*Por Camilo Buss Araujo
O ato de contar uma história é também um ato de escolha. Ao estabelecer quem deve ser lembrado, imediatamente há uma escolha de quem será esquecido. Na bonita homenagem aos 65 anos do Colégio de Aplicação (CA), proposta pelo deputado Pedro Baldissera (PT), houve o importante reconhecimento de pessoas que marcaram a história do CA. Talvez a mais emblemática delas tenha sido a da professora Maria Elza de Oliveira Lima, que acompanhou muitas gerações de estudantes ao longo das décadas de trabalho dedicado à instituição.
Impossível não lembrar da primeira vez que a vi, no longínquo ano de 1995. Rosto jovem, cabelos brancos, andando pra lá e pra cá no pátio onde os pequenos faziam a fila para entrar em sala de aula. Meses depois de a conhecer e a partir de uma experiência parecida, iria compreender como o trabalho, e no caso a UFSC, poderia ser um remédio eficaz para atenuar as dores da vida.
No entanto, em meio às outras 30 justas homenagens feitas naquele dia, ecoaram os silêncios daqueles que não foram lembrados. Claro, não é possível citar todos e, por isso, a memória é inerentemente uma ação seletiva.
A minha primeira história com o Colégio de Aplicação foi em 1995, mas ele passou a fazer parte da minha vida em 2010 quando fiz o concurso que me permitiu ingressar na instituição. Tomei posse logo após a aposentadoria de dois professores que marcaram profundamente o CA: Rodolfo Pantel e Marise Silveira. Curiosamente, ambos escreveram suas histórias no Colégio de Aplicação através de trabalhos relacionados à valorização da história latino-americana. Esta pela produção acadêmica voltada ao ensino de história da América Latina, que resultou na criação da disciplina de Estudos Latino-Americanos (ELA), a qual orgulhosamente lecionei por 12 dos 14 anos que lá estou. Rodolfo é sempre lembrado por suas aulas entusiasmadas, pelo posicionamento crítico em relação às desigualdades do mundo e pelo jeitão meio hippie, com cabelos compridos, barba grande e calças largas.
Além disso, Rodolfo encampou, junto com outra professora do CA, Danuza Meneguello, o Projeto Córdoba, o mais antigo acordo de cooperação internacional da UFSC. Rodolfo estava lá na cerimônia da Alesc, sentado ao lado do professor aposentado e ex-diretor José Análio de Oliveira Trindade, lembrado carinhosamente por ex-alunos pelas aulas que transformavam a aridez da matemática em algo leve e, na medida do possível, prazeroso. Tive o prazer de conhecer e conviver com esses e tantos outros que não foram homenageados, mas que não deveriam ser esquecidos.
No discurso durante a solenidade, o reitor da UFSC, recém-eleito para o mandato 2026-2030, ressaltou a centralidade do professor. Sua fala me fez recordar um dado crucial, que merece ser sempre lembrado em tempos tão desafiadores para a atividade docente: em um passado recente, quase 50% dos professores do Colégio de Aplicação da UFSC eram substitutos, pois não havia reposição automática de vagas de aposentadoria por meio de concursos para o quadro efetivo. O certame de 2010 mudou esse cenário, tornando-se o maior da história do CA, com 37 vagas para docentes efetivos em todas as áreas de ensino.
Foi nessa época de intensa mobilização que se consolidaram dois dos mecanismos institucionais mais vitais para a sobrevivência e o pleno funcionamento do colégio: o banco de professor equivalente da carreira EBTT, que assegura a reposição imediata de vagas de aposentadoria com docentes concursados; e uma matriz orçamentária própria para a educação básica das universidades federais, a chamada Matriz Condicap ou Matriz 20RI.
Nesse contexto, é fundamental destacar que o principal artífice dessas conquistas foi o diretor do CA à época, o professor Romeu Augusto Bezerra. Romeu dirigiu o colégio por oito anos e presidiu o Conselho Nacional dos Dirigentes das Escolas de Educação Básica das Instituições Federais de Ensino Superior (CONDICAP). Sua atuação firme e diligente, tanto no CA quanto em Brasília, construiu os instrumentos políticos e jurídicos que garantiram a recomposição dos quadros e recursos orçamentários próprios para a educação básica da UFSC e de outras universidades federais.
Essas e outras histórias precisam ser registradas para que possamos compreender o cenário atual como o resultado de um processo permeado por escolhas que nos levaram a determinadas condições.
Evidentemente, o Colégio de Aplicação de hoje é muito diferente daquele criado há 65 anos. Novos desafios se impõem para espaços que se propõem a olhar para o mundo com base na ciência e no pensamento crítico, como as universidades e suas unidades de educação básica. Crescem discursos autoritários, que buscam criminalizar os serviços públicos, militarizar o ensino e perseguir professores. O mundo mudou, tecnologias irromperam as relações sociais e de trabalho.
Nesse contexto, também precisamos nos perguntar por que as unidades de educação básica das universidades federais não receberam o mesmo investimento estrutural de expansão que os institutos federais. Não há uma resposta exata, mas a solenidade na Alesc deixa clara a importância do CA para a UFSC e para a sociedade catarinense. Todavia, há histórias que não foram lembradas. Registrá-las talvez seja um bom começo para traçar linhas e tentar desenhar o futuro.
*Camilo Buss Araújo é professor do Colégio de Aplicação (CA) e ex-vice-presidente da Apufsc-Sindical
Artigo recebido às 17h19 do dia 17 de julho de 2026 e publicado às 18h34 do mesmo dia
