A Educação após Gaza

*Por Alex Degan

No dia 10 de fevereiro deste ano, a TV Al Jazeera divulgou uma investigação jornalística com uma suspeita aterrorizante: Israel teria lançado bombas termobáricas sobre a população palestina da Faixa de Gaza1. Esse tipo de armamento bélico, fornecido pelos Estados Unidos e condenado internacionalmente, dispersa uma nuvem de combustível aerossol temperado com TNT e pó de alumínio que, uma vez inflamada, explode em círculos de fogo, capturando o oxigênio e gerando vácuo. O resultado é o alcance de temperaturas de cerca de 3.500 °C, capazes de vaporizar tecidos orgânicos. A Defesa Civil de Gaza documentou que, desde outubro de 2023, 2.842 palestinos “evaporaram”. Como os militares israelenses dificultam qualquer investigação independente sobre o território, ainda não é possível averiguar plenamente a veracidade da suspeita.

Com base em relatórios de agências internacionais de direitos humanos, como a Human Rights Watch, sabe-se que, para além do armamento “convencional” (fuzis de assalto, mísseis guiados e bombas pesadas do tipo MK-84), Israel utilizou munição de fósforo branco, bombas guiadas de precisão, bombas antibunker e milhares de drones de vigilância, reconhecimento e ataque. Trata-se de um portfólio militar sofisticado, acessível apenas ao restrito grupo de potências globais da guerra, chancelado politicamente por senhores da morte como Donald Trump.

A ação israelense torna-se ainda mais inquietante quando se observam seus acréscimos tecnológicos, imprimindo uma espécie de assinatura. Lançando mão da inteligência artificial, seu exército desenvolveu um programa chamado “Lavender”. Suprimindo a exigência de verificação humana, o sistema decide, em cerca de vinte segundos, possíveis alvos. Algoritmos de morte instantânea entram em operação: drones decolam e disparam. Com a explosão automatizada, dispensa-se o trabalho dos carrascos que antes apertavam gatilhos, mutilavam corpos ou organizavam as filas dos fornos crematórios. As vítimas tornam-se ainda mais distantes de seus algozes, que passam a lidar com a morte em um não-espaço virtual semelhante ao dos videogames. Nesse cenário, personagens históricos da violência estatal — como Sebastião Curió, a tripulação do Enola Gay, Miguel Etchecolatz e Adolf Eichmann — parecem largamente superados pelo uso asséptico de tecnologias letais administradas por verdadeiros CEOs da mortandade.

Os ataques são apresentados como operações de precisão cirúrgica, embora tal precisão se revele profundamente pouco cirúrgica. Segundo fontes ouvidas pela Agência Pública2, o sistema erra em aproximadamente 10% dos casos, aceitando margens de erro moralmente absurdas: para cada agente iniciante do Hamas apontado pelo Lavender, seria admissível matar entre 15 e 20 civis; para altos dirigentes, o limite poderia ultrapassar uma centena de vítimas. Ao Lavender soma-se outro software, o “Where’s Daddy?”, responsável por mapear as residências dos alvos. Atuando em conjunto, os sistemas aguardam o momento em que a pessoa retorna para o seu lar. Então, a carga explosiva é lançada, frequentemente sobre toda a família. Simples assim.

Esses “efeitos colaterais” manifestam-se em múltiplos cenários: um prédio residencial aqui, uma escola ali, um hospital acolá. Assim, mais de 52% das cerca de 72 mil vítimas do genocídio em Gaza pertencem precisamente a essa categoria de vidas consideradas descartáveis: mulheres, crianças e idosos. O massacre na escola al-Tabin, em 2024, que deixou no mínimo cem mortos, antecipou a devastação que se consolidou em 2026, quando, segundo dados do UNICEF3, cerca de 90% das instituições educacionais da região estavam destruídas. Organizações como a ONU, a Anistia Internacional, Médicos Sem Fronteiras e a própria Human Rights Watch também documentaram ataques sistemáticos ao sistema de saúde. Para além de hospitais inoperantes, da grave crise sanitária e do bloqueio de insumos médicos, relatórios registram detenções ilegais, torturas e execuções de médicos, paramédicos, socorristas e enfermeiros.

A reflexão proposta, por mais perturbadora que seja, deve conduzir à meditação crítica e ao engajamento. O ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 — o mais sangrento da história de Israel — precisa ser condenado sem ambiguidades e relativizações. No entanto, legitimar a retaliação ilimitada que se seguiu como sua consequência natural é igualmente absurdo. O conflito não começou em 7 de outubro, assim como o processo colonizador israelense não constitui uma mera nota de rodapé do episódio. Como observa o historiador Ilan Pappé, a Faixa de Gaza pode ser compreendida como “a maior prisão de todos os tempos” (2025: 31).

