Negar o e-Democracia é limitar a participação estudantil

*Por Alex Degan

O Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) é uma unidade de ensino que concentra diversas graduações em licenciatura, com um número expressivo de discentes matriculados em cursos ofertados no período noturno e na modalidade EaD. Meu compromisso, enquanto seu diretor, abrange dimensões estruturais, acadêmicas e políticas. Cabe-me zelar, por exemplo, pela continuidade das viagens de campo, pela manutenção das salas de aula, pela aquisição de insumos para atividades laboratoriais e pelo adequado funcionamento dos procedimentos institucionais que regulam nossas atividades. Nesse sentido, também compete à Direção do CFH defender o direito à participação política de sua diversa comunidade acadêmica.

O CFH oferece licenciaturas presenciais em Ciências Sociais, Filosofia, Geografia, História, Licenciatura Indígena e Psicologia, além de bacharelados em Antropologia, Ciências Sociais, Filosofia, Geografia, Geologia, História, Museologia e Psicologia. Quatro de suas licenciaturas também são ofertadas no período noturno (Ciências Sociais, Geografia, Filosofia e História). Soma-se a isso a atuação de dez Programas de Pós-Graduação, que investigam temas que vão das profundezas da Terra às complexidades da psique humana.

Comprometido com uma formação de excelência articulada à resolução de problemas sociais brasileiros, o CFH mantém ainda três cursos de graduação na modalidade Educação a Distância (EaD) e um na modalidade de Pedagogia da Alternância. As licenciaturas em Filosofia (EaD), História (EaD), Educação Escolar Quilombola (EaD) e a Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica (Alternância) estão distribuídas pelo interior de Santa Catarina, levando formação pública de qualidade a regiões historicamente menos atendidas.

Trata-se de uma política institucional estratégica para o fortalecimento da democracia, a ampliação do acesso à educação superior e a promoção da justiça social. A formação de professores, pesquisadores e profissionais qualificados é parte essencial desse compromisso. Assim, investimos no fomento às graduações, especialmente às licenciaturas, em turnos variados (matutino, vespertino e noturno) e na modalidade EaD, ampliando nossa interlocução e presença no estado. Participar da disputa política oferecendo formação de excelência com a marca do CFH/UFSC é, portanto, um compromisso corajoso e necessário.

Nesse contexto, causa preocupação a posição das entidades Sintufsc, DCE e APG contrária à adoção de um sistema eletrônico online (e-Democracia) na consulta informal para a eleição da futura Reitoria da UFSC. A recusa ao voto eletrônico online pode, na prática, excluir da participação estudantes das licenciaturas EaD — em especial indígenas e quilombolas que permanecem em seus territórios —, bem como mestrandos, doutorandos e docentes que realizam pesquisas de campo em outras regiões do país ou no exterior. Também diminui o envolvimento de técnicos-administrativos em teletrabalho no dia da votação presencial.

Situação semelhante pode comprometer o pleno direito de participação dos discentes que frequentam aulas no período noturno. Em pesquisa publicada em 2017, o geógrafo Eduardo Donizeti Girotto observou que, no curso de Geografia da USP, estudantes do noturno tendiam a restringir parte significativa de sua participação à sala de aula, constituindo uma relação “semiaberta” com a instituição1. Especialmente entre os discentes trabalhadores, com jornadas extensas e horários apertados, “falta tempo para vivenciar a universidade em todas as possibilidades que a mesma oferece” (2017, p. 214). A adoção do sistema e-Democracia facilitaria significativamente a participação desses estudantes, ao eliminar filas e tumultos nos intervalos.

O próprio processo eleitoral conduzido por meio do e-Democracia tende a ser mais dinâmico, seguro e ágil. O sistema, desenvolvido por nossa universidade, é reconhecidamente eficaz, sendo utilizado em diversas eleições internas da comunidade. Com ele, reduz-se a possibilidade de práticas como boca de urna e outros mecanismos de constrangimento eleitoral. Também se elimina a necessidade de organização de mesas físicas de votação, que não estariam presentes nos polos de EaD e de Pedagogia da Alternância. O pleito que elegeu minha chapa para a Direção do CFH utilizou o e-Democracia e mobilizou o maior número de participantes da história do Centro. Da mesma forma, o atual reitor e seu atual candidato a vice-reitor, à época na oposição, chegaram ao segundo turno em 2022 com votos obtidos pelo sistema online. A maioria dos diretores de centro, chefes de departamento e coordenadores de cursos também foi legitimamente eleita por esse meio.

Em síntese, a adoção do e-Democracia apresenta-se como a alternativa mais justa e participativa diante do universo complexo do CFH. Estudantes das licenciaturas EaD, especialmente, bem como discentes trabalhadores com rotinas intensas, teriam maiores condições de exercer seu direito de participação eleitoral.

Todavia, tais reflexões parecem encontrar pouca ressonância entre as forças políticas que organizam a consulta. É preocupante observar representantes do Sintufsc afirmarem, em postagem no Instagram, que o sindicato docente pretende minar a paridade eleitoral ao defender o uso do e-Democracia. Trata-se de uma afirmação infundada. A paridade entre os três segmentos não foi, em nenhum momento, ameaçada, e quem sustenta o contrário deve apresentar evidências concretas.

A defesa do voto eletrônico online fundamenta-se em sua comprovada segurança e na garantia de eleições livres, sem práticas como o “voto de cabresto”. Argumentar que um sistema seguro e ágil de votação online reduziria a participação política, por afastar eleitores de espaços físicos, revela uma confusão entre sistema de votação e democracia. Esta última regozija-se com a ampliação da participação, e não com sua limitação.

No Brasil recente, críticas infundadas às urnas eletrônicas foram mobilizadas por atores políticos de extrema direita, como Jair Bolsonaro, construindo uma narrativa que associa, de forma equivocada, desconfianças sobre o sistema de votação a uma suposta crise democrática. Trata-se de uma confusão intencional entre sistema eleitoral — conjunto de regras que convertem votos em representação — e democracia, que envolve princípios mais amplos, como soberania popular, liberdade de expressão e direito à participação política. Democracias se fortalecem com a ampliação da participação social, não com sua restrição.

Cabe, ainda, questionar como as candidaturas postas se posicionam diante dessa questão: irão se omitir frente a uma possível restrição ao direito de voto? Irineu, João, Amir, Rodrigo, Luana e Felipa: defenderão ou não o direito de participação dos estudantes da EaD?

O princípio democrático exige a ampliação — e não a restrição — dos mecanismos de participação. Impõe-se, portanto, um debate público e transparente sobre as consequências dessa decisão, inclusive por parte das candidaturas à Reitoria, a fim de explicitar seu compromisso com a universalização do direito ao voto e com a inclusão de toda a comunidade universitária.

  1. GIROTTO, E. D. A classe trabalhado vai à universidade: análise das implicações político-pedagógicas a partir dos dados do Departamento de Geografia – USP. Revista da ANPEGE. V. 13, N. 20, 2017. ↩︎

Alex Degan é Diretor do CFH e docente de História da Ásia do Departamento de História.

Artigo recebido às 11h do dia 25 de fevereiro de 2026 e publicado às 11h49 do mesmo dia