*Por Olga Regina Zigelli Garcia
Li com atenção o artigo “Quebrar o teto de vidro: conquista histórica em processo”, publicado recentemente na seção de opiniões da Apufsc-Sindical. Concordo com um ponto central levantado pelas colegas: a superação das desigualdades de gênero nas universidades é fruto de um processo histórico, construído por muitas mulheres ao longo de décadas de pesquisa, militância e enfrentamento político. Nada disso começou ontem pois nenhuma transformação institucional nasce do nada. Ela se constrói a partir de acúmulos históricos, disputas e persistência — e ninguém que conheça minimamente a trajetória dos estudos feministas no Brasil afirmaria o contrário.
Mas reconhecer esse processo histórico não pode servir de pretexto para negar fatos institucionais objetivos. E o fato é simples: pela primeira vez na história da Universidade Federal de Santa Catarina, o primeiro escalão da administração central foi organizado com paridade de gênero e com mulheres exercendo poder real de governança. Isso não é uma metáfora. É um dado concreto.
Também não deixa de ser curioso que, para relativizar essa mudança institucional inédita, o texto procure deslocar o debate para uma afirmação genérica: de que o teto de vidro não se quebra por concessão de um gestor. Evidentemente que não. Nenhuma transformação social se resume à vontade individual de alguém. Mas instituições são feitas de decisões. E decisões são tomadas por pessoas que ocupam posições de responsabilidade.
Neste caso específico, houve uma decisão política clara: organizar a administração central da UFSC com paridade de gênero e conferir às mulheres autoridade efetiva de gestão. Reconhecer essa decisão não significa ignorar o trabalho histórico das feministas da universidade. Significa, justamente, reconhecer que esse acúmulo histórico produziu condições para que mudanças institucionais se tornassem possíveis.
Não se trata de uma presença simbólica, nem de ocupações decorativas. Mulheres passaram a dirigir pró-reitorias estratégicas, a gerir orçamentos expressivos, a conduzir políticas institucionais e a representar a universidade em espaços decisórios nacionais. Quem acompanha minimamente o funcionamento da administração universitária sabe que esses cargos são centros reais de poder. Negar esse fato não fortalece a luta feminista. Apenas obscurece a realidade.
Ao aprofundar um pouco minhas reflexões faço questão de afirmar algo que, para mim, é fundamental: também sou parte dessa história! Participo do Instituto de Estudos de Gênero (IEG-UFSC) desde sua fundação. Ao longo de mais de duas décadas de atuação feminista dentro da universidade, tive a honra de contribuir de diferentes formas para esse campo de estudos e de ação política. Entre elas destaco a coordenação, junto com minha colega profa. Drª Miriam Grossi, do curso de especialização a distância Gênero e Diversidade na Escola; a coordenação da frente de ensino do IEG/UFSC e a coordenação do Espaço Cultural Gênero e Diversidades. São mais de vinte anos de militância feminista, dedicados à produção de conhecimento, à formação e à construção de políticas institucionais que ampliem direitos e enfrentem desigualdades.
Portanto, quando escrevi, juntamente com outras colegas gestoras do primeiro escalão da UFSC, o artigo “Quebrando o teto de vidro”, não o fiz como observadora externa, tampouco como alguém recém-chegada ao debate feminista. Escrevi a partir de uma trajetória longa de compromisso com essa pauta. Justamente por isso, considero importante esclarecer alguns pontos que, à primeira vista, me parecem ter sido interpretados de forma equivocada.
O que causa estranhamento no artigo das colegas não é a lembrança da história — essa memória é legítima e necessária —, mas a tentativa de transformar um avanço institucional concreto em algo difuso, sem autoria, sem decisão política e sem responsabilidade administrativa. Quando conquistas institucionais passam a ser tratadas como fenômenos quase espontâneos, corre-se o risco de esvaziar exatamente aquilo que o feminismo sempre reivindicou: redistribuição real de poder.
Reconhecer que a atual gestão instituiu paridade de gênero no primeiro escalão da administração central da UFSC não significa negar a história do movimento feminista dentro da universidade. Ao contrário: significa reconhecer que essa história produziu condições políticas para que mudanças institucionais se materializassem. Nenhuma conquista surge no vazio. Toda transformação institucional é resultado de acúmulos históricos, pressões coletivas e disputas políticas. Mas isso não elimina o fato de que, em determinados momentos, decisões concretas são tomadas — ou não — por quem ocupa posições de poder.
Foi exatamente isso que eu e minhas colegas gestoras destacamos no artigo anterior: pela primeira vez na história da UFSC, a composição do primeiro escalão da administração central foi organizada com paridade de gênero e com mulheres exercendo poder efetivo de governança. E isso não é um conceito abstrato. É um fato institucional. Reconhecer esse fato não diminui em nada a luta histórica das feministas da UFSC. Pelo contrário: demonstra que essa luta começa a produzir efeitos estruturais na governança da universidade.
Também é verdade — como lembram as colegas — que já tivemos uma reitora e uma vice-reitora mulheres em uma das gestões passadas. Esse foi um momento importante da história institucional da UFSC. Mas a presença de mulheres em posições individuais de liderança não significa, necessariamente, transformação estrutural na distribuição de poder dentro da administração e a paridade no primeiro escalão é justamente um passo nesse sentido.
