos são inequívocos, ainda que alguns insistam em negá-los, o que é especialmente grave em uma instituição comprometida com o rigor dos fatos e com a verdade.
Em nosso entendimento, essa sequência de acontecimentos revela que o compromisso da ex-vice-reitora com a UFSC esteve subordinado a projetos pessoais de carreira. Mais grave ainda é constatar que sua renúncia banaliza o cargo que ocupava, um posto que deveria ser exercido com responsabilidade institucional até o último dia do mandato.
A publicização da renúncia às vésperas de um processo eleitoral, com os motivos alegados pela ex-vice-reitora, compromete sua legitimidade ética. Silenciar por anos e vocalizar críticas apenas no contexto eleitoral indica interesse político, e não compromisso com a universidade.
Não corresponde à realidade a afirmação de que o programa eleito pela maioria da comunidade universitária “não foi realizado”. Apesar das dificuldades, cumprimos praticamente todas as propostas apresentadas. Seguimos trabalhando com determinação para enfrentar os desafios orçamentários sem comprometer o potencial científico, tecnológico e cultural da UFSC, nem a permanência estudantil.
A gestão segue trabalhando, pois há muito a fazer pela UFSC. Compartilhamos as conquistas, porque são da comunidade universitária, e reconhecemos também os limites e as ações não realizadas. Ainda assim, mantemos nossa crença no potencial da UFSC e das pessoas que a constroem diariamente: docentes, TAEs e estudantes.
A UFSC é maior do que interesses particulares. A exposição pública irresponsável da universidade, nos termos em que foi realizada, produz instabilidade institucional e alimenta aqueles que desejam enfraquecer o ensino superior público. Divergências fazem parte da democracia; atacar a instituição, não.
Nosso compromisso com a UFSC antecede o exercício de qualquer cargo e se renova agora com ainda mais convicção, na certeza de que a maioria da comunidade seguirá unida em defesa da universidade pública, democrática e comprometida com o desenvolvimento de Santa Catarina e do Brasil.
*Irineu Manoel de Souza é reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Artigo recebido às 14h50 do dia 23 de fevereiro de 2026 e publicado às 16h34 do mesmo dia
