Ciência pública brasileira teve papel central na pesquisa sobre covid-19, mostra estudo

Análise da produção científica indica que universidades públicas lideraram a pesquisa nacional sobre a pandemia e ampliaram sua inserção em redes internacionais

A pandemia de covid-19 desencadeou uma corrida global por conhecimento científico. No Brasil, essa mobilização teve como eixo principal as universidades públicas, que ampliaram sua participação na produção internacional sobre o tema e publicaram, proporcionalmente, mais do que a média do restante do mundo. É o que mostra o artigo Brazilian Public Universities’ Contributions to Global Covid-19 Research: Publications, International Collaboration, and Impact (Contribuições das universidades públicas brasileiras para a pesquisa global sobre covid-19: publicações, colaboração internacional e impacto, em tradução livre), publicado em 2025 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências (ABC), edição 97. O estudo analisou dados sobre a produção científica mundial de artigos indexados na base Scopus entre 2019 e 2023 e concluiu que a comunidade científica brasileira respondeu com rapidez ao desafio da pandemia, com crescimento da produção, aumento das parcerias internacionais e impacto acima da média global nas publicações sobre covid-19.

Assinam o trabalho os pesquisadores da Linha de Pesquisa 6 (LP6) — Atuação da ciência e das universidades públicas em defesa da vida durante a pandemia da covid-19, do Centro SoU_Ciência, Prof.ª Karinne Marieta Carvalho, Prof.ª Vanessa Sígolo, Prof. Pedro Arantes, Prof.ª Soraya Smaili e Prof.ª Débora Foguel, além dos integrantes da Linha de Pesquisa 2 (LP2) — Perfil e trajetória estudantil na educação superior, Prof. Roniberto do Amaral e Prof. Leandro de Faria. Os autores mostram que, embora o esforço científico tenha sido mundial, o Brasil se destacou pela quantidade e rapidez de suas respostas. Em 2022, terceiro ano da pandemia, por exemplo, 5,9% de toda a produção científica brasileira indexada na Scopus — base internacional que reúne e indexa publicações científicas — tratava de covid-19, ante 4,8% das publicações do restante do mundo.

O salto foi expressivo. Em 2019, antes da explosão da crise sanitária, havia 22 publicações de autores brasileiros sobre coronavírus e temas correlatos. Em 2021, esse número já havia ultrapassado 4 mil artigos, acompanhando a escalada internacional da pesquisa sobre o tema. No mundo, a produção científica sobre covid-19 aumentou 152 vezes, passando de 1.029 trabalhos em 2019 para 156.736 em 2021, segundo o artigo. No caso brasileiro, a pandemia fez a covid-19 ultrapassar, em peso relativo, áreas tradicionalmente fortes da ciência, como câncer, mudanças climáticas e inteligência artificial.

Um dos achados centrais do estudo é que a resposta nacional se concentrou nas universidades públicas. Entre 2019 e 2023, pesquisadores brasileiros publicaram 419.364 artigos em todas as áreas do conhecimento, dos quais 279.104 — ou 66,5% — tinham participação das 20 universidades públicas mais produtivas do país, do total de 69 federais e 77 estaduais. No caso específico da covid-19, essas 20 instituições responderam por 11.479 dos 17.066 trabalhos brasileiros indexados, cerca de 67% do total. A Universidade de São Paulo (USP) liderou em volume absoluto, com 3.668 publicações, seguida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 1.212, e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 1.098.

A presença da Unifesp em segundo lugar no ranking específico da covid-19 chama atenção porque, no conjunto de todas as áreas, a instituição aparece em sétimo lugar. Para os autores, isso reflete a tradição da universidade nas ciências da saúde, área que concentrou quase 65% da produção brasileira sobre a pandemia. As ciências da vida responderam por cerca de 20% dos trabalhos, percentual semelhante ao das ciências sociais, enquanto as ciências físicas participaram com aproximadamente 12%. Esse dado ajuda a desmontar a ideia de que a resposta científica à covid-19 se restringiu aos laboratórios biomédicos: houve também forte mobilização de pesquisadores interessados em compreender os impactos sociais, econômicos, psicológicos e tecnológicos da crise sanitária, um campo de estudos que permanece relevante até os dias atuais.

