*Por Cristina Scheibe Wolff, Débora Carvalho Figueiredo, Janine Gomes da Silva, Joana Célia dos Passos, Joana Maria Pedro, Leslie Sedrez Chaves, Luana Renosto Heinen, Marília de Nardin Budó, Simone Pereira Schmidt, Sônia Weidner Maluf
O recente artigo publicado na Apufsc-Sindical, “Quebrando o teto de vidro”, traz um tema incontornável: as barreiras estruturais que historicamente limitaram o acesso das mulheres aos espaços de decisão. Nomear o “teto de vidro” é reconhecer desigualdades persistentes. No entanto, é igualmente necessário reconhecer que sua superação não nasce de um ato isolado de generosidade institucional, tampouco da iniciativa individual de um gestor, por mais relevante que seja o cargo que ocupe. Além disso, trata-se de desigualdade estrutural, que não é quebrada facilmente, e mesmo com políticas de paridade e contra o assédio, ainda há muitos tetos a quebrar.
Na Universidade Federal de Santa Catarina, os avanços na participação das mulheres em espaços estratégicos não começaram em 2022. Eles são fruto de décadas de organização, pesquisa, enfrentamento político e produção intelectual conduzidos por mulheres feministas — com perspectiva interseccional que abrangeram questões de raça/etnia, gênero, classe, território e geração — que tensionaram estruturas, denunciaram desigualdades e construíram coletivamente outros horizontes possíveis para a universidade.
Tivemos inclusive uma gestão liderada por duas mulheres, reitora e vice-reitora, responsável por um legado institucional na consolidação de práticas de transparência na gestão, ampliação do campus, criação de novos campi, mas obliterada sistematicamente na memória da UFSC. Somos uma das universidades mais reconhecidas nos estudos feministas e de gênero no Brasil, e mesmo assim, ainda temos casos de assédio, piadinhas misóginas, disputas cotidianas. Somos interrompidas, somos criticadas por nossos corpos e roupas, temos medo de andar no campus a noite. As estruturas de gênero ainda limitam onde andamos, o que falamos, como ensinamos e trabalhamos. Se no atual mandato houve paridade formal, ela não foi uma concessão feita por um homem, mas expressão de um acúmulo histórico e de negociações na construção da chapa da atual gestão. O teto de vidro não se rompe por permissão, mas sim por permanente pressão, por mobilização e por disputa de projeto. Cada espaço ocupado foi antecedido por embates, resistências e pelo trabalho contínuo de mulheres que abriram caminhos institucionais muito antes de qualquer mandato específico, reconhecendo aqui as que vieram antes dentro e fora da UFSC.
É importante também lembrar que os avanços vividos no mandato atual contaram com a atuação decisiva de mulheres que, ao longo do processo, foram exoneradas e da vice-Reitora que optou por se retirar da gestão justamente por apontarem os limites na construção de um projeto verdadeiramente democrático para a universidade. Isso também faz parte da história. A coletividade não se sustenta apenas pela presença numérica, mas pela possibilidade real de divergência, pluralidade de pensamento e respeito às diferenças políticas. Não foi sem pressão que nesta gestão foram realizados avanços no sentido das políticas de cotas para pessoas Trans, negras, indígenas, quilombolas, mães estudantes, e também políticas contra o assédio sexual e moral na universidade.
A experiência recente mostrou que mulheres exercem poder com competência, autonomia e visão estratégica — algo que nunca esteve em dúvida para quem acompanha a trajetória das feministas na UFSC. Contudo, a qualidade democrática de uma gestão não pode ser medida apenas pela composição paritária de cargos, mas pela capacidade de sustentar processos participativos, escutar dissensos e garantir condições efetivas para a construção coletiva.
Superar o teto de vidro é uma luta histórica. É resultado de gerações que enfrentaram invisibilidades, sub-representações, assédios, violência política de gênero e resistências explícitas ou silenciosas. É construção política e intelectual que antecede e ultrapassa qualquer administração. E estes tetos não estão colocados somente para as mulheres, mas temos muitos desafios a superar quanto à diversidade racial do corpo docente, à permanência estudantil, e tantos outros.
Reconhecer isso não diminui ninguém — ao contrário, engrandece a própria instituição. Porque reafirma que os avanços na UFSC são patrimônio coletivo das mulheres que ousaram sonhar, discordar, disputar e construir uma universidade mais democrática, inclusiva e plural. E que seguem – apesar de profundas divergências e desacordos – comprometidas com esse horizonte.
Artigo enviado às 7h36 de 2 de março e publicado às 8h55 do mesmo dia
