A nova estocada na democracia na UFSC

*Por Fábio Lopes

No fim da semana passada, Nildo Ouriques despertou momentaneamente de seu longo sono universitário. Do nada, decidiu tomar as dores de Elaine Tavares, respondendo às críticas que uns dias antes eu havia dirigido a ela em artigo publicado neste mesmo espaço. 

Se pretendo replicar seus ataques a mim? Nem pensar. Faz uma década que ele não é mais politicamente relevante na universidade.

Não tenho tempo a perder com seu niilismo regiamente remunerado e comissionado. Não tenho tempo a perder com o burocrata de segundo escalão em que ele se transformou, de modo que vamos ao que interessa: o seu chefe e, em particular, a mais nova estocada que este aplicou na democracia universitária.

Para poder tratar disso, cabe-me previamente recobrar o episódio anterior da série mambembe protagonizada por Irineu. 

Como sabem, a Comeleufsc está paralisada por um impasse quanto ao sistema de votação: a Apufsc defende o voto remoto, ao passo que as demais entidades querem urnas eletrônicas. 

Ocorre que, ignorando a divergência, o Sintufsc clandestinamente solicitou ao TRE a cessão das urnas. A resposta foi negativa. 

Em vez de mediar o debate ou ficar neutro, o reitor resolveu procurar o Tribunal na calada da noite, a fim de pressioná-lo a mudar sua decisão. Pudera: Irineu tem todo interesse em inviabilizar o voto remoto, uma vez que sabe que só reúne condições de vencer o pleito se mantiver alunos não ligados ao movimento estudantil bem longe das urnas.

Começa neste ponto o novo capítulo da trama. Conselheiros decidiram fazer o que o reitor não fez: ajudar a resolver o dilema da Comeleufsc. Para tanto, reuniram 25 assinaturas necessárias para uma autoconvocação do CUn. 

Ora, uma autoconvocação é um instrumento legal destinado a justamente propor pautas que o reitor se recusa a submeter ao Conselho. Assim é que, por suposto, a realização da sessão não passa pelo crivo do presidente dos trabalhos. 

O problema é que o Estado Democrático de Direito não anda  em moda na UFSC. Em mais uma manobra completamente descabida, o Comando Maluco, digo, Gabinete do Dr. Irineu, decidiu indeferir a autoconvocação, como se tivesse poderes para isso. A justificativa de seu abuso é ainda mais aloprada do que o ato em si: alegou ele que alguns conselheiros suplentes haviam subscrito o documento no lugar dos titulares, em que pese o fato de que, no caso em tela, o Regimento do CUn fale em “membros do Conselho”, sem especificar se titulares ou suplentes.

A prevalecer a grotesca interpretação que o reitor faz da letra da lei, a participação de suplentes – devidamente autorizados pelos titulares, como foi o caso – não poderia  valer em nenhuma circunstância. Em outras palavras, nosso genial líder acaba de abolir o conceito de suplência na UFSC, o que tornaria nula a quase totalidade das decisões de nossos Colegiados, uma vez que, regra geral, envolvem votos de suplentes. Brillhante.

É esse o grau de loucura institucional a que chegamos. Se nesse hospício vamos permanecer internados, só a eleição vindoura vai dizer.  

Há que reconhecer, no entanto, que há método na loucura de Irineu e seus minions. Ele precisa ganhar as eleições porque precisa desesperadamente esconder o fato de que recebeu do Prof. Ubaldo um caixa generoso mas, quatro anos depois, entrega a universidade em frangalhos e, ainda por cima, emparedada por uma dívida de trinta milhões de reais. 

Seus apaniguados também precisam desesperadamente da vitória. Imaginem o que para eles é, em um dia, andar sobre os tapetes vermelhos dos cargos comissionados e, no outro, ser um modesto servidor público no fundo de uma sala mofada qualquer da UFSC.

Eles estão apavorados com a perspectiva de serem mandados de volta ao lugar de onde nunca deveriam ter saído. É verdade que batem tambores de guerra, fazem cara de mau,  vociferam. Mas não nos iludamos esse teatro. Tudo isso é só um dialeto do pânico que hoje toma conta de suas almas inquietas.

Por ora, essa turma está escorada no Sintufsc, que tem operado como guarda pretoriana da Reitoria. Mas mesmo os sindicalistas devem estar cansados de ver o reitor dar um jeito de sempre tirar o corpo fora dos pepinos que cria, deixando as lideranças dos TAEs assumirem sozinhas as broncas. 

É verdade que, em troca, Irineu oferece ao Sintufsc algumas compensações. Só que a conta desse acordo está ficando alta demais. O reitor faz uma aposta perigosa: a de que a direção do sindicato tem sangue de barata e vai aceitar calada a até agora justa fama de ser chapa branca. 

A ver o que acontecerá nos próximos episódios. 

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 14h30 do dia 15 de março de 2026 e publicado às 9h34 do dia 16 de março de 2026