*Por Carlos Soares
“Brigar” com a realidade ou com os fatos sempre é uma péssima opção. Tentar distorcê-los para impor uma narrativa, além de também não ser uma boa opção, ainda tem consequências muito mais nefastas. A Diretoria da Apufsc reage à realidade que se impõe de forma autoritária e pouco inteligente. E, sempre que os fatos não lhe agradam, reage tentando manipular de forma a desqualificar aqueles que são os autores dos fatos. A Diretoria usa e abusa desse expediente desprezível. Continuam tentando vender a ideia de que “grupos de inconformados” estão promovendo a desestabilização da Diretoria – eles dizem, o Sindicato. A Oposição é o “demônio”, responsável pelas “críticas infundadas” sobre as afrontas recorrentes ao Estatuto da Apufsc. E, na tentativa de manter o domínio da situação, continuam elegendo o grande inimigo comum: o Andes. Essa é uma tática bem conhecida…. Fomentam o ódio ao Andes ao mesmo tempo que tentam agradar aos setores mais conservadores da UFSC. Numa total inversão de valores, apresentam a versão na qual não são os tiranos, e sim as vítimas. Versão esta que os fatos desmentem em uma análise não muito aprofundada. Por exemplo, recorreram ao TST para manter uma posição insustentável de que tinham razão em não convocar uma assembleia que foi autoconvocada por requerimento de centenas de sindicalizados. Algo que o Estatuto da Apufsc, o bom senso e o respeito aos sindicalizados definem como óbvios e essenciais.
Uma das últimas versões dessa alegada “guerra” contra a Diretoria agora envolveu a recente polêmica criada em torno da renúncia ou não do presidente da Apufsc, em função de ele ter assumido um cargo na Administração Central da UFSC. Os docentes mais antigos devem se lembrar de que essa era uma regra bem básica e que não era questionada: quem tem cargo na Administração Central da Universidade não assume cargo na Diretoria e vice-versa. E então, depois de certa pressão, o presidente apresenta sua carta de renúncia, por óbvio, cumprindo o Estatuto da Apufsc. Mas a sua carta de renúncia, ao contrário de ser um texto pacificador da questão, é a defesa de que está renunciando, mas que não precisava (regimentalmente) ou não deveria fazer isso. E dispara a “metralhadora giratória”… Um show de horrores, é sofrível. Restou, pois, tentar desqualificar e desmoralizar a oposição.
Não vale a pena ficar discutindo ponto a ponto as acusações. Mas, entre as várias acusações, uma merece a nossa atenção e discussão: “Reluto contra essa ‘falsa polêmica’ e contra o fato de ela ser explorada por aqueles que não querem um sindicato autônomo e independente, mas que seja subordinado a uma organização nacional rígida, desfuncional, descolada dos filiados,…”. Obviamente, estava se referindo ao Andes. Ora, mas não somos subordinados a uma organização “quase” nacional, rígida, disfuncional e descolada dos filiados?
Vejamos os fatos. Quando se diz: “explorada por aqueles que não querem um sindicato autônomo e independente”, está falando de quem?
O conceito de sindicato independente é muito antigo no movimento docente nacional, teve origem na década de 1980. Quando a Andes – Associação Nacional dos Docentes das Universidades Federais foi formada e, em especial, quando o Sindicato Nacional dos Docentes das Universidades Federais (Andes-SN) foi constituído, em 1988, uma grande discussão nacional se estabeleceu em torno do formato que o novo Sindicato deveria ter. Deveria ser um Sindicato Nacional único com Seções Sindicais ou deveria ser uma espécie de federação com sindicatos independentes? A discussão foi longa e calorosa e, como todos podem constatar, venceu o formato que vigora por quase quarenta anos. Ou seja, a esmagadora maioria dos docentes universitários do país escolheu um Sindicato Nacional Único. A tese do sindicato independente perdeu. E este não é um fato qualquer. Um sindicato único agiliza a tomada de decisão e a interlocução com um negociador. Um sindicato com 75.000 sindicalizados ganha uma força extraordinária.
Docentes filiados à Associação dos Docentes da Federal de Minas Gerais discordaram e nascia ali um grupo divergente. Em 2009, num contexto de divergência com o Andes, o conceito foi “requentado” aqui na UFSC. E teve grande aceitação, emplacou e foi criado o Sindicato Independente – Apufsc. Juntamo-nos, portanto, a um grupo minoritário de oposição ao Sindicato Nacional, que de lá para cá só diminuiu; hoje somos 5 sindicatos. Nem os docentes da emblemática ADUFSCar, do Sr. Gil Vicente, um dos expoentes máximos (na época) da oposição, permanecem no grupo minoritário.
