A farsa das eleições na UFSC (parte III)

*Por Helton Ricardo Ouriques

Escrevi nesse espaço dois artigos tratando especificamente do processo eleitoral na UFSC, e não vou repetir todos os argumentos desses textos [https://www.apufsc.org.br/2025/11/24/eleicoes-na-ufsc-o-engodo-da-consulta-informal/ e https://www.apufsc.org.br/2026/02/12/a-farsa-das-eleicoes-na-ufsc-e-a-tal-consulta-informal-das-entidades/), publicados em novembro de 2025 e fevereiro deste ano, respectivamente. Começo aqui afirmando que, nas eleições para a reitoria, predominaram e geralmente venceram aqueles que utilizaram as estratégias mais deploráveis, que nós comumente criticamos na vida política brasileira: compra de votos, barganha por cargos, promessas de vantagens futuras etc.

Como apontei nos textos mencionados, existem problemas crônicos nesse processo eleitoral fajuto, que até hoje é vendido como “processo democrático”. Agora, nem mesmo a “aparência” de democracia existiu, porque de forma acintosa os Peaky Blinders, mancomunados com o incumbente, sepultaram o direito ao voto de milhares de pessoas, ao desconsiderarem o voto eletrônico, que já é utilizado na UFSC de forma corriqueira. Tudo para que os estudantes não votassem e os técnicos e professores afastados também não tivessem o direito de votar.

Um dos resultados disso foi a exclusão de centenas de estudantes de Blumenau, que simplesmente não estavam na lista de eleitores, feita às pressas. Portanto, parabéns aos envolvidos, vocês conseguiram!

Outro absurdo desse processo eleitoral fajuto é o fato de essas entidades (com exceção da Apufsc, que apontou desde sempre os problemas na atual consulta informal), em conluio com o incumbente e com esse inepto e corrompido desconselho universitário, tenham chancelado um calendário eleitoral que proporcionou apenas três semanas e meia do semestre letivo para a campanha, em um evidente esforço de prejudicar as duas candidaturas de oposição, posto que o incumbente e sua trupe já vinham fazendo campanha antes mesmo de deflagrado esse ilegal, imoral e vergonhoso processo eleitoral.

Particularmente, eu fiquei com pena das duas candidaturas de oposição, por terem se submetido a um calendário eleitoral desonesto, manipulado e ridículo.

A conclusão desse processo bagunçado e direcionado, mas com resultado inesperado, é a seguinte: somente o voto universal funcionaria como paliativo, momentâneo, para essa farsa eleitoral, porque é impossível comprar todos ao mesmo tempo. Os Peaky Blinders, que se consideram os guardiões da democracia, sequer aventaram essa hipótese, porque perderiam a substância que os move: a guerrilha perpétua e a mobilização para fins escusos.

Quanto ao desconselho universitário, é uma vergonha permanente: covarde, cúmplice e corrompido. Se fosse fechado, não faria nenhuma diferença no dia a dia da instituição, porque hoje não serve para absolutamente nada, sequer para assumir e zelar pelo cumprimento das normas de uma consulta eleitoral.

Mas a eleição deixou um recado claro: a maioria da comunidade universitária rejeitou a atual gestão, basta ver a gritante diferença de votos entre o incumbente e seu revolucionário vice e as duas chapas de oposição: 2.939 votos totais, contra 5.809 e 5.317 das duas chapas oposicionistas, respectivamente.

Ou seja, do total de 14.065 votos válidos, a chapa da situação ficou com 20,90% dos votos, uma derrota parcial fragorosa, posto que as duas chapas de oposição receberam 41,30% e 37,80% dos votos totais, respectivamente. A imensa maioria dos docentes e estudantes também votou na oposição, já que a chapa 41 recebeu 47,46% dos votos docentes e 43,31% dos votos discentes e a chapa 63 recebeu 30,50% dos votos docentes e 42,89% dos votos discentes. A chapa da situação, por sua vez, recebeu 22,04% dos votos docentes e 13,79% dos votos discentes. Quanto aos técnicos-administrativos, estes também mostraram seu descontentamento com a atual gestão, já que as chapas de oposição, somadas, obtiveram 40,14% dos votos.

Em resumo, apesar de todas as manobras realizadas pelo incumbente e sua intrépida trupe, com um calendário eleitoral vergonhoso e todos os demais problemas que já são de conhecimento público, eles conseguiram a proeza de receber os votos que receberam, muito aquém do imaginado por aqueles que consideravam que teríamos uma eleição resolvida em primeiro turno.