O artigo mostra ainda que a ciência brasileira sobre covid-19 foi mais internacionalizada do que sua produção média. Entre 2019 e 2023, 34,9% das publicações brasileiras em todas as áreas envolveram coautoria com pesquisadores estrangeiros. Nos artigos sobre covid-19, essa proporção subiu para 37,4%. Ao todo, os trabalhos brasileiros sobre a pandemia tiveram colaboração com autores de 205 países, distribuídos por todos os continentes. Estados Unidos e Reino Unido mantiveram-se como os principais parceiros do Brasil, mas a Itália ganhou relevância particular: de sétima colocada entre os colaboradores em todos os temas, passou ao terceiro lugar nas pesquisas sobre covid-19.

Na leitura dos autores, a centralidade de países europeus pode estar ligada ao fato de terem enfrentado os primeiros grandes surtos da doença, o que gerou acesso precoce a dados e estimulou novas redes de pesquisa. Índia e África do Sul também ganharam espaço nas colaborações relacionadas à pandemia, em contraste com a China, parceira tradicional do Brasil em outras agendas científicas, mas menos presente nas publicações sobre covid-19 do que em áreas como biotecnologia, inteligência artificial e energia limpa.

As universidades brasileiras não apenas publicaram mais como também produziram pesquisas de alto impacto. Para medir esse desempenho, os pesquisadores utilizaram um parâmetro denominado field-weighted citation impact (FWCI), que indica se um artigo recebeu mais ou menos citações do que o esperado para pesquisas semelhantes. Nas publicações em geral, as 20 principais universidades públicas brasileiras ficaram no indicador 1, ou seja, na média mundial esperada. Já nos trabalhos sobre covid-19, o impacto global foi superior ao previsto. Instituições como Unifesp, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal do Paraná (UFPR) se destacaram nesse indicador.

O estudo também sublinha um ponto estratégico: a resposta rápida à pandemia só foi possível porque já havia, antes de 2020, uma base acumulada de pesquisa básica sobre coronavírus, plataformas vacinais e biologia molecular. Em vez de começar do zero, a comunidade científica pôde acelerar investigações sobre o SARS-CoV-2, apoiada em conhecimentos e tecnologias previamente desenvolvidas. Para os autores, esse dado reforça a importância de sustentar investimentos contínuos em ciência, inclusive em temas que ainda não parecem urgentes.

Essa conclusão ganha mais peso quando vista à luz do contexto brasileiro. O artigo lembra que a produção científica nacional resistiu, apesar de restrições orçamentárias e de um ambiente político hostil à ciência durante a pandemia. Segundo os autores, a robustez da resposta brasileira decorre, em parte, dos investimentos feitos em ciência e tecnologia entre 2007 e 2014, tanto pelo governo federal quanto pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa. Mesmo assim, o texto sugere que o país poderia ter avançado ainda mais se tivesse oferecido maior apoio institucional e financeiro aos grupos de pesquisa no período crítico.

No conjunto, a análise traça um retrato consistente do papel das universidades públicas brasileiras na mais grave emergência sanitária do século. Essas instituições não apenas sustentaram a produção nacional de conhecimento sobre covid-19, como também ajudaram a inserir o país em redes internacionais de pesquisa e a ampliar a visibilidade de seus resultados.

Em uma crise que exigiu rapidez, coordenação e capacidade instalada, a ciência pública brasileira mostrou que tinha capacidade para responder. Outras ações podem ser consultadas no painel Universidades em Defesa da Vida, desenvolvido pelo SoU_Ciência em parceria com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). A plataforma reúne e organiza mais de 1.000 ações das universidades federais no enfrentamento da covid-19, em áreas como atenção à saúde, pesquisa, extensão e solidariedade, comunicação e apoio a populações vulneráveis, além de apresentar 10 estudos temáticos com videoanimações e diversas análises de dados sobre a produção acadêmica relacionada à pandemia.

Fonte: Sou Ciência