A teocracia da UFSC

*Por Heronides Moura

Na UFSC, vivemos em uma teocracia. Uma teocracia sem deus. De fato, o mais adequado é criar um neologismo e chamar esse sistema político de ideocracia: o governo por uma ideologia. Todos os sistemas políticos estão amparados em algum conjunto de ideias sobre o mundo, ou seja, uma ideologia. Mas a diferença é que na ideocracia a única coisa que conta é a ideologia. O resto é ilusão. O mundo real, o espaço físico, a natureza, o bom senso e até os sentimentos das pessoas estão submetidos à ideologia e não existem fora da ideologia.

Estamos vivendo um experimento social na UFSC, com a implantação gradativa de um novo sistema político. Só com a compreensão desse novo modelo é que conseguiremos avaliar o que está acontecendo. Em uma situação normal, qualquer reitor que não conseguisse proporcionar o mínimo de condições de ensino e pesquisa seria facilmente derrotado por uma chapa opositora. Os docentes e técnicos se uniriam em defesa das condições de trabalho e os discentes atacariam com unhas e dentes a gestão ineficiente e inoperante.

Mas está acontecendo o contrário. Docentes e técnicos estão divididos e os alunos estão quietos. Pode acontecer qualquer coisa de ruim na UFSC, que o cenário não vai mudar. Intoxicação por gás no Restaurante Universitário? Moradia estudantil inabitável? Blocos de ensino sem água? Nada altera o favoritismo do atual reitor.

A minha explicação para isso é que o grupo hoje no poder na UFSC criou um remendo de sistema político, a ideocracia. Nesse sistema, há uma completa desconexão entre o mundo real e o mundo da ideologia. Só o último conta. O ar que respiramos, as salas em que circulamos, os laboratórios, a grama, as árvores, tudo isso é uma ficção diante da ideologia. Um prédio inteiro pode ruir em cima das pessoas, e ainda assim vai ter gente defendendo com paixão o nosso reitor.

Isso ocorre porque, na ideocracia, o que importa mesmo é defender um conjunto restrito de ideias com o fanatismo de uma religião evangelizadora. No caso da UFSC, as crenças dessa ideologia podem ser contadas com os dedos de uma só mão: 1) o mundo lá fora é um ambiente hostil.  2) temos de proteger as minorias mais atingidas por esse mundo hostil. 3) a universidade é o meio de assistir esses desprotegidos. 4) quanto mais uma minoria é sofredora, mas ela deve ser protegida. 5) não há recursos suficientes para fazer nada, porque o mundo é hostil.

Quem defende esses 5 mandamentos é uma pessoa que serve ao bem e à ideocracia. Quem não concorda ou não se limita a esses mandamentos, é uma pessoa que está a serviço das forças do mal. É o vilão da história.

A ideocracia é, no fundo, uma teocracia, pois a salvação de uma pessoa depende estritamente de sua adesão aos mandamentos de quem está no poder. Não depende de como a pessoa age no dia a dia nem do que ela produz. Não importa nem mesmo o caráter dela. Basta se declarar defensora dos Mandamentos e ela está salva e pode até conseguir um cargo na Reitoria.

Essa ideocracia se diz de esquerda, mas se trata de uma esquerda bem particular e inepta. Até o século passado, ser de esquerda era desejar um mundo melhor para todos. Era ter esperança na transformação social e técnica da sociedade, em benefício de todos. 

A esquerda era voltada para o futuro. Essa ideocracia não se interessa pelo futuro. Ela desdenha das inovações e está completamente presa no presente. Ela defende que o mundo é hostil e que é impossível escapar dele. A única coisa que se pode fazer é reconhecer a dor dos que sofrem mais. Eles pregam o amor ao sofrimento e não o amor pelas pessoas. 

Essa ideocracia nos coloca em um beco sem saída. Ela não propõe nenhuma inovação social e tecnológica. Crise energética? Crise climática? Novas formas de organização social? Novas patentes? Movimentos artísticos e culturais de vanguarda? IA?

Nada disso interessa à ideocracia. Ela é imobilista. Ela é descrente. Ela é apática. Ela reduz tudo à maldade e à hostilidade do mundo.

O efeito moral e emocional desse sistema é avassalador.

Os jovens gostam de agir, de transformar. Muitos professores, também. Mas a ideologia reinante diz que isso é inútil, que isso é, no fundo, conservador, pois qualquer mudança pontual seria reformismo e só incrementaria a maldade econômica, ocidental e cósmica. O mantra é que o universo piora com a inovação.

A ideocracia propaga duas emoções dominantes: o medo e a ansiedade. É tudo péssimo no mundo, não dá pra mudar nada, só podemos acolher os mais sofredores. E quem é contra a ideocracia é chamado de direitista, conservador, eurocêntrico ou coisa pior.

Lembrem-se sempre que o mundo real não importa nada para os que estão no poder na UFSC. Vazamento de gás no RU? Hospital universitário em crise? Fenômenos superficiais, sintomas de algo maior e mais cósmico. A Reitoria tem todos os segredos.

Na UFSC, as pessoas andam com medo de opinar, com medo de serem otimistas, com medo de proporem ações coletivas, com medo de viver.

A ideocracia é um sistema opressor. Temos de voltar para a democracia.

*Heronides Moura é professor do Departamento de de Língua e Literatura Vernáculas (CCE/UFSC)

Artigo recebido às 16h20 do dia 19 de março de 2026 e publicado às 8h15 do dia 20 de março de 2026