Vale uma analogia com o futebol: algumas vezes, mesmo fazendo as regras do campeonato, comprando o trio de arbitragem e subornando a federação, sua equipe não consegue vencer o jogo. E perderam no primeiro turno do campeonato! Mas não esqueçamos do famoso “tapetão”, onde tudo pode acontecer.

Mas o ponto fundamental permanece o mesmo: aqueles que se dizem defensores da democracia deveriam refletir sobre esses números, com espírito desarmado, e perceber que esse modelo eleitoral informal está falido, e há muito tempo! Se o pressuposto de um processo eleitoral na universidade fosse mesmo a democracia, a única solução seria o voto universal, como já apontei nos artigos anteriores.

É necessário, aqui, um comentário sobre a polêmica esquerda x direita (ou extrema-direita), que uma turminha fundamentalista ficou postando em redes sociais. Todos sabemos que o atual incumbente nunca foi e não é de esquerda; ele sempre foi um placebo, na verdade. Quanto ao vice, alçado ao papel de progressista pelos fundamentalistas da chapa oficial, até ontem gozava da companhia do senhor Bruno Souza e outras figuras que são tachadas “de direita”, além de ser membro da maçonaria, essa entidade que é sempre vilipendiada pelos que se dizem únicos portadores das virtudes democráticas, socialistas etc. e tal.

É preciso muito óleo de peroba para ficar defendendo e afirmando por aí que o “novo vice maçom” seja representante exclusivo dos ideais de “esquerda”, como se os apoiadores da outra candidatura fossem todos de “direita”. Se o critério for mesmo esse, vocês estão mal na foto, vão ter que ser muito criativos nas suas incompletas e falsas informações.

Quanto aos meus colegas e amigos do PT e demais progressistas, se o critério de vocês para votar no segundo turno for o perfil progressista da chapa ou o medo infundado de uma UFSC à direita, basta assinalar que a candidata a vice da chapa oposicionista, professora Felipa, até recentemente era filiada ao PSB, partido da base do atual presidente da república, e tem histórico real na militância progressista. E, além disso, expressa a representatividade e luta pela igualdade de gênero, acertadamente objeto da luta política das mulheres na sociedade em geral e na UFSC, em particular. A menos que queiram continuar validando a misoginia, que muitas pessoas denunciaram recentemente, e acreditar no conto da carochinha de que uma dupla composta por um sujeito sem ideias e outro com passado recente próximo de pessoas do lado oposto ao de vocês sejam representantes dos ideais progressistas, de esquerda, do socialismo… Como vocês mesmos gostam de dizer, “a prática é o critério da verdade”, e a prática dos últimos quatro anos não foi, digamos assim, muito bonita.

Há ainda um dado fundamental que essa eleição revelou: o declínio espiritual e moral da UFSC é tão grande que muitos ficam atentos apenas a chavões e palavras de ordem. O debate sobre as questões fundamentais da universidade (o alardeado tripé ensino – pesquisa – extensão) sequer foi aprofundado ou realizado adequadamente, porque o calendário exíguo, propositadamente, não deu oportunidades para as duas chapas de oposição debaterem com mais vagar esses temas; e porque a turma do incumbente e seus Peaky Blinders nada têm a dizer ou nada fizeram a respeito disso nos últimos anos. Só lhes resta repetir o discurso do medo, estratégia corriqueira da mediocridade política.

Também é bom mencionar que a falta de iluminação noturna; os prédios caindo aos pedaços; o ar-condicionado na sala de aula que não funciona; o mato que cresce sem parar; a falta de sabonete líquido e papel higiênico; os insetos no RU; a biblioteca universitária sempre inundada quando chove e tantas outras mazelas não têm preferência ideológica ou partidária. O papel higiênico e a lâmpada não estão preocupados com sua filiação partidária ou visão de mundo.

Tem gente que, ao não ter oferecido soluções (mesmo que parciais) para esses e tantos problemas e sequer ter um programa para resolver isso no futuro, acaba se atendo ao fácil e falso discurso do “nós contra eles”. É isso que chamam de união? Essa papagaiada toda não consegue esconder algo elementar: é possível colocar o terno em um bode, mas ele continuará sendo um bode. E o bode na sala fede, simples assim.

*Helton Ricardo Ouriques é professor do departamento de Economia e Relações Internacionais (CSE/UFSC)

Artigo recebido às 11h10 do dia 13 de abril de 2026 e publicado às 12h21 do mesmo dia