*Por Raphael da Hora
Muitos já se manifestaram sobre a eleição deste ano para a Reitoria da UFSC, bem como sobre as qualidades e habilidades desejáveis para o exercício dessa função. Nesse contexto, parece evidente que uma instituição do porte da UFSC não se constrói apenas com ideias, mas com trabalho concreto, compromisso coletivo e capacidade de diálogo. É a partir dessa compreensão que manifesto meu apoio à candidatura do professor João Luiz Martins a reitor e da professora Luana Renostro Heinen a vice-reitora, pela chapa 63 – Conhecer é Transformar.
Conheci o professor João Luiz Martins em 2022, quando ele assumiu o cargo de diretor de gabinete da reitoria, período em que eu exercia a chefia do Departamento de Matemática. Desde então, tive a oportunidade de acompanhar de perto sua atuação em diversas situações complexas, especialmente aquelas que exigiam articulação institucional, sensibilidade política e, sobretudo, compromisso com soluções reais. Poderia até parecer natural, à primeira vista, que alguém do CFM apoiasse sua candidatura pelo fato de ele ser egresso do próprio Centro, com graduação e mestrado em Matemática pela UFSC.
No entanto, o meu apoio não se baseia nessa afinidade de origem, mas nas ações concretas que presenciei ao longo desse período. Entre diretores de centros, chegou a se tornar quase um “meme”, no melhor sentido da palavra, a ideia de que, diante de qualquer impasse relevante, bastava recorrer ao professor João Luiz.
Lembro, por exemplo, de discussões delicadas envolvendo a tentativa da reitoria de transferir recursos dos centros para a Seplan, para custear serviços de instalação de condicionadores de ar, mesmo na ausência de contratos que contemplam esse tipo de serviço.
Tenho visto, com alguma preocupação, questionamentos sobre o fato de o professor João Luiz ter integrado a gestão do professor Irineu Manoel de Souza e agora concorrer ao mesmo cargo. Há quem enxergue nisso uma contradição automática. Essa leitura, no entanto, me parece simplista. Uma universidade como a UFSC é formada por múltiplos atores, com diferentes responsabilidades e graus de decisão. Reduzir todos os membros de uma gestão a uma mesma lógica é ignorar a complexidade institucional e, principalmente, desconsiderar o trabalho sério de muitos profissionais altamente qualificados.
Posso afirmar, com base na convivência institucional, que tive a oportunidade de interagir com diversos membros da atual gestão que demonstraram dedicação exemplar à universidade. Cito, por exemplo, a professora Débora de Oliveira e o professor Werner Kraus Junior, cuja atuação foi decisiva para o fortalecimento da pesquisa e da pós-graduação.
Os resultados da última Avaliação Quadrienal da Capes são expressivos: programas como os de Física e de Matemática Pura e Aplicada avançaram do conceito 5 para o conceito 6, passando a integrar o seleto grupo de Programas de Excelência Acadêmica (Proex). No Centro de Ciências Físicas e Matemáticas (CFM), 80% dos programas de pós-graduação acadêmicos são hoje considerados de excelência, um patamar que reflete trabalho consistente e apoio institucional efetivo. Destaca-se, ainda, que o Programa de Pós-Graduação em Matemática Pura e Aplicada é o único programa de excelência na área de Matemática na região Sul do Brasil, enquanto o Programa de Pós-Graduação em Química mantém, há anos, o conceito máximo 7. Merece menção também o Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica (PPGECT), que ficou a apenas um ponto de alcançar o conceito 7 e vem se consolidando, ao longo dos anos, como um programa de excelência.
No caso da professora Débora de Oliveira, tive contato direto quando ela esteve à frente da coordenação do curso de graduação em Engenharia Química, período em que participamos de diversas reuniões no CTC para discutir a eficiência da então disciplina MTM3100 – Pré-Cálculo, à época a maior da UFSC, com mais de 1.800 estudantes matriculados por semestre. Foi particularmente marcante observar sua dedicação a um aspecto central da universidade, a graduação, que, embora fundamental, nem sempre recebe a devida valorização. Ainda persiste, em alguns contextos, a percepção de que a graduação ocupa um papel secundário frente à pesquisa, o que torna ainda mais relevante destacar posturas que reafirmam o compromisso com a formação dos estudantes como eixo essencial da universidade.
