“Sem igualdade de gênero, raça e etnia, não há desenvolvimento”, defende ministra na reunião anual da SBPC

Márcia Lopes apontou problemas estruturais que impactam a equidade de direitos e antecipou parcerias com o MEC e o MCTI

Abrindo o calendário de conferências especiais com representantes do poder político na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a ministra Márcia Lopes, titular do Ministério das Mulheres, fez um breve panorama das ações do órgão, que encabeça há pouco mais de um ano. Para Lopes, o desafio é conscientizar a sociedade e os tomadores de decisão de que não existe avanço nacional sem desenvolvimento igualitário.

“Sem igualdade de gênero, raça e etnia, não há desenvolvimento. Não há desenvolvimento econômico, científico ou tecnológico quando mais da metade das mulheres encontra ainda barreiras para estudar, pesquisar, inovar, empreender e ocupar espaços de liderança”, defendeu.

A ministra apontou que existem desigualdades estruturais que influenciam nesse cenário, como a sobrecarga de trabalho enfrentada por mulheres e a desigualdade salarial. “Nós temos uma lei de igualdade salarial sancionada desde 2023, entretanto o nosso quinto relatório apontou que ainda, para a mesma função, as mulheres recebem 23% menos salário. Qual a razão disso?”, questionou.

Entretanto, a ministra disse que avanços estão acontecendo. Entre eles, o mesmo relatório apontou que houve um crescimento de 11% de mulheres entrando no mundo do trabalho e, em recortes sociais, a inclusão de 29,9% das mulheres negras neste mesmo mercado. “Mas é claro, infelizmente ainda não estão em espaços de liderança.”

Lopes defendeu o papel da Ciência, que sofre consequências e também reproduz esse mesmo panorama. “O Brasil já demonstra o enorme potencial das mulheres, elas representam 57% das pessoas tituladas na pós-graduação, mas ainda são minoria nos espaços de maior prestígio e decisão da Ciência. São apenas 23% do corpo docente das engenharias e 24% das Ciências Exatas e da Terra. Esses números revelam que o desafio não é de capacidade, mas é de oportunidade.”

Entre os caminhos, a ministra defendeu o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, iniciativa sancionada em fevereiro e que integra os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário em uma agenda em comum para unificar ações de prevenção, agilizar medidas protetivas e combater a impunidade da violência de gênero.

A ministra afirmou também que a Pasta vem elaborando protocolos com o Ministério da Educação (MEC) e que uma parceria concreta com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) deve vir em breve. “A ministra Luciana Santos pediu uma agenda comum, articulada e estamos idealizando”, detalhou.

Por conta dos protocolos pré-eleições, Lopes não pode citar nomes dos envolvidos em demais ações, mas contou que os debates sobre políticas para mulheres chocam os fazedores de políticas:

“Um tempo atrás, um ex-ministro da Fazenda me perguntou: ‘qual o índice de violência contra as mulheres no Brasil no geral?’. E eu respondi: ‘O índice? 100%’. Aí ele me olhou assustado e questionou: ‘100%?’. E eu: ‘É… Você conhece alguma mulher que nunca se sentiu ultrajada, discriminada, julgada, rotulada, ofendida e humilhada? Que não sofreu algum tipo de violência, seja as que a Lei Maria da Penha estabelece, seja as violências que vamos encontrando pela vida?”

Lopes comemorou a realização da 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em 2025 e que gerará um Plano Nacional de Políticas para Mulheres, a ser lançado ainda no segundo semestre de 2026, e o Sistema Nacional de Políticas para Mulheres, que sairá em seguida. “É um desafio grande, porque as políticas para mulheres dialogam com todo mundo.”

Assistente social e professora aposentada da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a ministra afirmou que a 78ª Reunião Anual da SBPC tem muito a acrescentar nesse debate. “Fico muito feliz que as políticas das mulheres estejam em debate aqui na SBPC, porque assim abrem muitas possibilidades de futuro.”

A presidente da SBPC, Francilene Garcia, reforçou a importância de se ter o debate de políticas para mulheres em um evento científico.

“Esta conferência tem um especial valor para a 78ª Reunião Anual da SBPC. Ela integra uma rica trilha de programação sobre gênero e traz, neste processo de debate e discussão, as iniciativas que já estão ocorrendo e que formam o enfrentamento e combate à violência de gênero em seus diferentes aspectos e dimensões. O objetivo é refletir de que maneira a Ciência pode cada vez mais fundamentar e trazer uma discussão qualificada para o combate à violência e para a produção de políticas públicas, além de apresentar números e evidências, que são fundamentais”, concluiu.

Assista à conferência completa:

Fonte: Jornal da Ciência