*Por Alex Degan
O dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu “A Resistível Ascensão de Arturo Ui” (1941) no contexto da escalada do nazismo na Alemanha. É do epílogo dessa peça satírica que se desenvolveu a famosa frase: “a cadela do fascismo está sempre no cio”. Nas palavras do autor:
“Por isso, aprendam a ver e não a fitar.
Aprendam a agir e não falar, só falar.
Por um destes foi quase o mundo conquistado!
Mas os povos reagiram, foi controlado.
Não se julguem, porém, livres do perigo –
Inda dá frutos a cova deste inimigo!“
A peça é um grito desesperado, funcionando como uma alegoria da subida de Hitler. Narra a ascensão de um gângster em Chicago que, por meio de intimidação, manipulação e alianças oportunistas, conquista um protagonismo econômico, mostrando como elites econômicas, políticos corruptos e a passividade social permitiram que um pulha maligno chegasse ao poder. Todavia, como sugere o título, isso pode ser evitado. Os dados ainda estão no jogo e, sem depender apenas da sorte, podemos impedir o triunfo dos canalhas.
O texto serve como um alerta. Por exemplo, nós temos como evitar que pilantras similares grassem em nossa universidade. Nesta semana um disseminador do ódio da extrema direita esteve no CCB, protagonizando a sua calhordice de sempre: intimidação de discentes, filmagens e fotografias não autorizadas e sinistros risos cínicos. O CFH, que já foi vítima reiteradas vezes desses vagabundos, solidariza-se com nossos colegas das ciências biológicas. Não podemos esmorecer! Na ocasião, publiquei um texto na Apufsc, realizei boletim de ocorrência, fiz um alerta em sessão do CUn e encaminhei sugestões, com um pedido de ajuda, para a reitoria. Nada aconteceu. Ou melhor: aconteceu. O problema se repetiu.
Tampouco notei que tal assunto tenha entrado no foco das candidaturas que se colocam na disputa pela administração central universitária. Irineu, Amir e João precisam dizer publicamente o que pensam sobre a questão e se posicionarem, sem rodeios ou relativizações, contra as ações da extrema direita dentro da UFSC, principalmente porque estamos em um estado que, infelizmente, está bastante suscetível ao canto da sereia fascista. Pois, na terra do cachorro Orelha, a bucica do Fascio está excitadíssima.
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024), Santa Catarina foi o segundo estado brasileiro com maior número de registros de injúria racial, ficando atrás apenas de São Paulo, e apresentou a maior taxa de crime de racismo por 100 mil habitantes no país. Também são alarmantes os índices de violência contra povos indígenas e seus territórios, bem como os episódios de violência relacionados às questões de gênero, incluindo o crescimento de agressões físicas e violações de direitos da população LGBTQIA+.
Dados recolhidos pelo Observatório da Violência contra a Mulher da Alesc, coordenado pela deputada estadual Luciane Carminatti (PT), testemunham um panorama depressivo: em 2020, foram registradas 64.007 ocorrências de violências praticadas contra mulheres em Santa Catarina; em 2023, esse número subiu para 77.949.
Esse quadro se agrava quando considerado à luz da pesquisa da antropóloga Adriana Dias, que evidenciou o crescimento acelerado de grupos neonazistas no Brasil, impulsionado pelo fortalecimento da extrema direita. Em 2022, segundo dados divulgados pela pesquisadora, Santa Catarina contabilizava 320 células fascistas, configurando a maior concentração proporcional por habitante entre os estados brasileiros. Compreensão similar encontra-se na pesquisa de João Klug, historiador e professor aposentado da UFSC.
Diante desse contexto preocupante, determinadas iniciativas políticas no estado contribuem para aprofundar as tensões, em vez de enfrentá-las. Entre elas, destacam-se: propostas de lei que buscam proibir políticas de cotas raciais e outras ações afirmativas nas instituições estaduais de ensino; projetos contrários ao reconhecimento de direitos da população LGBTQIA+ e à abordagem de temas de gênero nas escolas; tentativas de cerceamento do trabalho docente nos moldes do movimento Escola sem Partido; medidas de controle da circulação de pessoas na Rodoviária de Florianópolis; restrições à doação de alimentos à população em situação de rua; fechamento do restaurante popular em Florianópolis; e a insuficiência de financiamento, por parte da FAPESC, de pesquisas acadêmicas nas áreas de direitos humanos, relações de gênero e estudos étnico-raciais.
Simplesmente não podemos fingir que o ovo da serpente não está frutificando entre nós. Igualmente não podemos adotar o argumento de alguns, que relativizam os riscos comparando os extremados da direita com os da esquerda. De fato, a extrema esquerda universitária flerta com o autoritarismo e acredita ser a portadora de bússola moral infalível ao julgar o bem e o mal. Gosta também de lacração e de silenciar vozes democráticas dissonantes. No entanto, a diferença marcante é que esta é irrelevante em termos políticos nacionais e globais, sem conseguir mobilizar força eleitoral saliente. Funciona quase como uma caricatura restrita aos limites dos campi universitários, que apenas pode atrapalhar algumas de nossas aulas.