A presença de mulheres em cargos de liderança é importante. Mas o feminismo sempre nos ensinou que representação, por si só, não garante transformação estrutural. O que transforma instituições são políticas, decisões e investimentos. É por isso que considero um equívoco político transformar um avanço institucional concreto — como a paridade de gênero no primeiro escalão da universidade — em algo menor ou irrelevante. Feminismo não se fortalece negando avanços. Ele se fortalece reconhecendo conquistas, analisando seus limites e disputando seus desdobramentos.
Outra dimensão que considero importante trazer para este debate diz respeito a algo que, com frequência, aparece pouco quando falamos de políticas feministas nas instituições: os recursos concretos destinados à sua implementação. Política pública — inclusive política feminista — não se faz apenas com discursos ou formulações conceituais. Ela exige orçamento, investimento e decisões administrativas.
Quando assumi a Pró-Reitoria de Extensão da UFSC, uma das minhas primeiras preocupações foi a situação precária do Espaço Cultural Gênero e Diversidades pois imediatamente lembrei que sua revitalização era uma reivindicação antiga do IEG e de muitas pesquisadoras e militantes da universidade. Durante anos, diferentes gestões foram demandadas a investir na recuperação do espaço, sem que essa reivindicação fosse atendida. Eu mesma, quando coordenadora desse espaço enviei muitos pedidos neste sentido para a administração central.
Foi então que, já no exercício da Pró-reitoria, conseguimos viabilizar uma emenda parlamentar de R$ 250 mil para a reforma do espaço, garantindo recursos para sua revitalização e reabertura, obra essa por nós coordenada paralelamente ao exercício da Pró-reitoria. Não apresento esse exemplo como mérito pessoal isolado. Trago-o para lembrar algo simples: avançar nas pautas feministas dentro da universidade exige também capacidade de mobilizar recursos e transformar reivindicações em políticas efetivas e isso passa, inevitavelmente, pelos espaços de gestão.
Ao longo da atual gestão, diferentes políticas voltadas à equidade foram implementadas ou fortalecidas: ações afirmativas, políticas de enfrentamento ao assédio, políticas para pessoas trans, políticas de permanência estudantil para mães, entre outras iniciativas. Muitas delas foram construídas coletivamente, com pressão de movimentos e com participação de pesquisadoras e ativistas. Porém destaco que isso não diminui a importância das decisões administrativas que permitiram que essas políticas se tornassem realidade institucional.
O feminismo que aprendi, inclusive com algumas das signatárias do artigo “Quebrar o teto de vidro: conquista histórica em processo”, ao longo de minha trajetória sempre foi um feminismo comprometido com a transformação concreta das instituições. Um feminismo que disputa poder, que transforma estruturas e que constrói políticas públicas. Nesse sentido, considero que o debate aberto pelos dois artigos pode ser saudável — desde que não se transforme em um exercício de desqualificação de trajetórias ou de apagamento de contribuições.
O movimento feminista é plural. Sempre foi. Divergências fazem parte da vida democrática e da própria história do campo de estudos de gênero. Mas é importante que essas divergências não nos façam perder de vista aquilo que, em última instância, buscamos construir: uma universidade mais justa, mais plural e mais igualitária.
A luta para superar desigualdades de gênero na universidade está longe de terminar. Ainda enfrentamos assédio, desigualdades raciais profundas, obstáculos à permanência estudantil e resistências culturais persistentes. Ninguém que leve essa agenda a sério acredita que uma única medida administrativa seja capaz de resolver problemas estruturais.
Mas também não devemos cair no erro oposto: o de desqualificar mudanças institucionais reais porque elas não resolvem tudo de uma vez. Se queremos transformar universidades, precisamos combinar três dimensões: produção crítica de conhecimento, mobilização política e capacidade de governar instituições. Sem essa última dimensão, as demais tendem a permanecer no plano das intenções.
O feminismo universitário sempre foi forte na UFSC justamente porque conseguiu articular essas três frentes. Espero sinceramente que possamos continuar fazendo isso — com espírito crítico, com pluralidade de posições e, sobretudo, com compromisso com a verdade dos fatos.
Ao concluir, volto a afirmar: reconhecer avanços não diminui a luta feminista. Ao contrário: mostra que ela está produzindo efeitos concretos dentro das instituições. Reconhecer avanços institucionais não significa abandonar o espírito crítico. Significa compreender que as transformações são sempre parciais, inacabadas e resultado de múltiplas forças históricas. Quebrar o teto de vidro, como bem lembram as colegas, é um processo. Concordo plenamente.
Mas processos históricos também se materializam em decisões, políticas e mudanças concretas nas instituições. E quando essas mudanças acontecem, reconhecê-las não diminui a luta feminista. Pelo contrário: mostra que ela está produzindo efeitos dentro das instituições e ajuda a consolidar novas etapas dessa transformação.
Olga Regina Zigelli Garcia é professora do Departamento de Enfermagem (CCS/UFSC) e pró-reitora de Extensão da UFSC
Artigo recebido às 00h11 do dia 4 de março de 2026 e publicado às 11h20 do mesmo dia
