*Por Fábio Lopes
Repare nos nomes das chapas 41 e 63: Mudar para transformar e Conhecer é transformar. Eles são bem parecidos. A ideia de transformação, de mudança, está presente em ambos.
Isso não é casual. Uma afinidade fundamental aproxima as duas candidaturas: Amir & Felipa, assim como João & Luana, apontam para a necessidade de renovação na Reitoria. Cada uma à sua maneira indica a direção de uma universidade capaz de se modificar para poder transformar a vida de quem nela trabalha ou estuda. Para poder transformar as coisas ao seu redor.
Essa vontade de mudança – esse apelo à transformação – foi amplamente vitorioso no primeiro turno. Algo como 70% dos votos expressou a convicção de que a UFSC não pode continuar do jeito que está.
A rodada eleitoral de 1º de abril mostrou muito claramente que a instituição está cansada não apenas do modelo atual de gestão mas sobretudo do efeito mais danoso desse mesmo modelo: a perda de esperança, a sensação de solidão e desamparo, a descida passiva rumo à decadência.
Nos últimos anos, a UFSC andava triste, soturna. As pessoas pareciam conformadas com a ideia de que as coisas são do jeito que são, e pronto. Mas a campanha para reitor mudou isso.
A chapa 63 cumpriu uma jornada respeitável. O seu crescimento nos últimos dias antes da votação foi vertiginoso. Se lhe fosse dada mais uma semana, provavelmente teria ultrapassado a chapa da situação.
Amir & Felipa foram ainda mais longe, proporcionando uma surpresa exuberante à universidade. São joviais, inteligentes, sensíveis. Emociona ver a capacidade que têm de escutar as pessoas, de dar respostas criativas e individualizadas para quem se dirige a eles.
A dupla abriu uma enorme janela no que antes era só parede fria, branca, sem graça. Arejaram uma instituição que até bem pouco tempo parecia ter esquecido o significado da palavra futuro. Isso não é pouco. É muito. Muito mesmo.
Não duvidem de que um número significativo de eleitores que escolheram a chapa da situação no primeiro turno troque de lado no segundo. É que algo muito precioso aconteceu: quem votou por medo ou por inércia no candidato oficial agora viu que existe um caminho viável para fora dessa bolha de tristeza e desalento. Aquilo que se apresentava como um rolo compressor imbatível revelou enfim suas fraquezas, suas enormes vulnerabilidades. Os velhos comandantes apertaram velhos botões, e estes simplesmente não funcionaram. A máquina de moer sonhos engripou.
Não por acaso, o lado de lá está em parafuso. O primeiro vídeo deles para o segundo turno traduz bem o quanto estão desnorteados. Luzes escuras, camisas escuras. É a estética Nikolas Ferreira em ação. E o discurso, na verdade, também é parecido com o do deputado mineiro: pânico moral, divisionismo, agressividade, niilismo.
A aposta deles é na polarização esquerda vs. direita. Com a arrogância típica de quem não está entendendo nada, querem se apresentar como os representantes da esquerda. Pior, muito pior: como os antigos Comissários do Povo, querem ditar quem é de esquerda e quem é de direita.
Imaginemos que você passou anos lutando por causas caras aos progressistas. Há milhares de pessoas com esse perfil apoiando a chapa 41. Isso, no entanto, não significa nada para eles. Se você votou e votará 41, é de direita. Por quê? Porque quem decide é o Partido.
Universidade é pluralidade, diversidade, mosaico de ideias, crenças, religiões, teorias, disciplinas, cursos, percursos. O que eles não compreenderam até agora – porque estão presos na supracitada bolha de tristeza e desalento – é que as pessoas na UFSC querem resgatar o sentido da palavra universidade, que ficou perdido ultimamente. Ou melhor: resgatar não é bem o termo, porque não se trata de voltar ao passado mas de inventar um novo significado para a universidade. Uma universidade à altura do universo vibrante e cheio de desafios que nos cerca.
É até meio engraçado – mas meio trágico também – que a chapa oficial se chame UFSC Unida. Esse nome tenta esconder o que todo mundo enxerga: que ela nasceu de uma ruptura, da segregação sistemática de um grupo que compunha a Reitoria. Ela nasceu do oposto da união. Como se não bastasse, o que a chapa oficial prega agora é também a desunião: de um lado, os autoproclamados esquerdistas; de outro, a “direita”, que eles gostariam mesmo de chamar de escória.
Irineu é de esquerda, Amir é de direita? Não nos façam rir. Mais divertida ainda é a piada de que Felipa, com sua incrível trajetória de mulher comprometida com o SUS e a saúde pública, é de direita, ao passo que o vice de Irineu – que até ontem era visto com protagonistas do Partido Novo – é de esquerda.
É preciso estar no mundo da Lua para pensar a sério que a falta completa de projeto e o autoritarismo da atual Reitoria – uma visão de mundo que tem feito a UFSC parar no tempo, quando não anda para trás – possam representar a esquerda universitária. A esquerda universitária digna desse nome não merece ter sua reputação associada a essa maluquice.
Irineu & Cia que fiquem aí no seu mundinho de cores sombrias, como as do vídeo do reitor. Nós temos mais o que fazer: verdejar. Mudar para transformar.
*Fábio Lopes é professor do CCE/UFSC
Artigo recebido às 15h21 do dia 8 de abril de 2026 e publicado às 8h04 do dia 9 de abril de 2026
