O ódio obscurece a razão?

*Por Carlos Montez

Há na Internet, nas redes sociais, um esquete interessante, no qual uma pessoa a quem foi oferecida água mineral com gás recusa veementemente, dizendo que odeia esse tipo de bebida. O ódio dela é tão imenso que, por mais absurdo que possa parecer, ela procura uma garrafa de água sanitária (lixívia) para tomar, mesmo diante do espanto das outras pessoas que a cercam.

A esquete segue… mas vamos agora cortar para a nossa realidade. Vamos aos fatos, sob o ponto de vista do servidor público.

Governo Temer
2017 – Inflação: 2,95% – Reajuste salarial oferecido: 0%
2018 – Inflação: 3,75% – Reajuste salarial oferecido: 0%

Governo Bolsonaro
2019 – Inflação: 4,31% – Reajuste salarial oferecido: 0%
2020 – Inflação: 4,52% – Reajuste salarial oferecido: 0%
2021 – Inflação: 10,06% – Reajuste salarial oferecido: 0%
2022 – Inflação: 5,79% – Reajuste salarial oferecido: 0%

O total da inflação pelo IPCA no período foi de cerca de 35% (e 72%, segundo o IGP-M), calculados a partir da última reposição dada durante o governo Dilma. Foram, portanto, 6 anos sem a concessão de novos reajustes salariais, além de fortes cortes e contingenciamentos de recursos das IFES. Não bastasse isso, houve, no início do governo Bolsonaro, em 2019, a Reforma da Previdência, que reduziu benefícios e endureceu as regras para aposentadoria.

Em uma eventual nova gestão alinhada com o mesmo grupo político, uma das poucas propostas feitas relacionadas à educação refere-se à transferência das universidades do MEC para a alçada do Ministério da Ciência e Tecnologia, atrelada a um forte plano de contenção de despesas. Há vários debates sobre o assunto, mas dificilmente qualquer pessoa ligada à comunidade universitária pode deixar de perceber que essa manobra terá como consequência reduzir o espaço e o financiamento de diversas áreas relacionadas às ciências humanas. Áreas como licenciaturas, artes, letras e comunicação social, ciências sociais, ciências biológicas, saúde coletiva, dentre inúmeras outras, poderão ser consideradas improdutivas através dessa visão tecnicista da ciência.

Diante desses fatos do passado e da perspectiva de um possível futuro, uma questão que permanece é: por que um servidor público se dispõe a “tomar água sanitária” no contexto atual? Fica aqui a minha perplexidade diante dessa situação.

Carlos Montez é professor do Departamento de Engenharia de Automação e Sistemas (CTC/UFSC)

Artigo recebido às 14h54 do dia 8 de outubro de 2026 e publicado às 15h21 do mesmo dia