A esquerda de ocasião e o real compromisso com a UFSC

*Por Julian Borba

O resultado do primeiro turno das eleições da UFSC revelou que a maioria da comunidade acadêmica desaprova a gestão Irineu à frente da Universidade. Aquele mesmo candidato que outrora se apresentava como um gestor competente, capaz de conduzir a instituição mesmo em ambientes adversos, passou quatro anos atribuindo seu fracasso ao minguado orçamento disponível. Nas horas vagas, fez clientelismo.

Para minha surpresa, a estratégia do reitor candidato no segundo turno tem sido transformar o pleito em um conflito entre esquerda e direita. Isso mesmo: aquele que nunca teve posição clara sobre coisa alguma agora se apresenta em vídeo, ao melhor estilo pretinho básico de Nikolas Ferreira, dizendo que “temos que impedir a direita de ganhar”. Outros materiais da chapa exibem frases como “contra a extrema direita”, “fora golpistas” e até mesmo “Palestina livre”.

Duas coisas devem ser ditas sobre isso.

Irineu e sua gestão nunca foram de esquerda, caso consideremos a busca pela igualdade como critério definidor desse campo ideológico. Sua gestão foi, quando muito, um arremedo clientelista, ao transformar determinados segmentos da comunidade universitária em base de apoio por meio da concessão de “benesses”. Clientelismo é justamente a negação da igualdade.

Em segundo lugar, não fosse isso suficiente para invalidar sua estratégia de conversão do “bom gestor” em “bastião da esquerda”, fomos surpreendidos com a informação de que o candidato a vice, hoje um engajado defensor de causas identitárias, que brada “ditadura nunca mais” em reuniões do CUN, até recentemente frequentava convescotes da extrema direita local.

Para além das contradições e incoerências nas trajetórias e posicionamentos dos candidatos, a tentativa de transformar a eleição em um plebiscito entre esquerda e direita tem um objetivo muito claro: deslocar o debate sobre a avaliação de sua gestão. Ao enquadrar o pleito nesses termos, busca-se ocultar o fato de que, após quatro anos de uma gestão desastrosa, a Universidade será entregue ao seu sucessor endividada, desmoralizada, com estrutura física em frangalhos, cursos esvaziados, servidores desmotivados e discentes desesperançosos quanto ao futuro.

Ah, mas o slogan de campanha é “UFSC unida”. Vamos dar as mãos e teremos um futuro dos sonhos: uma Universidade plural, diversa — mas sem a “direita”. Essa é a união defendida pelo reitor e seu vice ao proferirem discursos de intolerância política em seus materiais de campanha.

Escrevo aqui como alguém que participou de boa parte do movimento que culminou na apresentação da Chapa “Mudar para transformar” (Amir e Felipa). Desde o início, reconhecemos o caráter plural e pluralista de nosso movimento. Em texto coletivo publicado neste Boletim em 18/11/2025, afirmamosque nosso projeto se organiza como uma frente ampla constituída “por diferentes trajetórias, experiências e visões dentro da comunidade universitária. Essa frente acolhe todas e todos que defendem a UFSC como instituição pública, gratuita, inclusiva e comprometida com a qualidade acadêmica e com sua responsabilidade social. Nesse campo de unidade, não há espaço para posições que buscam deslegitimar a universidade pública ou enfraquecer suas práticas científicas e educativas” (grifos meus).

Dessa forma, refuto qualquer tentativa de associar nosso movimento com ideias e práticas da extrema direita. Os signatários do referido documento carregam, em suas trajetórias acadêmicas e administrativas, a marca de um profundo compromisso com a Universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente comprometida.

Isso é muito diferente das birutas ideológicas que utilizam seu oportunismo carreirista para vender um compromisso que nunca foi seu. Sua incoerência política é a maior prova disso. É mais do que hora de desmascarar essas pessoas e colocá-las no ostracismo de onde nunca deveriam ter saído, para o bem da UFSC.

*Julian Borba é professor do departamento de Sociologia e Ciência Política (CFH/UFSC)

Artigo recebido às 16h24 do dia 10 de abril de 2026 e publicado às 16h52 do mesmo dia