*Por Francine Lima Gelbcke e Camilo Buss Araujo
Há um poder oculto, composto por não muito mais do que dez pessoas, que tenta, e muitas vezes consegue, controlar boa parte das decisões na Universidade Federal de Santa Catarina. São cerca de uma dúzia de técnicos-administrativos que se aboletaram no sindicato da categoria, alinhados com uma pequena porção de docentes, e acabam por sequestrar a pauta administrativa de toda a UFSC.
Isso se dá por uma razão: a votação em bloco que os técnicos oferecem ao candidato escolhido numa disputa pela Reitoria pode ser decisiva para o resultado da eleição. Portanto, para ter poder, a agenda administrativa da universidade fica subordinada aos ditames de cerca de 12 “lideranças”.
Um exemplo claro está no posicionamento contra a renovação do contrato da Ebserh. O contrato terminou no dia 16 de março de 2026. No dia 13, parte desse grupo se reuniu com o atual reitor e cobrou que o contrato não fosse renovado antes que houvesse “um debate” com a comunidade.
Quem convive na UFSC há algum tempo sabe que muitas vezes pedir “mais debate” é uma forma cínica de se opor a uma proposta sem apresentar alternativa, com o objetivo de não encaminhar nenhuma solução para o problema.
No caso do contrato da Ebserh, o discurso do grupo é claro. Não se oferece nenhuma proposta concreta para melhorar a eficiência do Hospital Universitário em caso de não renovação. Fica explícito que o receio é que a Ebserh possa, eventualmente, interferir na forma de trabalho dos servidores do Regime Jurídico Único. Em outras palavras, não se importam com os trabalhadores da Ebserh, que são contratados pela CLT. A questão é garantir que a administração do HU não possa gerir ou supervisionar a atuação dos estatutários.
O que ocorreu ao longo desta gestão no HU foi algo sem precedentes. Houve, de forma clara e explícita, troca de votos por cargos, sem avaliação de competência técnica. Com isso o HU passou a enfrentar diferentes dificuldades: licitações que não atendem às necessidades da instituição, falta de insumos que comprometem o ensino, a pesquisa e, sobretudo, a assistência. Cirurgias sendo desmarcadas, falta de fios cirúrgicos, de seringas, de medicamentos, insumos básicos para uma assistência segura. O HU sempre primou pela qualidade e pela responsabilidade. Agora o que se vê é uma inércia administrativa.
Atualmente são 40 hospitais universitários vinculados à Ebserh. Isso significa fazer parte da maior rede pública de hospitais universitários do país, responsável sobretudo por procedimentos de alta complexidade. Fazer parte de uma rede também significa ganhar escala, cooperação institucional e capacidade de resposta.
O que há no contrato e de que forma seus termos são aplicados no cotidiano do HU precisam ficar claros, e é nessa questão que o papel da Reitoria e da comunidade é importante. Mas dizer que não há clareza, discurso que circula com frequência, é suficiente para mobilizar os fantasmas que são o verdadeiro motor da unidade corporativa dos técnicos.
Um dos grandes fantasmas é o de que os servidores do RJU seriam incorporados à Ebserh. Trata-se de uma mentira utilizada para justificar a rejeição ao contrato. Está explícito na cláusula sétima, parágrafo segundo: “Serão assegurados os direitos vinculados ao regime jurídico de origem, incumbindo à CONTRATANTE os encargos relativos ao cargo efetivo, e à CONTRATADA os encargos decorrentes das funções comissionadas ou gratificadas.” Em outras palavras, os direitos dos servidores estatutários permanecem garantidos.
Ser contra a Ebserh neste momento equivale, na prática, a aceitar o enfraquecimento progressivo do próprio hospital universitário.
Quando se lê o relatório final da comissão de acompanhamento do contrato, composta por chefias delegadas pelo atual reitor, encontram-se incongruências e equívocos que demonstram desconhecimento do funcionamento cotidiano do HU. Trata-se de uma comissão claramente direcionada. Ainda assim, é essa gestão que pretende se manter.
