Sobre vícios e vices

*Por Fábio Lopes

Há cerca de quatro anos, assumia a direção do CED uma dupla com ares de dream team do feminismo de cátedra. Na cabeça da chapa, estava uma mulher negra com extensa carreira militante. Já a sua companheira de gestão era uma jovem promissora e brilhante que claramente se sentia nas nuvens com a oportunidade de fazer história na UFSC. 

Mas o sonho durou pouco mais do que uma noite de verão. Cerca de três meses depois da posse, a mosquinha azul mordiscou o braço esquerdo da diretora do centro, e ela aceitou o convite para formar chapa à reitoria com o Prof. Irineu. 

Era um pouco estranho ver alguém tão supostamente empoderada resignar-se ao lugar de simples assessora de seu partner. Mas tudo bem, a luta continua.

A jovem vice-diretora do CED, por seu lado, tinha tudo para ser a nova diretora da unidade – menos o apoio de sua sister, que só lhe contou que ia disputar a vice-reitoria quando todo o resto da humanidade já soubera da notícia. Para piorar as coisas, uma assembleia do centro foi chamada para destituí-la do cargo (à diferença de tantos outros vice-diretores, que herdaram sem contestação o lugar do titular quando este por algum motivo vazou). Ela aguentou esse primeiro tranco. No entanto, premida pelo desgosto e totalmente abandonada pelas sisters da sua sister, acabou por encerrar o mandato prematuramente. Em homenagem às mulheres, colocaram dois homens em seu lugar.

A ex-diretora e seu novo parceiro político venceram as eleições para a reitoria. A gestão iniciou-se cheia de promessas. Na cerimônia de posse, um ritual indígena serviu de símbolo do novo tempo que brilhava no céu da Pátria naquele instante. 

Eis, no entanto, que uma vez mais o que era doce cedo acabou-se. Logo ficou claro que a dupla formada por Joana e Irineu não dava a menor liga. Mas, em nome de sabe Deus o quê, eles foram levando com a barriga, como aqueles casais que aprendem a se odiar em silêncio a ponto de desperdiçar seus melhores anos em um casamento de conveniência.

Só que chegou uma hora em que o divórcio se impôs. E não foi coisa bonita de se ver. Primeiro o grupo da vice abandonou o barco com uma carta de despedida para lá de ridícula (“todas as cartas de amor são ridículas”, diria Pessoa em defesa deles). Depois foi a vez de ela mesma se desligar do cargo. Entre os impropérios que dirigiu ao reitor no ato de demissão, a agora ex-vice o acusava de ser misógino e racista. O fato de, no meio dos tiros trocados entre as duas facções, um dos apoiadores dela ter sido claramente misógino com uma adversária em uma sessão do Conselho Universitário não lhe causou nenhuma indignação. Aliás, feminista alguma defendeu publicamente a mulher atacada.

O mundo seguiu girando, indiferente às dores de uns e amores de outros. 

Na quarta passada, mais uma pequena surpresa no fascinante mundo das relações de gênero na UFSC veio à baila: a mulher que nenhuma sister defendera no CUn publicou um artigo para falar do quão importante a gestão do Prof. Irineu havia sido para a causa feminista. Como os sambas-enredo, o texto tinha mais umas dez assinaturas. Todas as autoras são membros da Administração Central, com gordas CDs a robustecerem suas contas bancárias. Elas agora posavam orgulhosamente ao lado da colega que haviam deixado na mão quando esta mais precisou de solidariedade (de solidariedade pública, bem entendido, porque de solidariedade sussurrada em mensagens privadas estamos todos até a tampa). 

Senti falta do nome da ex-vice no relato que fizeram. A sua história na gestão foi completamente apagada, como se ela nunca tivesse existido. Também senti falta de uma menção ao fato de que, no lugar da vice que foi sem nunca ter sido, o Prof. Irineu colocou não uma outra mulher mas um homem. 

No córner adversário, a cena que se vê atualmente tampouco chega a comover. A ex-vice ganhou um cargo em Brasília e, sem completar mais um mandato, partiu para outros assuntos, como na canção de Milton. Deixou de presente para nós uma chapa à reitoria liderada – adivinhem? – por um homem. Às mulheres – de novo sob o silêncio das sisters – coube once more o posto de vice. 

Um dia, quem sabe, a opressão machista será vencida entre as nossas feministas. 

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 16h01 do dia 27 de fevereiro de 2026 e publicado às 8h17 do dia 2 de março de 2026