Camilo Santana, o ministro mentiroso e seus colegas na UFSC

*Por Nildo Ouriques

Camilo Santana, o ministro da educação de Lula, contrariou os petistas do Oiapoque ao Chuí. Não conheço um só petista com atuação na educação – novatos ou das antigas – que aprove sua gestão de caráter claramente privatista. Ele brotou no canteiro da nova geração de lulistas turbinado com o adubo das vitórias eleitorais sucessivas, o conforto da política burguesa e o pragmatismo político que nos colocou na enrascada atual.

No final do ano passado ele visitou a UFSC e não vacilou em mentir sobre o financiamento de nossa Universidade. Alegou, na maior cara dura, que os recursos chegaram, mas aqui faltava transparência na atual administração. Transparência? Gostei da ideia e vou exibir alguns números para revelar a mentira do ministro privatista.

No primeiro ano do atual governo, o orçamento para as universidades foi inferior àquele deixado por Bolsonaro mesmo com a PEC da transição que praticou um keynesianismo com data de vencimento anunciada. No final de 2023, para manter as aparências, o governo Lula liberou alguns poucos milhões capazes de superar a cifra deixada pelo protofascista agora na prisão. Na verdade, uma migalha destinada a manter a suposta superioridade simbólica. Entretanto, como a vida ensina, a valorização simbólica não enche barriga de ninguém.

O deserto orçamentário comanda a vida universitária há mais de uma década. Eu poderia elencar aqui as sucessivas demandas de estudantes, técnicos e professores não atendidas em dezenas de universidades espalhadas pelo Brasil. Todo santo dia, uma nova “crise” emerge em algum estado da república e toda manhã a infraestrutura envelhece sem que alguma medida de Brasília – afinal, não esqueçam que a universidade ainda é pública e, portanto, responsabilidade do estado – possa socorrer ainda que minimamente o funcionamento aceitável das instituições federais de ensino.

Os críticos de Irineu praticam uma sorte de terraplanismo: negam a austeridade orçamentária e sugerem que a crise da infraestrutura nas universidades de todo o país, não é produto da primeira. Ademais, alegam que a despeito da grana curta, o que falta mesmo é competência e compromisso da equipe atual na gestão universitária. As acusações se reproduzem sem o menor apego aos números orientado apenas por preferências sem nenhum contato com a verdade, mas repletos de vínculos – grandes e pequenos – arraigados nos interesses.

Os números abaixo exibem a “bonança” orçamentária da UFSC.

O leitor atento perceberá facilmente os números dos últimos quatro anos: navegamos na mais absoluta austeridade, uma verdadeira guerra contra as universidades! Caso estivéssemos sob o governo do protofascista Bolsonaro, certamente teríamos artigos no Boletim acusando o problema e talvez fossemos convidados para um protesto qualquer, um abraço na UFSC, por exemplo. Entretanto, aqueles que nas filas do liberalismo de esquerda calam sobre esse problema na recente disputa interna, não fazem menos que reduzir o espaço no qual bailam e logo perceberão que o salão não é mais amplo do que a tampa de uma garrafa!

A armadilha das emendas parlamentares

Há outro indicador necessário para exibir o isolamento social da universidade pública sob um sistema político em frangalhos. A chamada captura do orçamento pelo covil de ladrões – que pomposamente atende pelo nome de congresso nacional – é de fato uma expressão da degradação da república burguesa. O recurso às emendas parlamentares deveria ser objeto de crítica de todos os republicanos com espírito crítico embora em não poucos casos é apresentado como virtude com direito a fotos e comemoração. Na prática, os deputados não fazem menos que montar comitês internos para a autorreprodução parlamentar às custas do prestígio cada vez mais reduzido das universidades.

Em 2014 as emendas parlamentares representavam R$ 306,7 milhões e, em 2025 alcançaram nada menos que R$ 1,893 bilhão! Há, de fato, um loteamento partidário das preferências universitárias cuja consequência é a partidarização das disputas outrora orientadas por uma ideia de universidade e com certa preocupação com o destino das universidades. Aquela época não mais existe!

Ora, nesse contexto os déficits não constituem anomalia, mas terminam por justificar as emendas parlamentares como “solução” necessária.

As emendas na UFSC

O recurso das emendas não cai no colo do reitor. É grana carimbada que não passa pelo gosto do gabinete. Ademais, o comitê eleitoral do deputado ou senador localizado aqui no campus tem imenso zelo com o destino dos recursos. Não sem razão, diga-se. Na falta de farinha, meu pirão primeiro, ensina a sabedoria popular.

Aqueles que indicam o déficit orçamentário que atualmente sofremos como uma espécie de câncer, reproduzem – conscientes ou não – a ideologia segundo a qual, déficits são essencialmente ruins e os superávits radicalmente bons! A despeito da aceitação popular – um produto da manufaturação da opinião púbica – o bordão é rigorosamente falso! Até mesmo um keynesiano mediamente informado sabe que a questão sempre recai sobre o uso de um e de outro. Afinal, para quê produzir um déficit? Como e por que conquistar o superavit?

As universidades não emitem moeda. Vivem sob o regime de uma autonomia castrada e, no Brasil, ao contrário da China e dos Estados Unidos, não estão no centro da disputa pela hegemonia do sistema em escala global e menos ainda no esforço nacional para a superação da dependência científica, tecnológica e cultural de um país da periferia capitalista latino-americana.

Nessas circunstâncias, o sistema nacional padece de subfinanciamento crônico com pequenas e grandes crises cotidianas em todas as universidades brasileiras. Todas elas!! Mas nós vivemos aqui em Santa Catarina e para muitos opositores pouco importa que o déficit em 2025 na Federal da Bahia tocou os 24 milhões, na Federal do Ceará outros 22, na Federal de Uberlândia 25 e, finalmente, da Federal Fluminense alcança 18 milhões, a mesma cifra da UFSC.

Em dezembro passado, a midiática e alegre reitora da UFRGS anunciou: “Eu vou ter que fazer escolhas. E as escolhas vão ser cruéis, porque eu vou ter que escolher entre alimentar os estudantes que têm entrado pelas cotas sociais e raciais, ou eu vou alimentar os bichinhos que a gente tem na nossa estação agronômica. Quem é que vai morrer de fome?” O déficit lá era de apenas 5 milhões!

Mas nesse vale de lágrimas, há, de fato, os eleitos. Há poucos dias o presidente Lula visitou por segunda vez no mês a Universidade Federal do ABC, uma instituição sem déficit em 2025; na oportunidade, somente os recursos anunciados para a construção de uma passarela responsável para unir dois terrenos, foi anunciado pelo ministro que sucedeu a Camilo Santana, a bagatela de 16 milhões, além de recursos suculentos para outros projetos. O reitor de lá, orgulhoso, comunicou ao presidente da república que não há mais área par expandir a UFABC e, portanto, a universidade terá que adquirir mais terrenos nos municípios vizinhos. Não é uma beleza? O contraste com os simples mortais é tanto escandaloso quanto nefasto!

Na atual eleição, as pequenas paixões ordenaram a disputa como se não existisse amanhã. Nessas circunstâncias, a racionalidade é artigo inexistente ou apenas residual. Mas se no debate público já não nos acompanha sequer uma “ideia” de universidade e certos setores tampouco se importam com o futuro das universidades, sabemos que haverá amanhã.

*Nildo Ouriques é diretor da EdUFSC e professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais (CSE/UFSC)

Artigo enviado às 10h25 do dia 13 de abril de 2026 e publicado às 12h14 do mesmo dia