Basta um clique para apagar o passado

*Por Fábio Lopes

Outro dia, cruzei com duas senhoras que trabalham na Provac, a empresa de limpeza contratada pela UFSC. Quando viram que eu usava um bottom de campanha, aproximaram-se para saber quem eu apoiava. Ao lerem os nomes de Amir e Felipa, deram um suspiro de alívio. “Ainda bem”, disse uma delas. Ato contínuo, desancaram o atual reitor em coro.

A insatisfação se justifica plenamente. Aquelas pessoas – representantes do grupo mais vulnerável na UFSC – conhecem bem o que é comer o pão que o diabo amassou nos últimos quatro anos. Testemunharam atrasos no salário. Viram centenas de colegas terceirizados serem impiedosamente demitidos. Pagaram por essa diminuição de pessoal com sobrecarga de trabalho. De resto, sentiram na pele o desleixo da fiscalização do contrato, que permite que faltem produtos básicos de limpeza às equipes. 

Melhor do que ninguém, elas percebem que essa história de que Irineu defende os mais desprotegidos é pura conversa fiada. Os desprotegidos que não votam nada valem. O que ele faz é distribuir benesses onde imagina poder conquistar eleitores. Em troca, os seus apoiadores fingem defender os proletários do mundo, quando, na verdade, estão só usando esse papo furado para preservar os próprios interesses pessoais e corporativos. 

Sabem quem também se deu conta de que Irineu é um demagogo vulgar cercado de hipócritas por todos os lados? Os trabalhadores contratados pela EBSERH. Eles descobriram da pior maneira que a propalada defesa do HU pelo reitor nunca passou de uma mera tentativa de cooptar os servidores da UFSC que trabalham no hospital, ou seja, os que por lá votam. 

Os funcionários da EBSERH aprenderam na prática por que Irineu ainda não renovou o contrato com a empresa: ele quer apenas agradar seus possíveis eleitores, mesmo correndo o risco de ver o hospital fechar as portas (o novo contrato vai aumentar os controles sobre os RJU do HU).

Irineu fez o que fez por apostar que a EBSERH não ia deixar o HU na mão. Claro, ele não tinha certeza de que isso aconteceria, mas pagou para ver. E pagou para ver porque sabia que, caso sua manobra não desse certo, quem entraria pelo cano mesmo não seriam ele e seus eleitores, mas apenas os que não votam para reitor: os colaboradores da EBSERH, que perderiam seus empregos, e a população mais pobre, que ficaria sem atendimento. 

É fácil brincar com a vida dos outros. Irineu e apoiadores são de esquerda? Só se a esquerda perdeu todos os escrúpulos e princípios.

A cara dessa miséria moral é o candidato a vice que Irineu tirou da cartola no mesmo dia em que se livrou de Joana. O moço mudou de lado como quem muda de roupa.

O novo best friend forever do reitor dormiu fazendo discursos inflamados contra a incompetência de Irineu e acordou de braço dado com seu antigo desafeto.

Dormiu chamando o reitor de jumento e outros bichou, mas acordou jurando fidelidade eterna àquele a quem ofendia desse jeito.

Dormiu na direita e acordou fazendo fotos enrolado em bandeiras estampadas com a foice e o martelo.

Recentemente, no Dia Internacional da Mulher, sabem quem ele trouxe para fazer palestra na UFSC? A vereadora Manu Vieira, estrela do conservadorismo catarinense, que se elegeu pelo Novo e hoje é do PL. Na época, ele achava isso o máximo. Fez até postagens orgulhosas do evento com ela no Instagram do CCS. Mas aí veio uma boa noite de sono, e tudo mudou.

Sem pudores, apagou a postagem ao lado de Manu do perfil do Centro, traindo a vereadora e quem mais nele acreditou (várias outras postagens semelhantes também foram deletadas, como aquela em que ele criticava os TAEs). Recebeu por isso a devida recompensa: é chamado de “colega vibrante e resolutivo” por ilustres representantes da esquerda universitária em manifestações públicas.

Se é resolutivo sempre, eu duvido. Mas uma coisa é certa: na hora de se livrar do que não mais lhe interessa em seu próprio currículo, é um foguete. O que ele fez no verão passado desapareceu em um passe de mágica. 

Já não há mais vestígio do que ele fez quando achava que ganharia mais prestígio no CCS se fingisse ser direitista. Agora que o vento virou, ele finge ser de esquerda, e vida que segue. Viram como é fácil? Basta um clique, e pronto.

*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC

Artigo recebido às 12h03 do dia 23 de março de 2026 e publicado às 8h56 do dia 24 de março de 2026