O que aconteceu em 2018? Depois de um debate intenso, que começou no final daquele ano, os professores filiados à Apufsc-Sindical decidiram, em abril de 2019, que o sindicato deveria se vincular a uma entidade de abrangência nacional. Em outras palavras, reconhecendo o erro da escolha de 2009 e que, como sindicato independente tal qual foi “projetado” quando da desfiliação do Andes, não nos interessava mais ser. Portanto, o conceito de sindicato independente já foi derrotado em votação aqui na UFSC também (novamente). Quanto aos adjetivos: “seja subordinado a uma organização nacional rígida, desfuncional, descolada dos filiados”…..Lembrem-se da mobilização de 2024, quem representou quem? Tentem se lembrar (em vão) de qual momento nós elegemos em assembleia um representante efetivamente nosso para nos representar em qualquer fórum nacional… Como achar possível que existe a possibilidade de diálogo com o Conselho Deliberativo da Proifes?
Em tempo, a ideia de uma Federação de Sindicatos Independentes nunca foi defendida e perseguida pelo grupo que hoje domina politicamente a Proifes. Sempre quiseram e tentaram ser um Sindicato Nacional. Disputaram várias eleições internas do Andes e perderam todas. Tentaram constituir um
sindicato nacional, num autêntico golpe, em assembleia realizada em setembro de 2008 na sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Paulo, com 115 docentes votantes. A entidade então criada não obteve sucesso em consolidar o registro como sindicato nacional de docentes federais, migrando posteriormente para o formato de federação (Proifes-Federação). Em resumo, perderam na Justiça do Trabalho e perderam na política. Que isso fique bem claro para os novos docentes da UFSC: a Proifes é hoje uma Federação porque nunca conseguiu ser sindicato nacional, nunca venceu a disputa política com a esmagadora maioria dos docentes das Universidades Federais. Somos 69 Universidades Federais; 5 sindicatos destas estão na base da Proifes (RN, GO, SC, BA (?) e RS). E dizer que são 5 bases é força de expressão, pois a reação dos docentes dessas universidades é significativa contra a Proifes. Vejam o que aconteceu na mobilização de 2024.
A grande questão a ser discutida é como o conjunto dos sindicalizados percebe esses movimentos — as atitudes da Diretoria.
Uma outra pergunta que deveria ser feita é: por que os docentes das Ifes deveriam ter dois representantes na mesa de negociação? Dois representantes que não se articulam entre si, não combinam estratégias comuns e defendem posições diferentes. Defender posições diferentes pode ser produtivo, mas esse processo deve ser feito no âmbito do movimento docente, internamente, não sentados na frente do “patrão”.
A polarização nacional passou a ser um problema local quando a Apufsc se filiou à Proifes. As disputas políticas internas da UFSC, que sempre existiram, assumiram um caráter absurdo, totalmente improdutivo. Quando a Diretoria atual capitula cegamente aos objetivos da Proifes nacional, o diálogo produtivo e necessário se encerrou. O impasse está estabelecido. O tal Sindicato Independente e Autônomo foi enterrado.
Em outubro teremos eleições para a Diretoria da Apufsc, um importante momento para reflexões e possíveis mudanças.
Assim, é disso que estamos falando: o Sindicato é o instrumento para organizar a luta sindical docente. E, para tanto, temos que ter uma Diretoria que esteja sincronizada com a mobilização docente e com a conjuntura política/sindical nacional. Aqui me refiro à imensa maioria dos docentes federais, não a uma minoria inexpressiva. Trata-se, portanto, de uma disputa política legítima pelos caminhos e pela ação do Sindicato. Por um projeto político para a Apufsc, bem diferente do atual e que essa volte a ter o protagonismo nacional e o respeito da categoria que já teve. E neste contexto, é preciso entender que a discussão iniciada em 2018 e que se estendeu até 2022 deixou bem claro que não existe uma “terceira via” para o movimento docente: ou nos juntamos a grande maioria dos docentes federais ou permanecemos com a minoria. Uma boa hora para avaliar e rediscutir.
*Carlos Soares é professor do CCB/UFSC
Artigo recebido às 12h02 do dia 17 de agosto de 2026 e publicado às 13h do mesmo dia