Com a extrema direita, a situação é completamente outra. Donald Trump, o presidente do país mais forte do mundo em termos econômicos e militares, é um extremista de direita, assim como o primeiro-ministro da maior democracia da Terra, Narendra Modi. Parte significativa do nosso parlamento milita na mesma direção, vociferando uma quantidade vergonhosa de ofensas nas velocidades dos cliques de internet. Hoje, a extrema direita possui evidente validade eleitoral, está organizada mundialmente e não deseja disputar centros acadêmicos. Ela entrou de vez nos jogos macropolíticos. E está ganhando de lavada.
O cientista político neerlandês Cas Mudde observa, em “A Extrema Direita Hoje”, o crescimento do extremismo de direita assentado em partidos políticos fortes e institucionalizados que, progressivamente, deixam de operar em margens irrelevantes, como ocorre com as legendas da extrema esquerda, passando a atuar no coração das democracias. O sistema passa a normalizar sua presença, considerando suas pautas chauvinistas, a erosão dos direitos dos grupos marginalizados e o deterioramento das instituições liberais como algo crível. Mudde mostra que a extrema direita contemporânea não é um resquício vitaminado do fascismo clássico, mas um fenômeno político adaptado aos nossos tempos. Ela opera principalmente por meio da direita radical populista que ama bombar nas redes sociais, combinando nacionalismo, autoritarismo e populismo.
Na análise de Cas Mudde, sua agenda política organiza-se em torno de um conjunto estável de temas altamente mobilizadores. Entre eles, destacam-se a oposição contundente à diversidade cultural e ao multiculturalismo, frequentemente apresentados como ameaças à identidade nacional, bem como críticas ao feminismo e aos movimentos pelos direitos LGBTQIA+, vistos como expressões de uma suposta decadência moral promovida por elites culturais e intelectuais. A defesa da família tradicional surge como contraponto normativo a essas transformações sociais.
Nesse quadro discursivo, também aparecem ataques recorrentes às universidades e à produção científica, frequentemente retratadas como redutos ideológicos dominados por elites progressistas, cuja autoridade intelectual seria suspeita ou manipuladora. A posição laica e secular, centrada no empirismo, fundamentada na crítica acadêmica e no peso da evidência, é percebida como um valor arrogante e ameaçador. No caso das universidades federais brasileiras, a recente e tímida abertura de acesso aos grupos historicamente marginalizados provocou uma desconfiança crescente. Difundem-se teorias conspiratórias, teses negacionistas e ódio ao saber alinhavado no recalque e no ressentimento.
O antropólogo e etnomusicólogo estadunidense Benjamin Teitelbaum, em “Guerra pela Eternidade”, apresenta outros elementos que aprofundam o entendimento da péssima relação que a extrema direita constitui com as universidades. Em sua investigação, parte significativa da nova extrema direita global foi influenciada por uma corrente filosófico-religiosa conhecida como Tradicionalismo, associada aos pensadores René Guénon e Julius Evola. Essa visão sustenta que o mundo contemporâneo entrou em uma era de decadência espiritual profunda causada pela modernidade, pelo igualitarismo e pela secularização, e que seria necessário restaurar uma ordem hierárquica e sagrada inspirada em tradições antigas. Não por acaso, tais autores possuem uma visão completamente idealizada e a-histórica da Idade Média e das religiões tradicionais, como os cristianismos, os islamismos e os hinduísmos. São reacionários radicais, e não exatamente conservadores.
Tais vivências apresentariam uma ordenação social justa, com hierarquias e relações de gênero legitimadas pela ação divina. Trata-se de uma irreal nostalgia de um mundo em que “menino veste azul e menina veste rosa”. Teitelbaum mostra como essas ideias, antes restritas a círculos esotéricos e pitorescos, passaram a influenciar figuras políticas contemporâneas extremamente relevantes, como Steve Bannon, Aleksándr Dúgin e Olavo de Carvalho, que compartilham a crença de que a política atual é parte de uma luta civilizacional contra a decadência moderna, uma espécie de “guerra espiritual” destinada a restaurar uma ordem tradicional considerada eterna e divina. Não é de se estranhar que, para tais indivíduos, as universidades sejam o reduto de perigosos ateus, de homossexuais abusadores e de racionalistas doutrinadores. Trata-se, nessa visão, de uma instituição desalmada. É a morada de tudo o que eles odeiam e desejam combater.
