Prosperidade para quem? 

*Por Samuel da Silva Mattos

Abro a janela neste outubro de 2026 e o ar traz o mesmo cheiro de promessa barata  que, há quarenta e dois anos, empaca as esquinas da nossa história.  

Ligamos a televisão e lá está o candidato ilusionista, operando o seu mais novo  truque de prestidigitação eletrônica: o “Ministério da Prosperidade”. Um nome  pomposo, reluzente, saído diretamente de um manual de coaching financeiro  quântico ou de algum altar eletrônico onde se barganha o milagre pelo Pix. 

Imediatamente, o fantasma de George Orwell senta-se à mesa e pede um café. Ele  sorri com o refinamento de quem já previu a picaretagem conceitual da nossa  época. No seu clássico 1984, o Ministério da Fartura gerenciava a escassez; o da  Verdade fabricava a mentira. Agora, em solo brasileiro, a Novafala ganha sotaque  de gabinete: o candidato tenta nos convencer de que a riqueza nacional brotará de  um carimbo burocrático. Batiza-se a pasta com o nome daquilo que ela fatalmente  irá sonegar ao povo, enquanto o eleitor, hipnotizado pelo neologismo da moda, é convidado a acreditar que a miséria estrutural se resolve com mentalidade de  tubarão e frases de efeito. 

É precisamente nessa semântica do absurdo que emerge o paradoxo central da  peça: a colisão frontal entre a promessa de opulência e a realidade do “Tesouraço”.  Enquanto a propaganda de segundo turno jura que ninguém vai mexer nos  programas sociais — com o cinismo de quem tenta passar uma rasteira verbal na  própria cartilha econômica —, a equipe do candidato desenha, nos bastidores de  Brasília, uma “Super PEC” de corte radical. Promete-se um ajuste fiscal na casa dos  R$ 200 bilhões. Onde o corte irá sangrar? 

Para que a conta feche sem que os ricos percam um centavo, o “Tesouraço” avança  sobre os pisos constitucionais da saúde e da educação, ameaçando congelar o  poder de compra do salário mínimo e sufocar as verbas discricionárias de políticas  públicas vitais. A maior parte das brasileiras e dos brasileiros — a imensa maioria  vulnerável que, pela primeira vez na história recente, foi timidamente incluída no  Orçamento público para não morrer de fome — está na mira da lâmina. O paradoxo  é cruel e absoluto: o candidato cria uma ficção ministerial chamada “Prosperidade”  para camuflar o extermínio planejado da rede de proteção social daqueles que mais  precisam. Trata-se de um estelionato programático em dois atos: vende-se o  enxugamento feroz para os banqueiros da Faria Lima e o milagre do emprego estatal  para o espectador desavisado da televisão. É Orwell puro: a mentira  institucionalizada como plataforma eleitoral.

Mas a pergunta que ecoa pelas frestas dessa crônica do absurdo cotidiano é uma  só: prosperidade para quem? 

A resposta não está no futuro fictício das propagandas, mas no passado concreto  das investigações. Há um cinismo atroz, digno das sátiras mais ácidas, quando um  candidato cujo nome tornou-se sinônimo de “rachadinhas” — o confisco  sistemático de salários de assessores — propõe gerenciar o fluxo de microcrédito  e a emancipação dos mais pobres. O verniz moral da proposta racha antes mesmo  de a tinta do decreto fictício secar. Sob a ótica do escárnio, o “Ministério da  Prosperidade” rapidamente ganha as ruas com o seu apelido real e inevitável: o  Ministério da Rachadinha. O perigo de transformar a assistência social em um  balcão de negócios privatizado, onde o dinheiro público escorre pelos dutos  ocultos que alimentam o submundo das milícias, deixa de ser uma distopia literária  e vira uma ameaça real à nossa porta. 

O “Ministério da Prosperidade” não passa de uma miragem de deserto, uma cortina  de fumaça semântica desenhada para ocultar o patrimonialismo mais tacanho e o  despejo dos pobres do orçamento federal. Ao fim do espetáculo de sombras deste  outubro de 2026, o que resta não é o enriquecimento do cidadão comum, mas a  velha e manjada engrenagem de captura do Estado. Diante de tanta elucubração, a  crônica do nosso cotidiano fecha as cortinas com uma certeza definitiva: o  candidato promete o paraíso da prosperidade, mas o seu truque de mágica só  garante a fartura dos mesmos bolsos de sempre.  

Orwell entenderia perfeitamente; Cícero choraria de novo.

*Samuel da Silva Mattos é procurador da Fazenda Nacional aposentado, professor de Direito Constitucional da UFSC, advogado, filósofo e cronista do quotidiano.

Artigo recebido às 13h04 do dia 12 de outubro de 2026 e publicado às 12h41 do dia 14 de outubro de 2026