Segundo o próprio relatório, o orçamento de capital do HU passou de cerca de R$ 1,4 milhão em 2015 para aproximadamente R$ 7,7 milhões em 2024, um aumento superior a 500%. Já o orçamento de custeio, sem despesas de pessoal, saltou de cerca de R$ 52 milhões para aproximadamente R$ 91 milhões no mesmo período. Ou seja, os recursos cresceram de forma significativa. O problema, portanto, não parece ser falta de recursos, mas falhas evidentes de gestão.
A pergunta que fica é simples: qual é a proposta real para o HU? Porque o processo de desmonte já começou. É justamente nesse ponto que a dimensão política do problema aparece com mais clareza. Diante de falhas evidentes de gestão e da ausência de um projeto consistente para o hospital, torna-se conveniente deslocar o debate para outro terreno.
A UFSC é uma instituição gigantesca e, por isso mesmo, heterogênea e multifacetada. Ainda assim, tal como ocorre hoje no país e no mundo, simplificar conflitos e produzir dicotomias é politicamente eficiente. Assim, constrói-se uma narrativa em que tudo se reduz a um confronto entre categorias.
A retórica passa por “defender a categoria” contra a suposta verve opressora dos professores e contra riscos iminentes de perda de conquistas históricas, como a jornada de trinta horas e o teletrabalho. Os demais membros da categoria, que não têm vontade, tempo ou paciência para se aprofundar nos debates político-sindicais, e que receiam que esse discurso possa ter fundamento, acabam seguindo a orientação de seus “líderes”. Faz sentido. O medo é um agente político poderoso.
O resultado disso é que, em qualquer eleição para a reitoria em que o voto siga o sistema paritário, no qual cada categoria representa um terço dos votos, essa dinâmica tende a ter peso decisivo.
Os votos dos candidatos se dividem entre estudantes e professores. Os técnicos votam em bloco no indicado pela dúzia de lideranças, movidos pelo receio de piorar suas condições de trabalho. O resultado é que o voto corporativo passa a ter papel determinante na eleição. A faixa do Sintufsc na greve de 2024 deixa isso bem claro: “Irineu, não esqueça quem te elegeu.”
Exemplos não faltam. Todas as demandas levadas pelo sindicato dos técnicos são prontamente atendidas pela Reitoria. Houve até a intervenção pessoal do reitor, candidato à reeleição, junto ao TRE solicitando urnas eletrônicas após a negativa do tribunal. Nesse caso, não foi um pedido da comissão que organiza a consulta informal, porque não havia consenso. O sindicato dos professores defende o voto remoto e o próprio TRE negou o primeiro pedido, indicando o uso do sistema e-Voto. Nesse caso, o reitor simplesmente ignorou os professores e correu diligentemente para atender uma demanda desse pequeno grupo.
Para ser mais claro: alguém acredita que o reitor demoliria a sede do Sintufsc sem oferecer nenhuma alternativa? Ou que faria com esse sindicato o que fez com a Apufsc, mandando construir uma edificação e cobrando 20 mil reais de aluguel?
É claro que o buraco em que a UFSC está metida não diz respeito apenas a esse fator. Mas o fato objetivo é que, se o sistema político favorece esse tipo de liderança, o resultado é que a administração da instituição acaba se curvando a essa lógica de poder.
E convém lembrar que o corporativismo não é atributo exclusivo dos TAEs. Entre os professores ele também existe. Basta recordar que o reitor estendeu artificialmente a última greve por trinta dias para atender às necessidades organizativas de TAEs e de alguns “docentes em luta”, que chegaram a ocupar seu gabinete exigindo que a Agecom retirasse a informação sobre o fim da greve, decisão que já havia sido votada pelos professores.
Agora, curiosamente, estão novamente juntos.
Como diz o cartaz: não esqueça quem te elegeu. Por isso, a UFSC precisa urgentemente de mudança.
*Francine Lima Gelbcke é professora titular do Departamento de Enfermagem da UFSC; Camilo Buss Araujo é professor do Colégio de Aplicação e ex-vice presidente da Apufsc
Artigo recebido às 18h29 do dia 16 de março de 2026 e publicado às 11h18 do dia 17 de março de 2026.
