Quebrando o teto de vidro

*Por Olga Regina Zigelli Garcia, Dilceane Carraro, Débora de Oliveira, Marilise Luiza Martins dos Reis Sayão, Simone Sobral Sampaio, Sandra Regina Carrieri, Andréa Cristina Trierweiller, Andréa Búrigo Ventura, Fernanda Geremias Leal, Susan Aparecida de Oliveira, Camila Pagani e Karla Zapelini Kurschus

O chamado “teto de vidro” (glass ceiling) nomeia as barreiras invisíveis que impedem mulheres de alcançar posições de liderança. Desde que a expressão foi cunhada por Marilyn Loden, nos anos 1970, tornou-se evidente que essas barreiras não se explicam por falta de competência, mas por estruturas culturais que reservam aos homens os lugares centrais de decisão.

No Brasil, as estatísticas continuam revelando esse limite. As mulheres já são maioria entre os mais escolarizados e ampliaram sua participação no mercado de trabalho, mas seguem sub-representadas nos cargos estratégicos. Em 2022, ocupavam apenas 39,3% das funções gerenciais e, nos postos mais altos do setor público, pouco mais de 30%. Para as mulheres negras, a exclusão é ainda mais severa. O problema central não é apenas chegar, mas ter condições reais de exercer liderança.

Foi nesse contexto que a gestão do professor Irineu na Universidade Federal de Santa Catarina inaugurou uma experiência inédita. Antes mesmo de formar uma chapa para concorrer às eleições para reitor tinha a proposta de ter paridade de gênero em sua gestão. Sendo assim, ao assumir a reitoria em 2022, instituiu pela primeira vez na história da UFSC a paridade de gênero no primeiro escalão, com 50% dos cargos estratégicos ocupados por mulheres.

Contudo, o aspecto verdadeiramente inovador não se limitou à distribuição numérica: nós, mulheres em cargos de gestão, passamos a exercer poder efetivo de governança, com autonomia para conduzir políticas, gerir orçamentos, definir prioridades acadêmicas e representar institucionalmente a universidade.

A decisão rompeu com uma tradição em que a presença feminina nos espaços de direção era frequentemente simbólica ou subordinada. Na gestão do professor Irineu, pró-reitorias e secretarias centrais lideradas por mulheres assumiram papel decisivo na gestão da Universidade Federal de Santa Catarina. As agendas estratégicas da universidade passaram a ser construídas de forma compartilhada, com voz e autoridade equivalentes.

Essa mudança teve impacto direto na qualidade democrática da UFSC. A pluralidade de olhares ampliou a capacidade de escuta da gestão, aproximou a administração de demandas historicamente invisibilizadas e fortaleceu políticas de inclusão. A paridade deixou de ser um gesto protocolar e converteu-se em método de governo, reconhecendo que a excelência acadêmica depende também da diversidade de quem decide.

Ao ir além do cumprimento formal de cotas, o professor Irineu demonstrou que quebrar o teto de vidro exige coragem política e redistribuição real de poder. A experiência da UFSC prova que mulheres não apenas podem ocupar cargos de direção, mas liderar processos complexos, inovar na gestão pública e conduzir a universidade em tempos de severa restrição orçamentária.

O legado dessa escolha ultrapassa o mandato. Ao confiar às mulheres lugares centrais de comando, com condições materiais e institucionais para decidir, a UFSC tornou-se referência nacional de equidade na governança universitária. Quebrar o teto de vidro na UFSC significou muito mais do que equilibrar números em uma tabela de cargos. Representou reconhecer as mulheres como sujeitos plenos de decisão, confiando-lhes a condução de políticas estratégicas, a gestão de orçamentos expressivos e a representação institucional da universidade nos espaços mais altos de diálogo com a sociedade. Significou alterar rotinas consolidadas, enfrentar resistências silenciosas e demonstrar, na prática, que liderança não tem gênero.

Ao transformar a paridade em poder real de governança, a gestão do professor Irineu inaugurou uma cultura administrativa em que a competência feminina deixou de ser exceção e passou a ser regra, produzindo políticas mais inclusivas, processos mais transparentes e uma universidade mais democrática. Esse legado não se mede apenas pelos cargos ocupados, mas pela mudança estrutural na forma de decidir, planejar e sonhar o futuro da UFSC.

Referências

BRASIL. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Painel de Raio X, Brasília, 2024.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. Estudos e Pesquisas, n. 38, 2024.
MCKINSEY & COMPANY. Women in the Workplace 2019. Nova Iorque: McKinsey & Company, 2019.

Artigo enviado às 17h53 de 25 de fevereiro de 2026 e publicado às 10h47 de 26 de fevereiro de 2026.