*Por Fábio Lopes
Quando tomou posse, Irineu recebeu da gestão anterior um caixa suficiente para custear seis meses de funcionamento da universidade. Passados quatro anos, entregará ao próximo reitor um déficit de trinta milhões de reais.
Pense nisso toda vez que você ouvi-lo reclamar do baixo orçamento. A par dos valores repassados pelo MEC, Irineu montou no porão da Reitoria uma máquina de fazer dinheiro que turbinou a sua receita. Os recursos disponíveis, não se esqueçam, eram a grana vinda do governo mas também essa capivara de trinta milhões que ele pendurou “no cabide ali em frente”, como no samba de Noel.
Foi a sua maneira de aumentar a arrecadação, já que nem ele nem seu diretor de gabinete – duas vezes reitor e com propalado trânsito em Brasília – trouxeram um centavo de lá para os cofres da UFSC.
Uma parte generosa da dívida contraída por Irineu diz respeito ao fornecimento de água e luz para a instituição. Há um bom tempo, ele dá perdidos mensais na Celesc e na Casan.
Mas hoje eu queria falar mesmo de uma conta de outra natureza que também chegou ao gabinete. Refiro-me ao fato de que, como ficamos sabendo na semana passada, o companheiro de chapa de Irineu passou os últimos anos em convescotes e conspirações com personagens que o reitor e apoiadores dizem odiar.
Irineu elegeu-se graças a uma aliança apressada e pouco meditada com a Profa. Joana. Em consequência disso, acabou por transformar a Reitoria em uma praça de guerra na qual seu grupo e o grupo da vice consumiam boa parte do tempo deles e do nosso dinheiro. Deu no que deu: o rompimento entre as facções se tornou inevitável, e não foi coisa bonita de se ver.
Ele, contudo, parece nada ter aprendido com a experiência. O divórcio político com a Profa. Joana nem havia sido anunciado quando surgiu a primeira foto pública com seu novo vice. Estavam em uma mesa de bar em alegre confraternização, enquanto você tem que levar papel higiênico e sabonete de casa caso precise usar banheiros da universidade. Como desfaçatez pouca é bobagem, dirigentes do Sintufsc rodeavam a dupla, como se tivessem se esquecido de que a regra nº 1 do sindicalismo digno desse nome é manter prudente distância dos patrões (mas quem lá está ligando para isso? 40% da diretoria anterior do sindicato – sete de 19 membros – faz ou fez parte da gestão atual, ganhando CD de 5, 6 ou até 7 mil reais).
Uma vez mais, o reitor se mete em um acordo político que não tem como dar certo. Ou melhor: a rigor, ele se mostra disposto a voos infinitamente mais arriscados nessa nova parceria.
Imaginem um eventual segundo mandato de Irineu. Desde o primeiro dia, ele teria que conviver diuturnamente com uma pessoa que, na classificação de seus correligionários, é um fascista. E o pior é que Irineu já está perfeitamente avisado sobre o tamanho da roubada em que seu comportamento açodado o colocou. Afinal, o so-called fascista tem sido pródigo em atos não exatamente virtuosos, como tentar esconder seu passado recentíssimo de seus novos camaradas ou renegar seus parceiros do Novo, como se até ontem não estivesse envolvido até a medula com eles. Irineu sabe que quem age assim uma vez tem tudo para agir assim outras vezes.
Os temíveis deuses do Destino podem eventualmente demorar a entrar em cena, mas, cedo ou tarde, são implacáveis com quem anda fora da linha. Irineu cresceu à sombra do Prof. Rodolfo. Depois, se converteu em esquerdista. Como tal, terminou por permitir que seu padrinho fosse brutalmente vilipendiado no CUn sob sua presidência. Vê-se agora finalmente punido pela imperdoável ingratidão. Sua pena é ter que circular por aí de braço dado com um membro do que sua turma chama de extrema-direita.
Irineu tentará sair dessa assobiando, exatamente como faz quando o cobrador da Celesc bate à sua porta. Ele é muito bom em não pagar contas.
Mas e seus apoiadores à esquerda? Nildo, Elaine Tavares, Jorge Balster, Marcos Pessoa & Cia., essa conta é de vocês também.
Vão ficar na moita? Onde estão os discursos inflamados contra a tal extrema-direita agora que ela posa abraçada aos senhores nas fotos de campanha? Onde estão todos os valores e princípios inegociáveis que vocês diziam professar em episódios como o da mudança do nome do campus? Em que astro se esconde aquela ira santa que vocês julgam encarnar?
Sou um zé ninguém. Mas podem crer que esse zé ninguém passará o resto dos seus anos na UFSC lembrando-lhes do quão hipócritas vocês terão sido caso aceitem mesmo essa lua de mel com o Partido Novo.
P.S.: Eu já havia concluído este texto quando mais uma bomba caiu sobre a chapa oficial. Senão, vejamos.
Passou a circular na internet uma Resolução de julho de 2024 assinada por Fabrício Neves, diretor do CCS e principal fiador da aliança com que se tenta reeleger Irineu. O documento determina que a consulta à comunidade acadêmica no Centro aconteça no sistema 70/30. Mas a coisa não fica por aí. Um dos artigos reza que a realização da consulta não é obrigatória, cabendo ao presidente do Conselho da Unidade decidir se ela acontecerá ou não. Mais adiante, a mesma Resolução – pasmem – afirma (1) que a instância final de escolha do diretor de Centro é o Conselho da Unidade e (2) que este último pode desrespeitar o resultado da consulta e eleger um docente diferente daquele que teve a maioria dos votos da comunidade do CCS.
É impressão minha ou se estava preparando o terreno para legitimar um golpe mais ambicioso, que envolvesse o CUn e a eleição para reitor? (Cabe esclarecer que àquela altura a chapa vencedora no CCS fazia decidida oposição a Irineu e pretendia impedir sua recondução ao cargo. Pelo jeito, a ideia era conseguir isso nem que fosse fazendo o CUn dar uma banana para a consulta informal).
É importante dizer que o documento foi exarado quando já estava claro para todo mundo que Fabrício e Moretti eram candidatíssimos à direção da Unidade (eles foram eleitos dois meses e meio depois disso). Em outras palavras, a Resolução certamente contou com a plena aprovação do agora candidato a vice na chapa de Irineu.
Se Sintufsc e uma certa esquerda docente continuarem abonando um candidato que contraria tudo o que essa gente prega a respeito da democracia na UFSC, restará repetir a famosa frase de um personagem de Dostoiévski: Deus não existe, e tudo é permitido.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 21h do dia 29 de março de 2026 e publicado às 9h08 do dia 30 de março de 2026
