Por Tiago Montagna, Adriana D’Agostini e Carmen Maria Olivera Müller
As aulas começaram a pouco mais de quatro semanas e já é comum ouvir colegas docentes relatarem a sensação de estarmos no final do semestre. Esse sentimento revela um desequilíbrio entre as precárias condições de trabalho e as exigências crescentes do trabalho docente. Neste cenário, soma-se o fato de estarmos em um ano com três processos eleitorais decisivos para o futuro da UFSC e das universidades públicas: eleições para reitoria da UFSC, para a direção da Apufsc e eleições gerais brasileiras.
O período eleitoral interno nos chama para uma avaliação política sobre o papel da Universidade Pública e sobre as demandas de nossa categoria, para podermos atuar coletivamente. É a partir desse movimento de conversas entre docentes e sistematização das demandas que atravessam nossa categoria, que nasce esse texto. Por meio dele, busca-se pautar o debate entre docentes, propondo, neste primeiro momento, algumas questões centrais: quais são as pautas prioritárias da categoria? De que forma vêm sendo encaminhadas ou mesmo silenciadas?
Começaremos pelas questões orçamentárias. Entre 2014 e 2025, o orçamento das universidades federais caiu cerca de 50% em termos reais, passando de algo próximo a R$ 17,1 bilhões para cerca de R$ 7,9 bilhões. Essa redução foi acompanhada pela expansão do sistema federal de ensino, que, embora amplie a oferta de vagas, compromete as condições dignas para o desempenho das atividades de ensino, pesquisa e extensão. Hoje, o sistema IFES conta com cerca de 1000 Campi e o número de estudantes matriculados na rede passou de aproximadamente 600 mil (em 2007) para mais de 1,1 milhão (2025).
Esse estrangulamento orçamentário se mostra perverso no cotidiano das IFES, que se veem na necessidade de negociarem contas básicas, como água e energia elétrica para não terem serviços cortados; laboratórios e equipamentos obsoletos ou sem manutenção, salas de aula com instalações precárias, entre outros. Esta realidade tem um impacto devastador sobre as políticas de permanência estudantil, compromete as atividades de ensino, pesquisa e extensão e cria condições de trabalho inadequadas, que levam ao adoecimento da categoria. Além disso, o déficit orçamentário coloca as IFES em uma situação de dependência de outras fontes de recursos, tais como as emendas parlamentares e o financiamento privado, o que pode levar a um comprometimento do papel da universidade pública como elemento de democratização da sociedade brasileira. No cenário federal, é importante ressaltar que o orçamento público foi sequestrado pelo Congresso Nacional, na forma de “emendas pix”, “orçamento secreto” e modalidades diversas de emendas parlamentares que solapam o interesse público.
A ampliação do acesso ao ensino superior gerou demandas no que se refere à assistência estudantil, sem que fossem acompanhadas pelas políticas de permanência. Essa ambiguidade acaba gerando uma inclusão parcial, uma vez que os estudantes ingressam, mas enfrentam enormes desafios para se manter dentro da universidade. No âmbito da UFSC, a insuficiência de bolsas, a sobrecarga, ou mesmo a inoperância, dos restaurantes universitários e a escassez de vagas na moradia estudantil configuram aspectos centrais do cotidiano discente, decisivos para a permanência, e que acabam por reforçar desigualdades que a própria universidade deveria combater.
No que se refere às condições materiais de estudo e trabalho, a deterioração da infraestrutura da UFSC é um processo evidente e que se agravou nos últimos 10 anos. A dificuldade de garantir condições básicas, como o funcionamento do ar condicionado nas salas de aula e banheiros adequados, tornou-se cada vez mais comum. Esse cenário não apenas compromete as condições de trabalho e de estudo de todas as categorias que fazem parte da UFSC, mas, não raro, também coloca as vidas de estudantes, TAEs e docentes em risco. Basta lembrar dos episódios de lâmpadas e forros caindo nas cabeças das pessoas ou da insegurança que é caminhar à noite em alguns locais da UFSC. Soma-se a isso a falta de espaços de convivência e de uma organização do tempo-espaço universitário que permita o estabelecimento de relações sociais, culturais e pedagógicas e a ampliação dos horizontes dos sujeitos que pouco convivem no âmbito da UFSC.
A política de combate à evasão, em discussão na UFSC, trata o problema de forma simplificada, atribuindo um caráter pedagógico e individual. Embora em grande medida, as articulações entre docentes, coordenações e estudantes tenham um papel fundamental, elas não são suficientes para o enfrentamento de um problema tão complexo. A política não dá a devida consideração às dimensões sociais, psicológicas e à relevância das políticas de permanência, que são determinantes para a evasão.
A sobrecarga do trabalho docente, que mencionamos no início do texto, está intimamente vinculada à burocratização do trabalho e a lógica produtivista que se intensifica nas universidades, provoca desvio de funções entre TAEs e docentes, trabalho duplicado, e reduz o tempo para a atividade fim. Consequentemente, também vivemos um esvaziamento das instâncias colegiadas, extremamente engessadas e burocratizadas, ao invés de serem instâncias de debate e decisão técnico-política e pedagógica. Queremos pensar uma universidade eficiente, com procedimentos simples, públicos e transparentes. Essa lógica gerencialista de gestão da universidade, calcada na culpabilidade e na desconfiança de tudo e de todos, também intensifica a terceirização de responsabilidades internas para entidades externas, o que compromete a cara e já fragilizada autonomia universitária.
Assim, discutir e encaminhar as pautas descritas significa pensar o projeto de universidade. Trata-se de questionar: que universidade queremos construir? Essa construção exige a elaboração coletiva de pautas, diagnósticos e propostas que criem condições para que a universidade seja pública, gratuita, de qualidade, socialmente referenciada e capaz de responder criativamente aos desafios da sociedade.
Dado o cenário descrito, cumpre indagar: qual tem sido o papel do sindicato dos professores e professoras da UFSC? Nos últimos dois anos, quais foram as reuniões do esvaziado Conselho de Representantes que discutiram alguns dos temas mencionados? Ademais, quantas vezes tivemos algum debate em Assembleia Geral sobre a conjuntura relatada? É bem verdade que houve movimentos importantes da Apufsc no sentido de cobrar a gestão sobre os inúmeros problemas e abusos de nosso plano de saúde. Mas precisamos ir muito além disso, como fica nítido pelas condições aqui narradas.
Este texto é um convite, um ponto de partida para aprofundarmos nossas análises, pautarmos coletivamente nossas demandas e construirmos caminhos possíveis para a universidade que queremos. Por isso, lhe convidamos a participar da reunião da Mobilização Docente, no próximo dia 10 de abril, em horário e local que ainda serão informados, para discutirmos sobre a burocratização do trabalho docente.
Venha conosco!
*Tiago Montagna é professor do Departamento de Fitotecnia (CCA/UFSC), Adriana D’Agostini é professora do Departamento de Estudos Especializados em Educação (CED/UFSC) e Carmen Maria Olivera Müller é professora Departamento de Ciência e Tecnologia de Alimentos (CCA/UFSC)
Artigo enviado às 17h43 do dia 1º de abril de 2026 e publicado às 18h26 do mesmo dia