As universidades, instituições sempre em construção, são espaços de liberdade e abertura para a diferença. E aqui cabe dialogar com o mestre Karl Popper, tão bem conhecido nas ciências exatas como filósofo do pensamento científico e da metodologia do trabalho. Austríaco de uma família de judeus seculares, Popper também foi uma vítima do fascismo, tendo que fugir da Alemanha nazista. No seu clássico “A Sociedade aberta e seus inimigos”, ele desenvolve o conceito de paradoxo da tolerância. O filósofo sustenta que uma sociedade ilimitadamente tolerante pode acabar destruída pela própria tolerância. Se ideias e movimentos intolerantes — que rejeitam o diálogo e defendem a supressão de outros grupos — forem plenamente tolerados, eles podem usar essa liberdade para eliminar a própria tolerância. Por isso, argumenta Popper, uma sociedade aberta deve estar disposta a limitar ou resistir à intolerância quando ela ameaça os princípios básicos de convivência democrática.
Concordando com Popper, acredito que precisamos consolidar entendimentos básicos sobre a questão, pois os ataques dirigidos contra a comunidade universitária não vão cessar. Muito pelo contrário: com a aproximação das eleições nacionais, eles devem crescer em número e em violência. Algumas orientações podem ser adotadas:
- Quando reconhecermos pessoas fazendo uso desses modus operandi de mentiras e coerção, devemos nos proteger, agindo de forma coletiva, sem confronto físico e, principalmente, evitando a interação. Ignorem, quando possível, as investidas;
- Devemos verbalizar claramente que não consentimos com a captação e o uso de nossas imagens e vozes, repetindo essa afirmação insistentemente. O Artigo 5º da Constituição Federal, em seu inciso X, e o Artigo 20º do Código Civil (Lei no. 10.406/02) protegem o uso da imagem de uma pessoa, especialmente se a utilização ocorrer sem autorização;
- Procurem as autoridades institucionais do espaço imediatamente, notificando os porteiros e vigilantes para que entrem em contato com a Direção da unidade de ensino;
- O fato de estarmos em prédios públicos de instituições de ensino não é sinônimo de liberdade absoluta para toda forma de comportamento inadequado, pois temos garantias constitucionais que conferem a autonomia universitária (Artigo 207) e a liberdade de cátedra (Artigo 206). Temos proteção constitucional que permite às universidades federais estabelecerem regras de acesso e permanência em seus espaços, seguindo a lei.
Como estamos em meio a um processo eleitoral, é de suma importância cobrar dos candidatos respostas rápidas e viáveis. Algumas sugestões para o debate:
- Precisamos refinar as ações e orientações jurídicas que protejam o nosso ofício e a nossa comunidade;
- É necessário o estabelecimento de protocolos claros de ação para vítimas e gestores;
- A SSI e os vigilantes terceirizados precisam de orientação e de segurança institucional para atuar. Não podemos nos esquecer: os arruaceiros são mestres em ações de assédio e intimidação;
- Um número adequado de vagas que chegaram oriundas dos cargos obsoletos deve ser destinado ao reforço da SSI;
- Precisamos aumentar o número de câmaras de vigilância;
- A comunicação institucional precisa ser urgentemente descentralizada, alocando nas unidades de ensino equipes profissionais que atuem diretamente com suas direções e departamentos didático-científicos, trabalhando na divulgação do conhecimento científico, produzindo matérias e dialogando com a sociedade;
- É necessária a articulação com outras IFES, trocando experiências, estabelecendo diálogos e levando o assunto até a Andifes, MEC e Ministério Público.
Por isso, Irineu, Amir e João precisam se posicionar claramente. Esta não é uma questão pequena, circunscrita apenas aos shows de horror que uns arruaceiros fazem provocando confusões em nossas unidades de ensino. Tampouco se trata de uma questão de opinião ou de liberdade de expressão. O projeto dessa gente é varrer da face da Terra porções preciosas da UFSC, principalmente as que respondem pelo CFH, CCE, CED, CSE e CCJ. E, sem engano, não existe ciência digna sem liberdade de cátedra e de pensamento. Não perdura a relação pedagógica em meio do medo e da infâmia. Não se sustenta técnica ou razão no reino do arbítrio e da violência. Não será o Brasil soberano em ciências – sejam elas exatas, biológicas ou humanas – se persistirem entre nós as abjetas desigualdades que nos aprisionam ao nosso passado opressor. Em síntese, se calarem o CFH, todos ficarão mudos, do CTC ao CCS. Ou como vaticinou Brecht, “ainda dá frutos a cova do inimigo”.
A verdade é que eles odeiam a universidade. E nós? Amamos?
Referências
BRECHT, Bertold. The Resistible Rise of Arturo Ui. London: Methuen Drama, 2013.
MUDDE, Cas. A Extrema Direita Hoje. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2022.
POPPER, Karl R. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1974.TEITELBAUM, Benjamin R. Guerra pela eternidade: O retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Campinas: Editora da UNICAMP, 2020.
Alex Degan é Diretor do CFH e docente do Departamento de História (CFH/UFSC).
Artigo recebido às 10h25 do dia 17 de março de 2026 e publicado às 13h30 do mesmo dia
