*Por Julian Borba
A Universidade pública é um espaço em que lutas, grupos e conflitos partidários estão presentes. Mas não se resume a isso. A vida acadêmica tem uma lógica própria, centrada em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão, que demandam autonomia em relação às esferas dos interesses econômicos e político-partidários. Não é demais retomar aqui a importância da luta pela autonomia universitária durante o processo de redemocratização do país.
É dentro dessa autonomia relativa que as eleições para a reitoria acontecem. Grupos se mobilizam em função de conflitos e questões internas, que podem ou não se relacionar com divisões políticas mais amplas. Em determinadas conjunturas, a relação entre política universitária e política partidária torna-se mais saliente; em outras, nem tanto. Mas é importante lembrar que as grandes questões que mobilizam os grupos internos dizem respeito às dimensões da vida universitária: ministrar aulas em ambientes adequados, garantir recursos para pesquisa, laboratórios, eficiência administrativa, condições de trabalho e permanência estudantil.
Desde o início do processo eleitoral de 2026, a comunidade acadêmica sabia que a tônica dos debates e conflitos a avaliação do trabalho de um incumbente candidato à reeleição. Contra ele, duas chapas se apresentavam como alternativas de mudança. A primeira (João e Luana, 63), formada por uma dissidência do grupo que administrava a reitoria, foi constituída por setores acadêmicos mais engajados na militância partidária de esquerda; a segunda (Amir e Felipa, 41), reuniu grupos com amplo espectro de preferências políticas, mas fortemente comprometidos com a Universidade pública e com a reconstrução da UFSC em suas diferentes dimensões. Importa lembrar que quadros acadêmicos relevantes do PT apoiavam essa última chapa e que ela se apresentou como sendo um modelo de “frente ampla” em defesa da Universidade.
Apesar das diferenças, há um ponto de convergência entre as duas chapas de oposição: o diagnóstico de que o incumbente havia realizado uma péssima gestão universitária, tanto nos aspectos gerenciais quanto políticos. A mudança, portanto, era necessária. Outras várias convergências estavam presentes nas propostas dos dois grupos, mas aqui não é o espaço para detalhar isso.
É importante recordar alguns elementos. O reitor passou quatro anos atribuindo ao governo Lula a responsabilidade por seu fracasso gerencial. Segundo ele, a UFSC não funcionava adequadamente devido à falta de recursos federais. Essa narrativa foi desmentida publicamente pelo Ministro da Educação em visita à universidade no final de 2025, quando disse que o problema da Universidade era “gestão” e não “orçamento”. Ainda assim, o principal ideólogo do reitor candidato chegou a publicar recentemente um artigo chamando o ministro de “mentiroso”. Trata-se do mesmo ideólogo que, no segundo turno de 2022, declarou voto nulo na disputa entre Lula e Bolsonaro.
O resultado do primeiro turno foi cristalino. A comunidade da UFSC majoritariamente optou pela mudança, com mais de 70% do eleitorado votando nas candidaturas de oposição. Por força do sistema eleitoral, a chapa da situação, com forte base entre os técnicos, conseguiu avançar ao segundo turno por margem mínima de diferença em relação à chapa 63.
Chega-se, então, ao segundo turno. Diante de um previsível fracasso eleitoral, o reitor candidato tenta transformar a disputa em uma clivagem esquerda/direita. As contradições desse discurso foram evidentes para qualquer observador atento: o reitor nunca foi de esquerda; seu chefe de gabinete foi recrutado em grupos da direita tradicional de Santa Catarina; seu vice apresenta uma trajetória política ambígua. Paralelamente, tentou-se rotular a chapa Amir/Felipa como “fascista”, de extrema direita, com todos os impropérios associados a esse campo ideológico.
Que essa estratégia tenha sido utilizada pelo incumbente é compreensível (mas não aceitável). Afinal, tratava-se de uma tentativa desesperada de sobrevivência eleitoral. O que não é compreensível é que lideranças importantes de partidos como o PSOL (majoritariamente) e o PT, às vésperas de uma eleição presidencial decisiva, tenham aderido a esse enquadramento simplista. Seus posicionamentos foram no mínimo inadequados, para não dizer irresponsáveis. Convém relembrar o que foi mencionado acima: o reitor passou quatro anos atacando o governo Lula e o orçamento das universidades. Durante a greve de 2024, posicionou-se mais como líder de mobilização do que como reitor. Ainda assim, tais elementos parecem não ter sido considerados na decisão de apoio à chapa Irineu/Moretti.
Independentemente do resultado, o que se viu foi um erro político evidente. Ao trocar análise por simplificação, setores da esquerda demonstraram não compreender a realidade que pretendem disputar. Resta agora que relações sejam reconstruídas para o bem da UFSC.
*Julian Borba é professor do departamento de Sociologia e Ciência Política (CFH/UFSC)
Artigo recebido às 10h46 do dia 16 de abril de 2026 e publicado às 11h33 do mesmo dia
