Em memória – e respeito – às mulheres

*Por Felipa Rafaela Amadigi

A data de hoje, 24 de fevereiro, marca os 94 anos da aprovação do X Código Eleitoral brasileiro que tem, entre seus principais avanços, a instituição do voto feminino (artigo 2º), uma conquista de mulheres pioneiras, que lutaram pelo direito ao voto e por uma maior presença feminina nas instâncias de poder e na política. O marco é, assim, de alta relevância. Mas não esgota em si a garantia que, quase um século depois, ainda está longe de ser alcançada.

Basta para termos uma ideia do quanto nós, mulheres, ainda precisamos lutar, que se observe o número de feminicídios ocorridos nestes primeiros meses de 2026. Ou mesmo situações de misoginia, machismo, violência de gênero.

Somente em SC, dados do Observatório da Violência Contra a Mulher, vinculado à Assembleia Legislativa de Santa Catarina, registram impressionantes 6.983 ocorrências, incluindo 3.107 ameaças, 1.759 lesões corporais e cinco feminicídios.

Casos emblemáticos recentes acentuam ainda mais estas estatísticas. O que dizer da atribuição de “culpa” à mulher do secretário da prefeitura de Itumbiara, em Goiás, pelo assassinato de seus filhos pelo companheiro, que deixou um texto justificando o ato por conta de uma suposta traição. Mais do que o impacto da tragédia, restaram as condenações midiáticas à mãe.

Outro exemplo presente é a entrevista de um jogador profissional de futebol que proclamou, em alto e bom som que “Não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras e Corinthians, e eles colocarem uma mulher pra apitar um jogo desse tamanho. Acho que ela não foi honesta”. Parte da sociedade ainda insiste em que homens decidam quais lugares são destinados às mulheres.

Ainda o documento da professora Joana Célia dos Passos que, ao renunciar à Vice-Reitoria da UFSC, explicitou que “A violência política de gênero permeou meu exercício no cargo. O silêncio do reitor sobre os reiterados ataques que sofri — de membro da gestão e até mesmo durante sessões do Conselho Universitário — é reflexo de uma cultura institucional que restringe sistematicamente o espaço de mulheres na liderança”.

Todos estes relatos são fundamentalmente fatos. Não são discursos.

É absolutamente inconcebível que se tente justificar, naturalizar, atenuar as responsabilidades pelas práticas contra o papel da mulher na sociedade.

Diminuir-nos, excluir-nos, relegar nossa presença são os instrumentos mais comuns. Mas, a exemplo das pioneiras de 1932, as mulheres deste 2026 não se curvam, não se rendem. Resistem e lutam para garantir que as conquistas e vitórias sejam respostas a quem nos quer longe dos espaços de decisão.

*Felipa Rafaela Amadigi é professora do Departamento de Enfermagem (NFR/UFSC)

Artigo recebido às 13h do dia 24 de fevereiro de 2026 e publicado às 13h22 do mesmo dia