*Por Fábio Lopes
Em mais de três décadas de UFSC, só não vi boi voar. Ou melhor: eu achava que já tinha visto de tudo. Mas os últimos anos me fizeram revisar meus conceitos. Os absurdos que antes a gente testemunhava na instituição são fichinha perto da loucura ora em curso. Já não se fazem mais disparates como antigamente.
O que distingue as barbaridades atualmente perpetradas na universidade é o fato de que elas nos deixam eternamente em dúvida. A gente sabe que está sendo lesado. Só não sabe se quem está nos lesando nos toma por otários ou age com pureza d’alma de alguém que, como certos adolescentes rebeldes, não tem a menor ideia da consequência de seus atos.
Vejam o caso da bagunça no Conselho Universitário. Não é possível que aquela gritaria, aquela falta completa de modos, aquelas piadas homofóbicas ditas ao microfone e aquelas faixas diretamente vindas do túnel do tempo sejam obra de gente que completou 18 anos ou ao menos foi informada sobre isso.
Vejam também o caso do candidato a vice na chapa da situação. Aparentemente, ele achava que ninguém ia estranhar o fato de que virou casaca no exato dia em que o grupo da vice-reitora deixou vagas abertas na gestão.
Por mais maluco que isso possa parecer, o colega também achava que ninguém se lembraria de que ele foi adversário eleitoral de Irineu e, depois disso, seu mais ferrenho crítico.
Tampouco entraram nos seus cálculos os efeitos danosos do perdido que ele deu nas pessoas que acreditaram na sinceridade de suas ex-intenções.
Pior, muito pior: ele parecia estar certo de que ninguém descobriria que, até se aproximar de Irineu, suas lealdades políticas mais profundas o ligavam à direita catarinense.
Sua confiança era tanta que, para impressionar seus novos camaradas, ele resolveu tirar uma casquinha de Bruno Souza na internet.
Que diabos passou pela sua cabeça? Que a pessoa que lhe abriu as portas da própria casa para jantares políticos e libações ia apanhar calado? Que, em nome da amizade e dos good and not so old times, Souza iria deixá-lo brincar de ser esquerdista às suas custas?
Não deu outra: em resposta, o ex-deputado, como qualquer adulto da espécie esperaria, expôs os pecadilhos que seu amigo cometia por aí no verão passado.
Mais recentemente, foi a vez de outra figura proeminente do Partido Novo, o Prof. Rafael Ary, postar que, até pouco tempo, a convite do Prof. Moretti, os dois costumavam se encontrar no CCS para planejar o futuro da direita na UFSC.
O vice na chapa de Irineu deu sorte de não ser também emparedado por Manu Vieira. Por algum motivo que me escapa, a vereadora do PL decidiu relevar o fato de que o Prof. Moretti apagou das redes sociais as fotos em que ele orgulhosamente se apresentava como organizador de uma palestra dada por ela no Dia Internacional da Mulher.
Seja como for, a força das revelações de Souza e Ary pesou sobre as suas costas, e ele se sentiu obrigado a explicar o inexplicável.
Em condições normais de temperatura e pressão, o melhor seria ficar quieto, deixar que a brisa suave do tempo varresse aos poucos as recordações indesejáveis.
O problema é que a UFSC sob Irineu e apoiadores é tudo menos normal. Aqui, o indivíduo acuado pelo próprio comportamento errático acha que tem como dar um Pedala Robinho na inteligência alheia.
Assim é que as explanações do Prof. Moretti vieram na forma de um vídeo em que ele singelamente defende a seguinte tese: os erros em que incorreu até sua conversão à esquerda eram parte de um processo então inacabado de maturação política.
Entendi. Dormir no Novo e, sem nenhuma carta de despedida, acordar esquerdista não deve ser visto como agressão aos antigos parceiros mas como uma hegelianíssima Aufhebung rumo à revelação do Espírito.
Sejamos generosos: acreditemos que o Prof. Moretti encontrou mesmo com o seu caminho de Damasco na política. Uns veem o Senhor envolto em luz, ele viu Irineu e se converteu. Vá lá. Mas nesse caso o que não fecha na sua história é ele imediatamente lançar-se a um cargo de altíssima responsabilidade, no topo da hierarquia na UFSC.
Convenhamos: se o Prof. Moretti sinceramente acha agora que é esquerdista, o minimamente razoável seria ele dar um tempo para ver se a sua new found faith é mesmo uma convicção que veio para ficar, não uma mera veleidade de cristão Novo. Perdão, ato falho meu: cristão novo, com n mínúsculo.
Que estou eu a dizer? Sou um velho professor à beira da aposentadoria. Um dinossauro. A UFSC mudou. O que vale agora não é a lenta acumulação, a paciência, sem a qual não há ciência. O que importa, velho homem, é a disrupção, a dinamicidade, a mui nietzschiana vontade de poder.
Neste admirável mundo novo, os antigos pudores e a culpa judaico-cristã morreram sem deixar saudade. Deixe o Prof. Moretti ser feliz. Se ele despertar amanhã achando que tem que voltar a ser direitista, basta que poste outro vídeo nos stories. Ele pode dizer, por exemplo, que a vida é um eterno aprendizado, e tudo ficará bem.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 9h14 do dia 26 de março de 2026 e publicado às 11h10 do mesmo dia