Esses exemplos demonstram que não faz sentido desqualificar, de forma generalizada, todos os que participaram da gestão, especialmente quando sabemos que muitos trabalharam intensamente, inclusive enfrentando limitações estruturais significativas.
No caso específico do professor João Luiz Martins, posso relatar experiências concretas que evidenciam sua capacidade de atuação. Um dos momentos mais críticos enfrentados pelo CFM nos últimos anos foi a desocupação dos blocos modulados. Tratava-se de uma situação extremamente delicada: precisávamos deixar os espaços sem qualquer definição clara de realocação. Nesse contexto, a atuação do professor João Luiz foi decisiva.
Graças à sua articulação com diferentes setores da universidade, foi possível viabilizar a realocação de entidades estudantis, coordenações de curso, programas de pós-graduação e projetos como o PET Matemática. Destaco também sua atuação em um impasse particularmente sensível: a realocação do centro acadêmico dos cursos de graduação em Física. Mais uma vez, sua disposição em dialogar e buscar soluções foi fundamental, inclusive na negociação para utilização de antigos espaços do CCB.
Não se trata de idealizar. A situação do CFM ainda é extremamente difícil, talvez a mais crítica da universidade em termos de infraestrutura. Continuamos enfrentando desafios básicos, como a alocação de mais de 300 turmas por semestre, contando com apenas três salas de aula no Departamento de Física e 4 salas adaptadas em antigas estruturas que pertenciam ao CCB. No entanto, afirmo com convicção: sem a atuação do professor João Luiz Martins, estaríamos em uma condição significativamente pior.
Quanto à professora Luana Renostro Heinen, embora meu contato tenha sido mais pontual, foi profundamente marcante. Recordo-me, em especial, de sua participação em uma reunião de colegiado do Departamento de Matemática, na qual apresentou, com enorme clareza e profundidade, os impactos da proposta de reforma administrativa em tramitação no Congresso Nacional. Foi um momento de grande aprendizado e, para mim, um ponto de inflexão no interesse pelas atividades sindicais. Sua dedicação ao debate público qualificado e ao bem coletivo é algo que merece destaque, e que, infelizmente, ainda é raro.
Não posso deixar de registrar que, embora o professor Irineu tenha mantido abertura para ouvir demandas, nada se converteu em ações concretas. A UFSC enfrenta hoje problemas graves de gestão, especialmente nas áreas administrativa e de infraestrutura. Questões básicas, como a elaboração de termos de referência para licitações, têm impedido a execução de serviços essenciais. A situação da Prefeitura Universitária, em particular, é preocupante: desde a ausência de processos licitatórios até falhas elementares na solicitação de materiais indispensáveis.
Falo com conhecimento de causa. Participei diretamente de processos de pregão para aquisição de itens de carpintaria (pregão 90178/2025), alvenaria (pregão 90226/2025) e hidráulica (pregão 90213/2025), demandas que, em muitos casos, deveriam ter sido conduzidas por setores específicos, mas não foram. Não é uma função que me orgulha exercer, mas é necessária para que a universidade continue funcionando minimamente.
Diante desse cenário, acredito que a UFSC precisa de uma gestão que combine experiência, capacidade de articulação e compromisso com resultados concretos. Minha experiência com o professor João Luiz Martins e com a professora Luana Renostro Heinen, indica que essa combinação é possível.
Independentemente do resultado da eleição, seguirei trabalhando pela universidade, como sempre fiz, na expectativa de contar com uma gestão que esteja à altura dos desafios que enfrentamos.
*Raphael da Hora é professor do Departamento de Matemática e vice-diretor do CFM/UFSC
Artigo recebido às 15h55 do dia 18 de março de 2026 e publicado às 11h13 do dia 19 de março de 2026