Ao mesmo tempo, é necessário compreender criticamente o Hamas como um movimento distinto das tradições políticas da esquerda latino-americana. Trata-se de uma organização marcada por um fundamentalismo religioso sunita, em contraste com o secularismo do Fatah. Originado da Irmandade Muçulmana durante a Primeira Intifada, o grupo combinou assistência social, atuação política e ação militar. Sua carta fundadora de 1988 continha claros elementos antissemitas — parcialmente revistos em 2017 — e sua ascensão política consolidou-se com a vitória nas eleições palestinas de 2006. Sua exclusão subsequente do sistema político, em 2007, sob pressões israelenses e estadunidenses, aprofundou seu isolamento e reforçou sua base territorial em Gaza.

Os acontecimentos recentes fizeram ecoar novamente o célebre ensaio “Educação após Auschwitz”, de Theodor W. Adorno. Escrito em 1966, o texto sustenta que a tarefa primordial da educação, após a experiência histórica do Holocausto, é impedir a repetição da barbárie. Para Adorno, Auschwitz não foi um acidente isolado, mas o resultado de tendências presentes na própria modernidade: autoritarismo, conformismo e desumanização. A educação, portanto, deveria formar indivíduos autônomos e críticos, capazes de resistir à obediência cega e de reconhecer os mecanismos psicológicos e sociais que favorecem a violência.

Diversos pensadores retomaram esse diagnóstico diante da tragédia palestina. O filósofo brasileiro Vladimir Safatle, em seu texto “Pensar após Gaza: Desumanização, trauma e a filosofia como freio de emergência”, argumenta que Gaza obriga o pensamento crítico a confrontar uma nova forma de dessensibilização moral, exigindo que a filosofia atue como um “freio de emergência” diante da normalização da catástrofe. O italiano Franco Berardi, em  Em “Pensar após Gaza: Ensaio sobre a ferocidade e o fim do humano”, observa que o conflito esgota categorias morais tradicionais e exige repensar os fundamentos da convivência humana. Já o ensaísta indiano Pankaj Mishra, no livro “The World After Gaza: A History”, interpreta a destruição de Gaza como um momento de ruptura moral do Ocidente, comparável ao impacto histórico do Holocausto.

O jornalista estadunidense Peter Beinart, na obra “Being Jewish After the Destruction of Gaza: A Reckoning”, defende que a devastação de Gaza impõe uma profunda reflexão ética ao mundo judaico, sobretudo às diásporas, questionando o modo como a memória histórica do antissemitismo foi mobilizada para justificar a dominação política sobre os palestinos. Argumento semelhante aparece nos escritos de Bentzi Laor e Peter Pál Pelbart, no impressionante “O judeu pós-judeu: Judaicidade e etnocracia”, onde descrevem um percurso que transformou Israel em um regime etnocrático fundado na primazia institucional de um grupo étnico. A primazia de um grupo étnico sobre outros é o centro do estado sionista, e não a igualdade cívica entre as populações que historicamente coabitam a região.

O historiador Enzo Traverso, em “Gaza diante da História”, também interpreta a destruição de Gaza como parte de um longo processo histórico de colonização, disputa pelo território, expulsão e racialização. Discutindo os conceitos de antissemitismo, orientalismo, sionismo e genocídio, para ele, existe uma ironia trágica no fato de que, “enquanto destrói Gaza sob uma chuva de bombas, Israel é apresentado como vítima do maior pogrom da história depois do Holocausto” (2024: 15).

Compreendo como extremamente pertinentes as reflexões propostas pelos autores. Estou de acordo na denúncia que eles fazem do nacionalismo chauvinista e colonial que atravessa a questão Israel-Palestina, assim como da necessidade urgente da intelectualidade refletir sobre o horror que estamos assistindo. Todavia, destaco duas questões que, no meu juízo, merecem maior atenção.

A primeira é o equívoco de identificar plenamente o Estado de Israel com as tradições históricas do judaísmo que alimentam os Judaísmos. Insistir nesta semelhança é, para além de uma imprecisão histórica, dar a vitória discursiva aos extremistas da direita sionista israelense. Eles desejam e militam por esta confusão, querem que uma coisa seja sinônima da outra. Não é. Existem e existiram muitas formas de expressão cultural, étnica e religiosa judaicas. Por exemplo, muitos dos textos que fundamentam as religiosidades judaicas atuais, como parte significativa dos livros do Tanakh (a Bíblia Judaica) e do Talmud Bavli (Talmude da Babilônia), foram compostos e editados fora dos limites da Eretz Israel. Culturas ricas e antigas, como as alinhavadas pelos judaísmos, não se constituem em isolamento e solidão. Elas são vivas, historicamente construídas em amplos diálogos e trocas. As diásporas precisam urgentemente recuperar o lugar central dentro das histórias dos judaísmos. Aprisionar as identidades judaicas como algo único, “puro” e capturado pelo poder do estado é exatamente o que querem os políticos truculentos como Itamar Ben Gvir, Bezalel Smotrich, Benjamin Netanyahu e os soldados fanatizados do batalhão Netzach Yehuda.

