Dados são de levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) em parceria com a Educa Insights
O dinheiro que sai do orçamento da família para uma plataforma de apostas não volta em forma de arroz, de conta de luz paga ou de mensalidade em dia. Essa constatação, que já era vivida em milhões de lares, atinge também a educação. Um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) em parceria com a Educa Insights estima que cerca de 2 milhões de brasileiros podem ter a trajetória acadêmica afetada pelo comprometimento da renda com apostas.
A conta reúne dois grupos. De um lado, 986 mil potenciais ingressantes poderiam deixar de efetivar a matrícula em 2026 por causa dos gastos com apostas. De outro, 14% dos universitários entrevistados disseram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso pelo mesmo motivo. O índice, aplicado às mais de 8 milhões de matrículas da rede privada, ultrapassa 1,1 milhão de estudantes. Outro levantamento, do Instituto Semesp, mostra que 19,1% das instituições privadas pesquisadas já perceberam relação entre apostas online e inadimplência de alunos.
De acordo com os levantamentos, as bets não são a única causa das dificuldades financeiras, que também dependem de renda familiar, emprego e outras despesas. O que os dados sugerem é que a aposta se soma a esses fatores e pode comprometer o orçamento destinado aos estudos, inclusive de quem depende de programas como o Prouni e o Fies, já que o comprometimento da renda pode dificultar a comprovação da situação socioeconômica exigida por essas políticas.
O problema educacional é uma face de um desequilíbrio maior. Segundo estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), os brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões líquidos para as bets em 2025, cerca de R$ 5,2 bilhões por mês. Um levantamento com base em dados do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio, aponta que o desvio de renda para as apostas e a inadimplência decorrente retiraram R$ 143 bilhões do varejo entre 2023 e 2026. Há ainda o custo para a saúde: segundo o Ministério da Saúde, os atendimentos ligados ao vício em jogo e a problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025.
A lógica do jogo mostra que quem perde tende a apostar de novo para recuperar o prejuízo, recorre ao cartão, toma empréstimo ou deixa contas vencerem, e o endividamento passa a alimentar a próxima aposta. Foi nesse cenário que o governo federal anunciou, em 25 de setembro, a proibição das bets através da Medida Provisória 1.394, o que representa para muitas famílias a chance de interromper o ciclo.
Histórico
As bets entraram oficialmente no Brasil com a sanção da Lei 13.756, em 12 de dezembro de 2018, no governo Michel Temer. A norma criou a modalidade das apostas de quota fixa, ligada inicialmente a eventos esportivos. A lei entregou ao governo federal a tarefa de definir as regras de funcionamento, mas a gestão Bolsonaro não concluiu essa regulamentação no prazo previsto, e o setor se expandiu sem um marco claro de fiscalização.
Apenas com o presidente Lula, em julho de 2023, o governo editou a Medida Provisória 1.182, que alterou a lei de 2018. O processo resultou na Lei 14.790, sancionada em 29 de dezembro de 2023, que ampliou o mercado regulado para os jogos online e passou a exigir autorização prévia do Ministério da Fazenda, com cobrança de outorga de R$ 30 milhões por licença de cinco anos, válida para até três marcas.
A operação regulamentada começou em 1º de janeiro de 2025, quando somente as empresas autorizadas passaram a poder atuar legalmente, com domínio “.bet.br”. Porém, os prejuízos à sociedade fizeram o governo Lula mudar de rumo e proibir a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no território nacional. Como toda medida provisória, ela precisa ser apreciada pelo Congresso para se tornar lei.
O Senado abriu uma consulta pública para saber se a população apoia ou não a MP. Até o momento, 84% dos votantes são favoráveis à proibição. Vote aqui.
Fonte: Contee
