*Por Fábio Lopes
Quem me dera nunca mais ter que escrever sobre as desgraças que acontecem na UFSC. O problema é que elas não param de se acumular.
Coube ao Conselho Universitário protagonizar o mais novo ato de insanidade institucional em nosso já maltratado ateneu. Acompanhem os detalhes comigo.
Por iniciativa de 25 conselheiros, o CUn se autoconvocou a fim de tentar colocar um pouco de ordem na bagunça reinante na Comissão Eleitoral.
O reitor inicialmente havia indeferido a iniciativa. Algumas horas mais tarde, resolveu ler o Regimento da Casa e descobriu que não tinha poderes para isso. Ato contínuo, emitiu a convocação da reunião. Como não dá ponto sem nó, só recuou depois de arregimentar sua guarda pretoriana – Sintufsc e DCE – para combinar maneiras de intimidar os infiéis.
A estratégia desses grupos de apoio a Irineu começou com o alardeamento de uma mentira deslavada nas redes sociais: a propósito de inflamar suas bases e instigar o ódio aos docentes, inventaram que a sessão se destinava a abolir o voto paritário em nome da regra dos 70/30. Seus ativistas sabiam muito bem que tudo que se queria discutir era o sistema de votação, se presencial ou remoto, e a data do primeiro turno. Não obstante, deram uma boa banana para verdade.
Depois falam das fake news bolsonaristas. Está vendo, conselheiro Alex Degan? Ao menos na UFSC, precisamos falar também da extrema-esquerda.
Veio, em todo caso, a reunião do Conselho. Pela octogésima vez, o presidente dos trabalhos abriu o auditório a militantes. A democracia representativa era novamente substituída pelo assembleísmo de botequim. Vaias, gritos e frêmitos tornavam a ser a trilha sonora do cada vez menos egrégio Conselho.
Na hora marcada, o reitor pôs em votação a ordem do dia, e a comédia começou. Pasmem: os pontos de pauta que faziam parte da autoconvocação foram vetados pela Plenária (mesmo que isso contrarie completamente não apenas o bom senso mas o Regimento do CUn).
Imaginem daqui a 50 anos uma futura Comissão da Verdade e Memória tendo que contar esse episódio: “No dia 17 de março do Ano da Graça de 2026, o Conselho Universitário se autoconvocou. No que o Notícias da UFSC costumava chamar de “dia histórico”, decidiu se autodesconvocar.”
O time que votou pela autodesconvocação era assaz curioso. Formavam-no, para começar, os conhecidos apaniguados do reitor. A estes, para surpresa de ninguém, juntaram-se conselheiros pertencentes ao grupo que se desligou recentemente da Reitoria, em uma clara demonstração de que o rompimento tem muito mais a ver com disputas de poder do que diferenças no modo como enxergam (ou, mais precisamente, não enxergam) a instituição. Mas o mais impressionante foi ver certos conselheiros que haviam assinado o Ofício de autoconvocação votarem contra a pauta que eles mesmos propuseram…
Ah, sim, quase ia me esquecendo do precioso voto estudantil. Em que pese o mandato da diretoria do DCE já ter se encerrado, o reitor achou por bem renovar-lhes a representação no CUn na véspera da reunião de ontem. E, como era de se esperar, eles não decepcionaram o seu benfeitor, sem dar bola para o paroxismo de quererem pontificar sobre eleições para reitor mesmo tendo propositalmente pulado a parte em que tinham que fazer a deles. Nada como gozar do privilégio de poder ser professor de democracia sem precisar exercê-la no próprio lar.
Então, fica combinado assim: a consulta que todos fingimos ser informal será presencial, ainda que isso implique a exclusão automática de umas duas mil pessoas (estudantes EaD e servidores afastados ou licenciados). Ademais, o primeiro turno acontece mesmo em 1º de abril, o proverbial Dia da Mentira. Dane-se o fato de que o reitor esteja em campanha há duzentos anos, ao passo que os demais candidatos tenham que dar tratos à bola para divulgarem suas chapas em parcas três semanas.
O CUn outra vez virou piada, mas o importante é que a Sacrossanta Comissão Eleitoral se manteve impoluta (by the way, acabo de me lembrar de uma frase famosa do pianista Oscar Levant sobre Doris Day: “Conheço essa moça desde o tempo em que não era virgem”). Pouco importa que o presidente da Comeleufsc não tenha assinado ou revisado a lista de votação que supostamente seguiu para o TRE. Pouco importa que ninguém tenha visto até agora o documento em que o TRE aprova a cessão das urnas (a propósito, meus informantes no Poder Judiciário garantem que isso ainda não ocorreu). Pouco importa que a convocação de mesários, o treinamento deles e o planejamento de toda a logística que amparará o pleito não tenham nem sequer começado.
Tudo isso é pura preocupação boba de gente que não tem mais o que fazer. Segue o jogo.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 7h16 do dia 18 de março de 2026 e publicado às 9h42 do mesmo dia