A segunda questão diz respeito à hipótese de que Gaza representaria um novo “marco fundador” do horror contemporâneo. Para eles, antes e depois de Gaza funcionaria hoje como um antes e depois do Holocausto funcionou ontem. Infelizmente, não estou convencido. Como pergunta a historiadora Linda Kinstler, em “Quem seremos depois de Gaza?”, e se estivermos diante não de uma virada moral, mas apenas de mais um episódio em um mundo cada vez mais habituado à devastação?

É assustador, mas devemos considerar que, talvez, Gaza não inaugure uma nova consciência histórica. Seus palestinos, reunidos em sua nova catástrofe, agora rapidamente eclipsada pela Guerra contra o Irã, revelam antes a nauseante capacidade contemporânea de normalizar a destruição em massa automatizada. Lobotomizados pelas redes sociais e saturadas por uma economia da atenção, as sociedades parecem cada vez menos capazes de reagir moralmente ao horror e à violência extrema mediada por algoritmos, drones e distâncias tecnológicas.

Se for esse o caso, como me parece que é, a tarefa da educação torna-se ainda mais urgente e difícil: reconstruir as condições morais e intelectuais que permitam reconhecer a barbárie mesmo quando ela se apresenta como rotina administrativa, cálculo estatístico, regra do jogo ou efeito colateral. Como adverte a filósofa estadunidense Martha Nussbaum, em “Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das Humanidades”, sociedades que sacrificam as Ciências Humanas e Artes em nome da eficiência econômica e do tecnicismo acabam sacrificando também a empatia e a imaginação moral, exatamente o húmus fértil de sociedades mais abertas, livres e agregadoras. Na parte que me cabe neste latifúndio, julgando pela pobreza do debate eleitoral proposto por alguns dos doutores que almejam a reitoria da UFSC, estamos condenados.

Em um sopro de esperança, educar após Gaza talvez signifique recuperar exatamente essa capacidade: voltar a enxergar, por trás das estatísticas e das telas, vidas humanas cuja dignidade continua a nos interpelar. Significará reaprender a indignar-se diante daquilo que o mundo parece cada vez mais disposto a aceitar como normal e, até mesmo, risível. Simplesmente, educar após Gaza pode principiar com a nossa capacidade de, diante do horror estrondoso, chorar de assombro e indignação.

  1. MANSOUR, Mohammad. Israel used weapons in Gaza that made thousands of Palestinians evaporate. Al Jazeera. 10 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/features/2026/2/10/israel-used-weapons-in-gaza-that-made-thousands-of-palestinians-evaporate?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 13 de março de 2026. ↩︎
  2. ABRAHAM, Yuval. Lavender: a máquina de inteligência artificial que comanda bombardeios de Israel em Gaza. Pública. 28 de abril de 2024. Disponível em: https://apublica.org/2024/04/lavender-a-maquina-de-inteligencia-artificial-que-comanda-bombardeios-de-israel-em-gaza/. Acesso em: 13 de março de 2026. ↩︎
  3. NAÇÕES UNIDAS. Destruição de escolas em Gaza coloca futuro de toda uma geração em risco, diz Unicef. ONU News. 27 de janeiro de 2026. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2026/01/1852192. Acesso em: 13 de março de 2026.
    ↩︎

Referências:
BEINART, Peter. Being Jewish After the Destruction of Gaza: A Reckoning. New York: Knopf Publishing Group, 2025.
BERARDI, Franco “Bifo”. Pensar após Gaza: Ensaio sobre a ferocidade e o fim do humano. São Paulo: n-1 edições, 2025.
KINSTLER, Linda. Quem seremos depois de Gaza? Revista Piauí. São Paulo, 14 de outubro de 2025. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/quem-seremos-depois-de-gaza/. Acesso em: 13 de março de 2026.
LAOR, Bentzi; PELBART, Peter Pál. O judeu pós-judeu: Judaicidade e etnocracia. São Paulo: n-1 edições, 2024.
MISHRA, Pankaj. The World After Gaza: A History. New York: Penguim Press, 2025.
NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: Por que a democracia precisa das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
PAPPE, Ilan. A Maior Prisão do Mundo: Uma história dos territórios ocupados por Israel na Palestina. São Paulo: Elefante, 2025.
SAFATLE, Vladimir. Pensar após Gaza: Desumanização, trauma e a filosofia como freio de emergência. São Paulo: n-1 edições, 2025.TRAVERSO, Enzo. Gaza diante da história. Belo Horizonte: Âyiné, 2024.

Alex Degan é Diretor do CFH e docente de História da Ásia do Departamento de História.

Artigo recebido às 18h56 do dia 13 de março de 2026 e publicado às 9h25 do dia 16 de março de 2026