Uma proposta às chapas: por que a UFSC precisa discutir um fundo patrimonial

*Por Luís Felipe G. da Graça

Propostas mais heterodoxas ou imaginativas sobre o financiamento da universidade pública costumam gerar desconfiança imediata, muitas vezes rotuladas como ‘privatistas’. Ainda assim, peço que a proposta abaixo seja ao menos considerada antes do chavão.

A UFSC tem problemas de gestão, mas é indiscutível que há problemas de financiamento também. A resposta predominante tem sido disputar recursos públicos em um cenário de forte competição orçamentária. A expectativa de retorno aos anos de expansão dos primeiros governos Lula, embora compreensível, não encontra hoje base realista. 

Hoje, as Universidades Federais não são centro da agenda política de nenhuma força eleitoralmente viável. Na direita, somos execrados pelo nosso custo, pela ideologia contra o estado deste campo e pela percepção de baixo impacto das nossas atividades. Em um eventual governo de extrema-direita, não há expectativa de melhora da situação fiscal das universidades federais. Na esquerda, um quarto governo Lula não colocaria nosso financiamento como central, há boas justificativas sociais e eleitorais para focar os parcos recursos em políticas de assistência social. Hoje a universidade depende da liberação de orçamento federal sempre contingenciado. Os mais bem relacionados conseguem captar emendas parlamentares que financiam iniciativas pontuais com baixo impacto sistêmico. Não deixam, no entanto, de ajudar a fechar as contas. 

Por isso, proponho que as chapas envolvidas na disputa pela reitoria assumam seriamente o debate sobre a criação de um fundo patrimonial para a UFSC. Em termos simples, um fundo patrimonial é um mecanismo permanente de captação de doações, cujo principal é investido e cujos rendimentos financiam projetos da universidade. A lei 13.800 de 2019 permite a criação deste tipo de figura. A ideia geral é que pessoas físicas e privadas possam fazer doações a esse fundo. Como o fundo, por lei, é uma entidade privada sem fins lucrativos (CNPJ próprio), ele é contábil, administrativa e financeiramente segregado da universidade e dos doadores. Isso garantiria uma gestão mais independente dos recursos, obrigando a comunidade a competir por eles via editais abertos, com regras de governança, transparência e controle social definidos desde sua criação.  Esses editais poderiam prever não só pesquisa e extensão, mas financiamento para reformas e melhorias.

Um fundo patrimonial seria um caminho importante para a integração da universidade com o PIB catarinense e nacional. Não seriam apenas nossos alunos de maior sorte que poderiam ser convidados a uma doação. Toda e qualquer empresa de “DNA” catarinense poderia ser convidada a apoiar a universidade por este canal direto. Qualquer futuro pró-reitor de pesquisa terminaria suas conversas com empresas e entidades empresariais pedindo pela sua colaboração. Professores e colegas que assim desejassem poderiam fazer suas doações em vida ou em testamento. Sério e bem gerido, um fundo patrimonial da UFSC teria a capacidade de se tornar exemplo nacional. Já há casos como da USP, da UNICAMP e da COPPETEC/UFRJ de fundos deste tipo implantados.

Como professor de Ciência Política, com formação integral na área das ciências sociais, já antecipo as objeções segundo as quais a universidade não pode se dobrar ao Capital e que o único caminho legítimo seria o orçamento público. O problema dessa posição não é a defesa do financiamento estatal, mas a ideia de que ele seja suficiente e exclusivo. Na prática, essa postura frequentemente afasta docentes e alunos do contato com o mundo do trabalho e de suas demandas concretas. É difícil sustentar que o financiamento público, isoladamente, seja capaz de dar conta dos desafios atuais da universidade.

A sugestão do fundo patrimonial se baseia em outro fato. É razoável supor que não vamos receber mais recursos, seja quem for eleito, perigamos, na verdade, a minguar ainda mais. Um fundo patrimonial poderia ser um aliado importante para melhorar as condições da UFSC. Isso não implica deixar de buscar mais recursos federais ou mais emendas parlamentares. Mas assim como na vida comum fazer várias vezes a mesma coisa e esperar respostas diversas é um dos critérios de irracionalidade, também na vida institucional aplicar todas as fichas em um caminho que se mostra ineficaz faz anos é desperdício de energia. Como torço para que os alunos ainda dessa década consigam ter melhores condições, não devemos ficar esperando mais um ciclo econômico de commodities aumentar indiretamente o financiamento da UFSC. Fica a ideia — e o convite para que as chapas à reitoria a enfrentem com seriedade e coragem política.

*Luís Felipe G. da Graça é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC

Artigo recebido às 16h43 do dia 6 de março de 2026 e publicado às 8h30 do dia 9 de março de 2026