Segundo turno: Fake News e os camisas pretas

*Por Camilo Buss Araujo

Será que a eleição para a reitoria da UFSC é realmente uma disputa entre direita e esquerda? Ou isso é apenas uma estratégia eleitoral usada para criar uma falsa polarização, incitar o ódio e com isso radicalizar militantes?

Neste segundo turno, disputam duas chapas, Mudar para transformar, dos professores Amir e Felipa, e UFSC unida, dos professores Irineu e Moretti. Nos últimos dias, a campanha da chapa situacionista trouxe um vídeo em que o reitor candidato à reeleição aparece com uma camisa preta, em um fundo preto e afirma que a chapa encabeçada por ele representaria a esquerda contra a direita. O reitor, cujo slogan de chapa proclama por uma “UFSC unida”, diz com todas as letras: “Agora não tem mais essa de neutralidade. É eles (sic.) de um lado e a gente do outro.” 

Claro que esse vídeo, postado pela autoridade máxima da instituição, repercutiu muito. Tanto pela estética à moda Nikolas Ferreira quanto pelo conteúdo, incitando uma polarização radicalizada em torno de uma luta do bem contra o mal. A postura do magnífico reitor, nesse caso, é lamentável em muitos aspectos e tentarei de forma suscinta argumentar meu ponto de vista:

  1. O reitor/candidato sabe muito bem que a sua chapa não é de esquerda. Seu chefe de gabinete foi secretário de Planejamento da prefeitura de São José na gestão de Adeliana Dal Pont. A ex-prefeita é titular da Secretaria de Estado da Assistência Social, Mulher e Família do governo de extrema direita de Jorginho Melo (PL). Ou seja, o reitor teve nesses últimos quatro anos como seu braço direito um personagem próximo aos políticos da extrema direita de Santa Catarina, inclusive durante o curto período em que seu mandato coincidiu com o do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para teóricos da conspiração que buscam entender o mundo entre direita e esquerda, esse seria um prato cheio para explicar as razões de Bolsonaro ter nomeado o atual reitor ao invés de rasgar as regras, como costumava fazer, e nomear um interventor;
  2. O reitor e seu candidato a vice sabem também que, além de personagens próximos à extrema direita catarinense, há também entre seus apoiadores aqueles que defenderam o uso de cloroquina para tratamento da pandemia de Covid-19. O que, cá entre nós, não é um posicionamento típico do “campo da esquerda”, mas o contrário;
  3. Em 2023, quando a Comissão da Verdade da UFSC já havia concluído seus trabalhos e sugerido a mudança do nome do campus Trindade, o reitor e seu chefe de gabinete compareceram à Câmara de Vereadores de Florianópolis para receber a “Medalha João David Ferreira Lima”. Ou seja, o reitor “de esquerda” fez “ouvidos moucos” durante as tensas sessões do Conselho Universitário sugerindo ser favorável à mudança do nome do campus. Todavia, ao que consta, nem ele nem seu chefe de gabinete devolveram a medalha que homenageia o personagem que alguns de seus apoiadores queriam defenestrar. Por quê? A expressão para isso é “um pé em cada canoa”;
  4. Além disso, como diria o saudoso Mino Carta, é de conhecimento até do mundo mineral que, entre os apoiadores da atual reitoria, inclusive com cargos na administração, há aqueles que dizem, com todas as letras: “em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, votarei nulo porque ambos são neoliberais”. Ato contínuo, os seguidores dessa turma tocam as trombetas e ostentam a faixa “Lula, a culpa é sua. A greve continua”. Gesto similar jamais foi feito durante os quatro anos de governo Bolsonaro;
  5. Ou seja, além dos quadros associados à direita catarinense e dos defensores da cloroquina, a chapa do reitor traz consigo galopins de extrema esquerda cujo ponto de vista é o seguinte: se acham tão de esquerda, mas tão de esquerda que pensam que detêm o monopólio de dizer quem pertence ou não a esse campo político. O critério, obviamente, é: só é de esquerda quem concorda com eles. Ponto e vírgula;
  6. O reitor e seus apoiadores, que estão repostando a Fake News do magnífico e seu candidato a vice, sabem também que a Chapa 41 é apoiada por uma grande quantidade de militantes de esquerda, historicamente presentes nos movimentos sociais, como é o caso da própria candidata à vice-reitora, professora Felipa, com sua importante história em defesa do Sistema Único de Saúde e dos profissionais de enfermagem.

Mesmo que haja membros do alto escalão da reitoria com proximidade umbilical com a direita catarinense, isso significa que a chapa do reitor é de extrema direita? Mesmo que o reitor tenha apoiadores de peso que defenderam o uso de cloroquina durante a pandemia, daria para dizer que a chapa do reitor é negacionista? Eu, de verdade, não acredito nisso. Generalizar e simplificar com adjetivos uma chapa não ajuda em um debate sobre os problemas da universidade. 

Por fim, cabe também uma pequena reflexão sobre o papel das lideranças que não avançaram ao segundo turno. A votação expressiva da chapa Conhecer é Transformar demonstrou a força de suas ideias e a relevância política de seu eleitorado. Em um cenário como este, sua posição não é acessória. Ela é decisiva.

A experiência recente mostra que, em disputas de segundo turno, o posicionamento de lideranças pode influenciar de forma determinante o resultado. Em alguns casos, assumir posição tem custo. Em outros, não assumir também tem. 

Nesse sentido, a despeito da chapa não ter se posicionado explicitamente em favor de qualquer candidatura, é importante destacar o posicionamento de importantes lideranças desse grupo, historicamente associadas ao campo da esquerda. Diante do cenário político, assumiram suas convicções e manifestaram apoio à chapa Mudar para transformar 41. O corajoso gesto ajuda a desmontar a Fake News “esquerda x direita” colocada em curso pela candidatura situacionista. 

Lamentavelmente, ao invés de debater os graves problemas enfrentados pela UFSC nos últimos anos, o debate do segundo turno foi levado para um campo que acirra ainda mais os ânimos já naturalmente tensionados pela proximidade do pleito. Com seus vídeos de “camisas pretas”, a autoridade máxima da universidade e seu candidato a vice optaram pelo vale tudo eleitoral, em contradição frontal com o lema de sua campanha. Para atender ao gesto, uma tropa de choque entrou em campanha destilando agressividade contra seus adversários políticos.

Talvez a tática seja inspirada em Roger Stone, o bufão histriônico que assessorou Donald Trump. Afinal, a candidatura do reitor adota o princípio de que o ódio é uma força maior que o amor e que atacar é a principal estratégia para ocultar suas fraquezas. Ou, talvez, pela vestimenta dos vídeos e violência dos apoiadores, tenha origens mais distantes, na Itália de um século atrás. De qualquer forma, resta a nós, que acreditamos na democracia e no bom debate, enfrentar, votar e aguardar o resultado das urnas para que possamos cantar bem alto Bella Ciao. 

*Camilo Buss Araújo é professor do Colégio de Aplicação (CA) e ex vice-presidente da Apufsc-Sindical

Artigo recebido às 11h05 do dia 14 de abril de 2026 e publicado às 11h25 do mesmo dia