*Por Armando Lisboa
“Um homem que transgrediu um tabu se torna, ele próprio, um tabu, porque tem a perigosa capacidade de tentar os outros a seguirem seu exemplo. Ele é, portanto, verdadeiramente contagioso” (Freud)
Na semana passada tivemos a posse do novo Reitor e sua equipe. Nela está o Presidente da Apufsc, prof. Carlos Alberto Marques (Bebeto), o qual acumula a nova função com o mandato sindical. Ou seja, não renunciou, fato justificado pela própria Diretoria. Um presidente de sindicato adentrar, no meio do mandato, à gestão da universidade, é inédito entre nós, mas revelador do que é a Apufsc/Proifes: puramente chapa branca, ou seja: pelega!
É uma clara traição ao anunciado pela sua chapa “Somos Apufsc” quando das eleições sindicais em 2024: “um sindicato não é um partido político, uma reitoria e tampouco um clube social”…
Apesar do Estatuto (art. 30, § 4o) exigir a renúncia, a Diretoria já anunciou que ele não cairá. Também é surpreendente que isto surja quando já estamos na reta final do mandato de Bebeto (as próximas eleições da Apufsc ocorrem em exatos três meses). É abusivo concluir que esta postura, no mínimo, reflete uma impaciência infantil, ou que a Apufsc se tornou apenas um trampolim para a pulsão de poder de alguns?
Não podemos normalizar esta inadmissível e gravíssima situação. Bebeto quer conciliar o inconciliável: jogar nos dois lados da mesa de negociação (na posição patronal e na posição do trabalho). Este conluio não traz bons augúrios para o sindicato, pelo contrário: é nefasto, pois captura o sindicato por grupos de interesse alheios à sua missão, levando a Apufsc navegar por correntes e mares não sindicais.
Transpor para o seio do sindicato diferenças postas em outros âmbitos da universidade é uma prática divisionista, perversora do pacto entre colegas gerador da força sindical. Etimológica e rigorosamente esta é uma ação “diabólica”, pois provocadora de divisões e discórdias.
Mas corroer a organização docente conflui para a desintegração da comunidade universitária. Sindicato e Reitoria é uma mistura química instável, destrutiva, debilitando, também, a própria gestão de Amir/Felipa. Esta aliança traz para o colo da nova gestão a denúncia do Irineu manipular o Sintufsc criticada pela oposição na última disputa eleitoral, desmascarando os sinistros arranjos de
bastidores então feitos. Agora descemos um patamar: do oculto (pois intolerável) flerte, para o próprio palco do cenário.
Seria natural comparar com Sérgio Moro e com aqueles que, ao comporem governos, desnudaram sua parcialidade e falta de caráter, pois conspiravam por traz dos panos, maculando e traindo a função que então ocupavam. Mas o caso é ainda pior do que Moro. Este, pelo menos, renunciou a sua posição arbitral ao assumir um ministério de JB (Bebeto sequer assumiu cargo no primeiro escalão).
Para muitos Moro foi um Macunaíma, um “herói sem nenhum caráter”. Todavia, ainda que nos tempos atuais a condição de professor seja, por si só, cada vez mais heroica, a identidade macunaímica tampouco se aplica a Bebeto, pois este tratamento – já que é desnecessário qualificar o caráter do nosso colega – exigiria algum feito heroico particular: existe?
Se Mario de Andrade não ajuda a retratar adequadamente a presente situação, ela configura uma ilustração crua do que Goethe, Nietzsche e Freud expuseram. De Goethe, salta aos olhos seu clássico relato do pacto de Fausto com o demônio, cuja maligna presença aqui já foi observada. Nietzsche nos traz a imagem do “super-homem”, um ser capaz de ultrapassar todos os padrões, forte o suficiente para prescindir de performar tanto como herói quanto de todas as virtudes. Freud, por sua vez, para além da epígrafe neste artigo, já foi aqui aludido com os conceitos de pulsão e de insaciabilidade infantil. Valeria a pena analisar nossa circunstância também com a freudiana categoria da libido narcísica, mas isto seria um trabalho psicanalítico muito além das minhas capacidades.
Por fim, um pequeno esclarecimento: em verdade, a Apufsc foi fundada por iniciativa do então vice-reitor Hamilton Schaeffer, quando da dura disputa entre ele e o reitor Roberto Lacerda. O prof. Hamilton então será, concomitantemente, presidente da Apufsc. Mas, aquela Apufsc era uma “associação”, o que ficou inscrito, de forma clara e literal, no nome do clube então fundado. Não era, na origem, um sindicato. Como sabemos, a mutação para a forma sindical iniciará apenas com a eleição do professor Maciel, substituindo Hamilton, o qual, aliás, não veio para a posse do novo presidente, denotando a profunda mudança ocorrida. Desde então nunca tivemos um sindicato “chapa branca”.
*Armando Lisboa é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais do Centro Socioeconômico (CNM/CSE) da UFSC e ex-diretor da Apufsc-Sindical (2006-2010)
Artigo recebido às 9h45 do dia 15 de julho de 2026 e publicado às 17h32 do mesmo dia
